Botswana: Elefantes (e outros bichinhos) aos molhos

Uma viagem, quatro países, 18 dias

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• Foto: Isabel Paramés

Era um projecto de execução complicada dada a quilometragem a percorrer, as fronteiras a atravessar e ainda por cima durante uma época do ano em que a chuva poderia arruinar a viagem. Foi necessário, por consequência prepará-lo o melhor possível, recolhendo informação (obrigado Eng. Parola Gonçalves, da LandLousã, e Luis Almeida, da RMS) de modo a assegurar o máximo de tranquilidade à Ana Vaz, ao José Amaro, ao Paulo Alves, ao Pedro Santos, ao José Amaro, ao Rui Ribeiro e aos autores destas linhas e das fotos e vídeos que publicamos. Correu tudo quase como programado e salvo um pneu rebentado numa das viaturas e dois furos noutra nenhum incidente há a relatar. A volta fez-se, percorreram-se quase sete mil quilómetros, viu-se muita coisa e muita coisa ficou por ver, tal a extensão e a diversidade oferecidas pelos países percorridos.

Fique a conhecer melhor a natureza do Botswana

Como o tempo era curto, mal chegámos a Johannesburgo e recolhidos os jipes - dois Toyotas Land Cruiser «equipados até aos dentes», com duas tendas cada no tejadilho, frigoríficos, depósito de água com capacidade para 70 litros e um suplementar de gasóleo que nos dava um autonomia de quase 900 km, material de cozinha e dois pneus suplentes, por exemplo - fomos abastecer-nos de comida e bebida, de modo a podermos «sobreviver» por, pelo menos, 3 dias em caso de qualquer falha. A água foi por isso compra essencial, mas também o gin… Esquecemos foi a tónica, lapso que emendámos oportunamente, e acho ser preferível esquecer as muitas latas de sidra que se compraram pensando serem de cerveja.

De Joburg arrancámos na direcção de Sun City, cidade «tipo Las Vegas», de onde partiríamos para a fronteira que separa a África do Sul do Botswana e do Central Kalahari National Reserve. Acabámos por não visitar esta cidade, mas não demos o tempo por mal empregue pois, no Pilanesberg National Park, avistámos rinocerontes, animais que raramente se encontram por estarem sujeitos a enorme protecção por parte das autoridades, dada a perseguição a que estão sujeitos (os asiáticos acreditam que os chifres dos rinos têm propriedades afrodisíacas e pagam fortunas por «raspadinhas» deles) e que quase os levaram à extinção. Foi, por isso, uma manhã bem passada ainda em terras sul-africanas.

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Uma viagem impressionante pelas cataratas de Vitória

A travessia da fronteira foi facilmente ultrapassada e pouco demorada e entrámos então no nosso segundo país. A chuva (re)apareceu, caindo agora com mais intensidade. Nada de estranho, pois era a época dela e com alguma imaginação superámos os problemas que nos causou, nomeadamente nos acampamentos. Dois rolos de plástico e um de corda e a capacidade de improvisação do Pedro permitiram «cobrir» a cozinha e a sala de jantar e tomar as refeições com algum conforto até porque à noite a temperatura rondava os 20 graus e por isso a chuva era suportável. A maior preocupação até seria outra: os escorpiões. Por causa deles trocaram-se as chinelas pelas botas mas apenas se viu um e nem sequer era daqueles negros, cuja picada pode ser fatal, mesmo para os humanos.

E com redobrados cuidados e atenção face às condições das pistas, tração ligada quase permanentemente não fosse o azar bater-nos à porta, lá fomos andando e vendo, sobretudo elefantes. Isolados, em manada, muito grandes, grandes e pequenotes, saindo de súbito de entre o arvoredo e atravessavam a pista, vagarosamente, sob o olhar atento do macho mais velho, enquanto nós, carros parados, em silêncio apenas quebrado pelo «tchik tchik» dos disparos das máquinas fotográficas, sentíamos o ritmo cardíaco aumentar e só respirávamos fundo quando aquelas toneladas de bicho seguiam o seu caminho e nos deixavam seguir o nosso. As girafas, zebras, órixes e sei lá que mais já nem sequer mereciam muita atenção, eram bichos menores, e o leopardo, que rapidamente se escapou pelo mato, serviu para confirmar aquilo que ali não se deve fazer: sair das viaturas.

