Os doutores da Académica

Conheça os 14 jogadores/estudantes da nova geração

• Foto: Bruno Teixeira Pires

À Académica interessa-lhe, sobretudo, jogar futebol e não descer de divisão. Mas, antes desse objetivo, o principal é formar homens válidos para a sociedade. Ganhar, se possível, mas vencer sempre nos estudos. Esse é o lema. Os ideais da Académica não podem ser atraiçoados". As palavras são de João Maló, antigo guarda-redes e treinador da Académica, mas poderiam ter sido proferidas por muitos outros ilustres, de tantos que representam o passado de um dos emblemas mais acarinhados do futebol português: a Académica de Coimbra.

A Briosa, Pardalitos do Choupal, os Capas Negras ou, tão simplesmente, os Estudantes. A forma como os adeptos de futebol se referem à Académica diz muito dos pilares que sustentam esta instituição. Com uma história rica, principalmente na defesa de causas, na sua génese está uma ligação muito forte à Universidade de Coimbra, que desde 2013 se orgulha de ser Património Mundial da Unesco.

Apesar das relações entre Académica e Academia nem sempre terem sido pacíficas, a verdade é que nunca a ligação se quebrou. Nem podia. Manuel António, Mário Campos, José Belo, Luís Eugénio, Mário Torres ou os irmãos Mário e Vítor Campos, são apenas alguns exemplos de jogadores de enorme qualidade que vestiram a camisola do losango preto, e ao mesmo tempo tornaram-se respeitados pelo percurso académico que atingiram. O sucesso, em determinada altura, pareceu tão grande, que por momentos pensou-se que não poderia mais repetir-se. Há, porém, uma nova geração que exibe o emblema do clube no plantel da 2.ª Liga, na equipa de juniores e na Académica SF, que pretende provar que a tradição, em Coimbra, ainda é para manter: Nuno Piloto é o expoente máximo destes novos Doutores.

O primeiro jogador mestre

Licenciado em Bioquímica, tornou-se, em 2008, no primeiro jogador mestre em Portugal, quando concluiu o mestrado em Medicina Legal e Ciências Forenses. Esta distinção trouxe-lhe, claro, maior responsabilidade, mas também um orgulho imenso, que partilha agora com os ‘caloiros’ do balneário.

"Acredito que estamos a continuar uma tradição que esteve sempre muito enraizada e que faz da Académica um clube especial. Sempre houve a tradição do jogador estudante e também isso ajudou a formar homens e a aproximar a Academia do clube", lembra o número 28, satisfeito por se conseguir manter esta relação. "É uma ligação profícua nos dois sentidos, e que convém sempre prezar, cultivar e robustecer. Vejo com agrado e orgulho que cada vez mais jovens estejam a querer conciliar o futebol com os estudos", defende. Os tempos são outros, disso não há dúvidas. E Nuno Piloto sabe-o. Mas sabe também que há uma "maior consciencialização da efemeridade da carreira desportiva, de que realmente só para poucos essa carreira é suficiente para se viver dos seus rendimentos". Por isso, sublinha Piloto, "é necessário ter algo mais para proporcionar melhores condições no futuro dos jovens jogadores".

Ser um ‘Ronaldo’

Sonhos, deslumbramento e… frustração. A história está feita de contos mal contados, histórias com finais infelizes. A popularidade do futebol leva a que muitas crianças acreditem que estão a um pequeno passo de ser os próximos ‘Cristianos Ronaldos’. E é aqui que entra a importância de se ter uma outra opção na vida. Este é também o pensamento de Nuno Piloto. "Há hoje uma maior capacidade de responsabilidade das pessoas de se preocuparem com o futuro, algo que vejo com bons olhos. Infelizmente, no passado, muitos jovens tiveram carreiras que se perspetivavam de brilhantes, ganharam muito dinheiro, graças ao seu talento, e depois acabaram por perder tudo. É importante que haja esta noção, principalmente nos jovens", atirou o médio da Briosa, que está, inclusive, pronto para ajudar os mais novos, nem que seja com explicações. "A verdade é que eles têm investido em áreas muito diferentes da minha. Se estou disponível para umas lhes dar aulas? Se forem coisas muito específicas…", responde, bem-disposto.

Se o goleador Tozé Marreco optou pela psicologia, o extremo Traquina foi para Desporto, tal como aconteceu com o guarda-redes José Costa. Mas as escolhas dos jovens futebolistas não ficam por aqui. Engenheiros, fisioterapeutas, gestores, economistas, informáticos, especialistas em Publicidade ou em Farmácia. A lista é grande, provando que há mesmo gostos para tudo no balneário da Briosa.

Menino caloiro, senhor doutor

Para se ter uma ideia sobre a relação entre a Académica e a Universidade, basta ter em atenção este número: 47. Porquê? Tão só porque corresponde ao número de jogadores da história da Briosa que, mais cedo ou mais tarde, se tornaram também médicos, muitos deles com enorme prestígio e reconhecimento.

A profissionalização do desporto trouxe, claro, maiores dificuldades, mas há no seio academista uma vontade enorme de não deixar morrer uma tradição que fez, por exemplo, com que o Estádio Nacional, em Lisboa, se pintasse de contestação estudantil contra o regime, quando em 1969 a Académica defrontou o Benfica, na final da Taça de Portugal. Que prossiga a história...

Por Ricardo Chambel
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