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Éramos três, eu, o Manuel Sequeira e a Ana Pereira, e estávamos nas Ilhas Canárias a convite da Binter, linhas aéreas locais, para conhecer Las Palmas e Santa Cruz de Tenerife, onde iria decorrer a primeira edição da ‘Binter Night Run’.
Ainda pensei em sacrificar-me em nome desta ‘experiência’, mas a favor do descanso e da prevenção de eventuais lesões (ou desmaios...), deixei a corrida para o Manel e para a Ana, afinal eles estão habituados a estas andanças, para além de o primeiro escrever na ‘Revista Atletismo’, e a segunda na ‘Atletismo Magazine’ e no blog ‘Maria Sem Frio Nem Casa’, onde falam sobre a sua paixão: o atletismo.
Antes, em Las Palmas, fomos apanhados em plena rodagem do filme ‘Allied’, com Brad Pitt como protagonista. Depois, já em Santa Cruz de Tenerife, era a vez de os atletas emprestados à ‘Revista Record’ mostrarem o que valiam numa night run. Mas deixemos os próprios contar como foi...
‘Ânimo, venga’
Comecemos pelo Manuel Sequeira. "Havia duas provas, uma de 5 e outra de 10 quilómetros. Eu e a Ana fizemos o aquecimento habitual debaixo de fogo de artifício. As ruas tingiram-se de verde, a cor da Binter, enquanto os muitos espectadores incitavam os atletas com ‘ânimo, ânimo, venga, venga’. Demos duas voltas a um circuito que tinha 5 km e passava por bairros emblemáticos da cidade. Durante o percurso, achámos curiosa a chamada de atenção aos atletas com placas dizendo: ‘Atención, duplo giro.’ Tratava-se de uma curva e contracurva. Curiosamente e ao contrário do que sucede em Portugal, a prova principal teve menos participantes do que a de 5 km. E na dos 10 km, houve apenas três veteranos no escalão +60 anos e dois no escalão + 65 anos. Em Portugal, há muitos mais a correr. Gostámos bastante da experiência."
Mas a Ana Pereira também tem muito que contar. "Esta rapariga saloia, dos subúrbios de Lisboa, vai participar numa corrida! Aos saltinhos, um nervoso miudinho sem saber porquê e já devidamente equipada. Mentira! Falha imperdoável: a bandeira portuguesa, que tinha ficado em casa esquecida! A partida é dada e surpreende-me a animação, com fogo de artifício, muita música, muitas palmas e muitos sorrisos e somos lançados na noite pelas ruas históricas e movimentadas de Santa Cruz de Tenerife. Tinha combinado ir junto do Manuel, mas ele impôs um ritmo demasiado rápido e deixo-o de seguir. Depressa chega o km 7 e aí começo a sentir dificuldades em manter o ritmo. Mas esforço-me. Oh, se me esforço! O calcanhar que grita de dor, cada vez mais alto, mas o coração é mais forte! Avisto o Manuel e ele parece seguir mais lento do que eu. Alcanço-o com facilidade e sigo. Continuo até à meta e sinto que esta corrida foi feita não só pelas minhas pernas mas também pelo coração e pelo ânimo recebido por este fantástico público."
O beijo
"Levanto os braços e esta está concluída", continua a Ana a contar. "Esqueço a dor e abrando por fim. Um voluntário jovem dá-me os parabéns e coloca-me a medalha ao pescoço. Uma outra voluntária dá-me água e um beijo. Sim, um beijo! Nas minhas faces a escorrer suor! Agradeço-lhe. De imediato atrás de mim, surge o Manuel. Muito bom. Por pouco não me apanhava de novo. Fico contente. Ele também."