Apesar dos 28 anos, João Naré tem uma vida repleta de aventuras e uma ligação precoce às artes marciais: "Comecei a fazer judo aos 3 anos". Leonor, a noiva, ouve de perto. Com olhar apaixonado. É instrutora de surf e ioga. Nunca teve qualquer contacto com desportos de luta até conhecer Naré. "Vi alguns combates do João no Youtube e fiquei impressionada com a violência, mas depois de conhecer a modalidade, comecei a gostar e hoje também pratico."
O MMA (Mixed Martial Arts) é um desporto de combate que se realiza numa jaula – sendo também por isso conhecido como cage fight, na expressão inglesa – e que mistura várias modalidades: boxe, karaté, judo, kickboxing, muay thai, jiu-jitsu, full contact ou luta livre. Evoluiu a partir do ‘Vale Tudo’, desporto criado no Brasil, mas com regras mais rígidas. Ao contrário da versão anterior, no MMA é proibido, entre outras coisas, puxar o cabelo e morder.
João Naré é um dos precursores da modalidade em Portugal. Ao longo da carreira, praticou cada uma das artes marciais para se tornar num lutador completo. "Quando tinha 12 anos treinava judo na escola à hora de almoço, depois da escola ia treinar jiu-jitsu e ao sábado de manhã treinava karaté. Na minha altura não havia um desporto como o MMA, que juntava as várias artes marciais, por isso aprendi cada uma em separado."
Tem muitos títulos conquistados. Em Portugal e no estrangeiro. E também é mestre. Foi responsável técnico de MMA e Submission Full Contact no Sporting antes de criar a sua academia com morada própria. A Naré Fighters treina lutadores profissionais – tendo formado vários campeões nacionais e internacionais – e pessoas que querem apenas praticar MMA para se manterem em forma. O humorista e ator António Raminhos é um dos alunos de João Naré. "Tem muito potencial", revela o mestre.
Apostas...
"Fui dos primeiros a fazer ‘Vale Tudo’ em Portugal", explica Naré. Confessa que, na altura, nem sabia muito bem ao que ia. "Tinha 17 anos quando uma pessoa me viu a treinar e convidou-me para uns combates amadores onde se ganhava bom dinheiro. Uma coisa pesada. Não havia controlo de peso, médicos, nada. Eu era o mais pequeno e calhei com um lutador que tinha o dobro do meu tamanho". O que se seguiu não foi bonito: "Levei porrada durante 10 minutos, mas Deus fez-me o queixo duro e aguentei. Em certa altura, consegui fazer-lhe um estrangulamento com as pernas, o chamado triângulo, e ganhei o meu primeiro combate por submissão."
Eram os primeiros tempos do ‘Vale Tudo’. Combates quase clandestinos. Com apostas. "Fazem parte de um passado longínquo", recorda Naré. "Mas era a única forma de começar e de eu pôr à prova o meu conhecimento. Comecei pela parte primitiva do MMA."
Admite que hoje não deixava um aluno participar no mesmo tipo de eventos. "Dizia-lhe logo: ‘no way’. Não faz sentido. Eram combates em que estavas a arriscar a tua vida. Outros tempos. De lá para cá, houve uma grande evolução. Atualmente, no MMA há muita segurança. O médico, o árbitro e os treinadores podem parar um combate. A proteção do atleta está sempre em primeiro lugar."
Campeão no Brasil
São muitos os títulos. Muitas as vitórias. Mas há uma que Naré recorda mais do que todas. Aquela que o tornou mediático também fora do mundo da luta. "Em 2013, fui campeão intercontinental no Brasil. A verdadeira luta começou antes da própria luta." Naré viajou para o Brasil sozinho. Dois meses antes do combate. "Prometeram-me umas condições, mas deram-me outras. Bem piores. Pensava que ia para um bom hotel, com condições para descansar, e fiquei na Casa do Atleta, um orfanato que resgata miúdos da rua". O frio foi outro inimigo: "Apanhei o inverno mais duro do Brasil nos últimos 50 anos e nem sequer tinha um duche quente. O adversário de Naré, o brasileiro Abner Moisés, treinava noutro lado com todas as infraestruturas profissionais. "Tentaram boicotar a minha preparação. Houve um dia em que disse a mim próprio que levava aquilo até ao fim, nem que treinasse a bater nas árvores, e depois descarregava tudo na luta."