O Botswana é, de facto um zoo a céu aberto e sem grades. A Moremi Game reserve e o Chobe National Park foram pontos altos da nossa viagem antes de chegarmos a Kasane, de onde partiríamos para o Zimbabwe, o nosso terceiro país, e para as célebres Victória Falls. Estávamos praticamente a meio da viagem e sem termos nenhum contratempo, com excepção de um erro de cálculo na quantidade de combustível de que dispúnhamos, o que nos obrigou a conduzir, numa estrada enlameada e escorregadia, sem tração às quatro rodas (havia que poupar) e com o coração nas mãos uns largos quilómetros até à próxima bomba.

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Quando vais pela estrada e deparas-te com o seguinte cenário

E nem mesmo a chuva que, de vez em quando, fez questão de inundar as pistas nos perturbou. Perguntarão os leitores, depois desta nova referência ao clima, o porquê de viajarmos nesta época do ano, conhecidas que são as condições que iríamos encontrar, e não no «Inverno» africano, ou seja, na estação seca? Primeiro, por uma questão económico-financeira, pois conseguiram-se preços muito interessantes. Depois porque, como nos sugeriram, esta seria a altura ideal para observarmos muito animais, o que se concretizou.

Voltemos então à viagem e caminhemos para a fase final da primeira parte e para o nosso terceiro país. As cataratas de Vitória eram o próximo objectivo. Em Kasane, optámos por seguir o conselho que nos tinham dado e contratámos uma empresa que nos levou até à fronteira do Botswana onde, após cumpridas as formalidades e entrados no Zimbabwe, uma sua sucursal nos aguardava e nos conduziria até ao destino. Evitámos assim os possíveis incómodos que os guarda-fronteiriços poderiam levantar para a passagem das nossas viaturas e até se poupou dinheiro.

O vôo por cima das cataratas é verdadeiramente imperdível e vale bem quanto custa. A perspectiva é soberba e só do ar se pode ter noção clara da dimensão daquelas que são as segundas maiores quedas de água no Mundo. Não é por acaso que esta é uma das principais, senão mesmo a principal, atrações do Zimbabwe, um país que continua a não ter moeda própria desde Abril de 2009 (a inflação nesse ano chegou a atingir 98% ao dia, valor que tinha levado o Estado a imprimir notas de 1 bilião de dólares, notas que hoje fazem a delícia dos turistas, que as compram aos molhos de 1 dúzia por 5 euros) e cuja economia se mantém caótica. Todavia, em Vitória o comércio mostra alguma pujança e hoje as ruas estão cheias de restaurantes, bancos, lojas de artesanato, cafés e até locais de fast-food. Mas também de gente que procura «safar-se» a todo o custo.

Regressámos ao Botswana e ao parque onde dormimos, preparando-nos para seguir para a Namíbia ao longo da célebre faixa de Caprivi, zona criada por um tratado assinado em 1890 pela Alemanha e o Reino Unido, o que permitiu à então colónia alemã o acesso ao Oceano Índico através do rio Zambeze. Foram mais de 450 quilómetros, sempre em bom alcatrão, com a Zâmbia e Angola - a famosa Jamba - mesmo ali ao nosso lado até Katima Mulilo, cidade onde termina a Trans-Caprivi e que após a construção da ponte sobre o rio Zambeze (permitindo a ligação da rica região mineira de Copperbelt, na Zâmbia, a Walvis Bay, porto de águas profundas) teve um crescimento significativo.

Aproveitámos para nos reabastecer antes de entrarmos no Etosha, a mais famosa reserva natural da Namíbia, e em má hora o fizemos. Mas esta e outras histórias ficam para depois de o leitor ter comprado no próximo domingo o Record e a sua Revista R.

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