Gilberto Madaíl: «Não tínhamos dinheiro para o que Carlos Cruz disse»

"O Platini disse-nos logo à partida que quem tinha de ganhar era a França"

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• Foto: Manuel Azevedo
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Quando convidámos Gilberto Madaíl para se sentar à mesa connosco, pediu-nos que adiássemos a conversa alguns dias, pois nos seguintes estaria em Lisboa para a inauguração da Cidade do Futebol, da FPF. A obra, que o próprio tentou concretizar durante os seus 16 anos como presidente, à altura intitulada Casa das Seleções, despertou "alguma tristeza, mas nunca inveja" por só agora estar de pé. "Foi a maior desilusão do meu mandato, do ponto de vista das infraestruturas. No âmbito desportivo, já se sabe, foi aquela final perdida em Lisboa", conta-nos, já no agradável Restaurante do Clube de Vela da Costa Nova, com vista privilegiada para a Ria de Aveiro.

Por muitas voltas que dê, Gilberto Madaíl, de 71 anos, acaba por desaguar o seu discurso naquela noite de 4 de julho de 2004. "Nem sei... Fiquei doente. É difícil digerir o facto de termos perdido um Europeu em casa, contra uma seleção que até esteve perto de ser eliminada na 3.ª jornada da fase de grupos. Enfim, é o futebol", lamenta-se, recordando um ambiente e uma Seleção Nacional que lhe deixaram saudades: "A imagem mais marcante é a do povo que nos apoiava. De barco, de parapente, a cavalo... Era uma emoção coletiva impressionante. Quanto à equipa, já naquele tempo o Cristiano Ronaldo fazia a diferença, mas tínhamos tantos outros jogadores de primeira linha internacional, como o Figo, o Rui Costa, o Fernando Couto... Essa tarimba faz muita diferença numa seleção."

Agora, a diferença terá de ser feita em França, no Euro’2016 – "espero que Cristiano chegue lá em boa forma, ele que se ponha fino!" –, mas até que ponto Portugal é um candidato à conquista da prova? "Não acho mal o Fernando Santos falar nisso. É sempre motivante, embora haja outras equipas a ter em conta", diz-nos, mostrando-se especialmente satisfeito por Portugal se ter "apurado para mais uma fase final, mantendo aquele bom hábito que, de alguma forma, começou comigo": "Entre 1996 e 2011, só falhámos a qualificação para o Mundial’1998."

O lado obscuro do futebol

As fases finais das mais importantes competições de seleções têm estado na berlinda, mas não pelas melhores razões. Compra de votos e favorecimentos pessoais foram temas polémicos relacionados recentemente com a FIFA, a UEFA e, agora, com Gilberto Madaíl, depois de Carlos Cruz, na sua autobiografia, ter acusado o ex-presidente da FPF de ter comprado votos para favorecer a candidatura de Portugal à organização do Euro’2004.

"Não quero falar sobre ele, pois não merece que eu o faça. O que ele disse é absolutamente mentira", começou por nos dizer, garantindo que, à altura, a FPF não tinha condições para tais manobras: "A campanha para o Europeu começou em 1999. Não tínhamos sequer dinheiro para fazer o que ele disse, não tínhamos dinheiro para fazer cantar um cego! Ele apareceu por lá, colocado pelo governo, e a minha opinião era contrária à sua presença. Não sei o que o motivou a dizer o que disse passados tantos anos..."

Passando a polémica para dois dos altos dirigentes do futebol mundial que conheceu de perto, Gilberto Madaíl já não põe as mãos no fogo por Joseph Blatter (ex-presidente da FIFA) e Michel Platini (suspenso da presidência da UEFA), ambos acusados de ilegalidades. "Não me admiro nada com isso, nem de um nem de outro", afirmou, detalhando alguns episódios que viveu com Platini: "A França só vai organizar o Europeu pela influência dele. Quando eu estava no Comité Executivo da UEFA fui designado com mais três membros para analisar as condições de Turquia, Itália e França para organizar o Euro’2016. Mas o Platini disse-nos logo à partida que quem tinha de ganhar era a França. No final entregámos-lhe o nosso relatório e ele decidiu."

Na ressaca das decisões, Madaíl deixou as funções que exercia na UEFA. "Fui das pessoas que mais se opôs ao Platini dentro do comité executivo e tive a paga: já não fui reeleito", vincou, desconfiando, por fim, do sucessor de Blatter: "O Gianni Infantino esteve demasiado ligado ao Platini. A UEFA foi gerida de forma séria e rigorosa, sim, mas com Lennart Johansson."

O sucesso continua

Gilberto Madaíl assegura que também ele foi sério ao leme da FPF. "Quando lá cheguei estava falida. Devia 380 mil contos à banca, só de curto prazo, e 190 mil contos a jogadores. Quando saí ficaram cerca de 22 milhões de euros", lembrou. Um orgulho pelo trabalho feito que não o inibe de aplaudir o seu sucessor: "Talvez eu tenha sofrido um maior escrutínio da comunicação social, mas Fernando Gomes está a fazer um excelente trabalho. Continuar? Acho que devia ser reeleito, sim, e acho que o vai ser."

O próprio também o foi em quatro mandatos consecutivos – "algo de positivo fiz com certeza" –, durante os quais tentou levar o futebol português, inclusivamente ao nível dos clubes, para o bom caminho. "O nosso futebol nunca navegou em águas mornas. Tentei influenciá-lo da melhor forma, com descrição e nos bastidores. E penso que a revisão estatutária que fizemos em 2011 foi essencial para recuperar algum poder da FPF em relação à Liga, o que era importante", referiu Madaíl que, se pudesse, teria deixado a presidência "cinco anos mais cedo". "Tinha sido o ideal. Do ponto de vista pessoal, foram anos a mais", concluiu.

O restaurante escolhido

Antes de se dar de caras com as coloridas casas tradicionais da Costa Nova, encontra-se o Clube de Vela local e o respetivo restaurante utilizando a Ria de Aveiro como uma espécie de fio de prumo em direção a Sul. Não há que enganar, nem na viagem, nem à mesa. A sala de refeições pode acolher 120 pessoas, mas oferece uma sensação de proximidade, quase familiar, tanto no ambiente como no atendimento, e isto com um belíssimo quadro fluvial a toda a largura do espaço. Com os pratos de mar a exigir preferência, aguçámos o apetite com uma salada de polvo e uns jaquinzinhos fritos, isto além do sempre considerado queijo e umas azeitonas temperadas. Gilberto Madaíl, bom garfo mas "incapaz de fazer quilómetros para ir a um determinado sítio comer algo em particular", optou pelo bacalhau à Brás e nós apontámos o dedo a uns choquinhos grelhados. As sobremesas serão boas com certeza, mas, no nosso caso, despedimo-nos de imediato com o tradicional ‘cafezinho’. O regresso, fica o conselho, deve ser feito pelo caríssimo leitor. Mas sim, é provável que nos encontremos por lá...

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