Na manhã seguinte, Naré acordou com a voz do brasileiro Primo Liboni, conceituado treinador de boxe, capoeira e jiu-jitsu. "Disse que não era justo o que estavam a fazer comigo e ofereceu-se para me treinar". O português aceitou e começou a fazer três sessões por dia. "De manhã, corrida. À tarde, preparação física. À noite, só MMA. Fui muito bem preparado para o combate graças a ele. O treino ali era para partir. A minha cara nos treinos estava, pelo menos, cinco vezes pior do que no final do combate."
Até que chega o grande dia. "Estava muito tranquilo. Mesmo no balneário. E o balneário destas coisas pode ser muito stressante porque há vários combates antes do teu. Vês tipos a entrar todos rebentados, outros inconscientes, outros a vomitar. Estás a ver aquilo que pode acontecer-te a seguir". Naré conseguiu ficar imune e entrou na jaula a sorrir. "Estava feliz de poder ir lá cima e até dancei um sambinha."
Do outro lado, apareceu um adversário com um estado de espírito diferente. "Teve uma postura completamente arruaceira. Dava-me socos e ria-se. Em certa altura, quase me fez um knock-out. Caí para trás e ia a dormir, mas felizmente consegui reverter a situação. Aquele era o meu dia."
Especializado em contraterrorismo
"Aos 20 anos fiz o curso da International Security Academy, de Israel, uma escola que forma apenas unidades de elite. Tinha ouvido que só 5 por cento o conseguem acabar e aquilo soou-me muito bem". O pai e o avô de João Naré também tiveram um passado militar em Portugal, mas esta experiência era diferente: "Quando entrei, tive de assinar uma folha a dizer que me responsabilizava pela minha integridade física ou mesmo a morte". Os colegas de curso pertenciam a algumas das forças especiais mais importantes do mundo: "Tinha três da Legião Estrangeira, dois russos do KGB e um norte-americano das SWAT, o meu parelha, que tinha acabado uma missão no Afeganistão e duas no Iraque". Naré acabou o curso e começou a trabalhar em operações de contraterrorismo.
Celebridades do UFC
O MMA é o desporto que mais cresce no Mundo. Alguns lutadores do circuito UFC, dos Estados Unidos, são autênticas celebridades. Entre os homens destaca-se o showman irlandês Connor McGregor, que passa a vida a provocar os adversários antes de entrar na jaula. Irá defender o título contra o brasileiro José Aldo. A norte-americana Ronda Rousey ainda é a rainha das mulheres. João Naré destaca ainda dois lutadores brasileiros já retirados. Anderson Silva, considerado um dos melhores de sempre, e Wanderlei Silva. "Pessoalmente, gostava muito do estilo do Wanderlei. Era da velha guarda, quando se ia muito para cima dos adversários. Hoje há mais estratégia. Alguns lutadores quase que não querem bater ou levar pancada."
Um pedido de casamento
Através dos ensinamentos adquiridos nas artes marciais e na carreira militar, João Naré tem desenvolvido vários projetos sociais. Um deles chama-se ‘100 horas, viagem ao centro de mim’ com o objetivo de mudar o rumo da vida de jovens problemáticos em apenas 100 horas. Esta ação valeu-lhe uma condecoração do Grande Priorado de Portugal da Ordem Templária. No momento em que Naré fazia o seu discurso de agradecimento, numa igreja com uma grande plateia, aproveitou para pedir a noiva Leonor em casamento. Ela aceitou. "Quero ser um homem de família e ensinar os melhores valores ao meu filho", revela Naré.