Para poder usar esta funcionalidade deverá efectuar login.
Caso não esteja registado no site do Record, efectue o seu registo gratuito.
Nesta segunda etapa, a viagem seguiu para a Costa dos Esqueletos, com início em Torra Bay, passando pela Seal Bay, depois pelo Cape Cross até às portas do deserto do Namibe, antes do regresso
Na peça da semana passada, tínhamos ficado em Kasane, após visita rápida às Cataratas de Vitória, mas a aventura ainda não tinha acabado. Deixámos o Botswana através da faixa de Caprivi, um estreito corredor entre o Botswana, o Zimbabué e Angola (andámos a poucos quilómetros da célebre Jamba, onde tantas batalhas se travaram durante a guerra civil neste país), a caminho da costa da Namíbia. Foram quase 500 quilómetros de alcatrão até à fronteira, passando por Divundu, Chetto e Rundu, a cidade fronteiriça.
Tínhamos um dia de atraso em relação ao itinerário previsto, o que era pouco significativo, dada a imprevisibilidade que sempre existe neste tipo de viagens. De qualquer modo, como procurávamos recuperá-lo, aproveitámos o bom estado das pistas para nos aproximarmos daquele que é considerado o mais importante parque nacional da Namíbia – o Etosha. Não nos lembrámos, todavia, de um pormenor importante e este esquecimento saiu-nos caro.
E que vamos jantar?
Provavelmente, nem todos saberão que um surto de febre aftosa obrigou à instalação de uma cerca de arame farpado que divide a Namíbia em toda a sua largura, impedindo a passagem de animais infetados de Norte para Sul. A doença existe há mais de 50 anos e não tem decrescido, o que levou as autoridades sanitárias do país a impedirem a entrada de todo o tipo de produtos de origem animal, inclusive leite, queijo ou ovos. Por força deste controlo veterinário, as entradas para esta parte do país só podem ser feitas por zonas pré-determinadas, onde todos são obrigados a ir à desinfeção.
Todos digo bem, pois, não só os carros tiveram de passar por uma fossa cheia de um produto algo mal cheiroso, como nós também fomos obrigados a meter as botas num recipiente Dcontendo o mesmo produto. Nada de especial até aqui. O problema começou quando nos pediram para abrir os frigoríficos. E, como vínhamos do Norte, lá ficámos sem os bifes, os ovos, os enchidos…ou seja, com tudo o que era de origem animal. Bem nos lamentámos, mas a alternativa que nos foi dada – cozinhar tudo, ali mesmo !!! – não nos agradou. E que vamos jantar? – perguntávamos, assim à laia de «choradinho», mas nada os demoveu. Quanto ao jantar, valeu-nos a boa vontade do dono do parque de campismo que nos arranjou umas salsichas…
Zebra - jantaram os leões
A meteorologia parecia melhorar e a chuva abrandara quando entrámos no Etosha, mas as primeiras horas foram decepcionantes, pois poucos animais vimos e aqueles que apareceram já eram «repetidos» - girafas, gnus, gazelas e até mesmo elefantes - já não eram encontros interessantes depois da passagem pelo Botswana. E nem mesmo o chacal que se atravessou à nossa frente mereceu destaque especial. Andávamos à «caça» de leões… mas estes não apareciam.
Fomos percorrendo o parque e já dávamos o tempo como perdido quando o Pedro questionou o motorista de um jipe carregado de turistas e dele veio uma dica que «salvaria» o dia: ali há leões. E havia. Um grupo de cinco, deitados tranquilamente à beira da picada, dormitando, fazendo a digestão da zebra que acabavam de liquidar e cujos restos (relativamente frescos) eram ainda visíveis. Deste grupo, um dos machos tentava cobrir uma fêmea mas de nada lhe valeu o «namoro»: a leoa não estava para ali virada… Mas o espectáculo foi sensacional. E o dia estava ganho… tinha valido a pena ir ao parque pois concluíramos a observação dos 5 maiores da selva e nem o salto que inadvertidamente demos e que atirou literalmente a Ana para o colo do Rui «ofendendo-lhe» uma costela, à Ana não ao Rui, estragou o dia.
Dormimos em Okaukuejo (onde ocorreu um episódio curioso - a Ana, já na tenda, ouvindo ruídos estranhos perguntou: «Que raio anda aí?» E o Rui, com calma olímpica, respondeu-lhe: «Nada de especial. São apenas chacais!») e após termos avaliado todas as possibilidades e fazermos contas aos dias que restavam, optamos por seguir pela C38 até Outjo, apesar da pista ser mais "secundaria" que as secundárias e daí seguir quase em linha recta para a costa, concretamente até Torra Bay, onde ficaríamos acampados na praia. Passámos então por Khorixas, atravessámos a Floresta Petrificada, perto de Vrede, optando por um estradão ainda mais «pedregoso», mas que encurtava o caminho para a Costa dos Esqueletos. Valeu-nos um furo e uma troca de pneus que nos deu água pela barba – primeiro que descobríssemos uma chave de rodas decente…suámos as estopinhas e não só pelo calor que fazia.
E o deserto que acaba no mar
A Skeleton Coast e o seu Parque Nacional é uma estreita e ventosa faixa de terra onde o deserto do Namibe «desagua» no Oceâno Atlântico e à qual apenas é possível chegar com autorizações especiais e reserva confirmada num dos rudimentares parques de campismo ali existentes. O de Torra Bay, por exemplo, apenas está aberto em Dezembro e em Janeiro e quem para ali vai tem de ser completamente autónomo, pois apesar de ser uma zona paradisíaca para os muitos pescadores que a frequentam nem sequer peixe foi possível comprar.
A costa, dizem, deve o seu nome aos esqueletos de baleias que ali iam morrer e também aos «esqueletos» de barcos que, empurrados pelos ventos e por uma forte ondulação, acabavam por encalhar já perto de terra e ali apodreciam.
Aproveitámos o bom tempo para percorrer a praia para Norte, até Terrace Bay e Mowe Bay, mas só alguns tiveram coragem de ir molhar os pés naquelas águas frias que se estendiam, tranquilas, por uma areia doirada onde, curiosamente, não foi possível encontrar conchas. E também para mostrar as habilidades de condutores experimentados em conduzir na areia…
Prosseguimos viagem, no dia seguinte, manhã cedo, ao longo da costa, para Sul, aproximando-nos da caminhada final para Joburg. Mas não deixámos de ir ver os barcos encalhados – ou melhor, os restos que o mar bravio ainda não conseguiu destruir, a sensacional e mal-cheirosa baía onde se amontoam umas 250 mil focas; passámos pelo Cape Cross, cabo conhecido pelo nosso aventureiro de outrora de nome Diogo Cão, que ali arribou em 1486, fomos a Henties Bay – localidade onde se concentram muitos amantes do 4x4 que querem ir testar a sua perícia nas dunas onde ainda é permitido andar e onde, mais uma vez, não conseguimos encontrar peixe fresco -, demos um saltinho à velha mina de sal e acabámos o dia em Swakopmund.
Uma manhã bem perdida
Outrora um porto de águas profundas com intensa actividade, a cidade tornou-se num destino turístico de eleição para os pescadores de alto-mar e em especial para os amantes do todo-o-terreno, que daqui partem para as zonas onde é permitido conduzir pelas pistas de areia. De facto, a condução offroad foi consideravelmente limitada pela recente criação do Dorob National Park, pois eram tantos os que para ali iam que o meio ambiente corria sérios riscos de destruição. Foi, no entanto, a impactante descoberta de urânio na região que levou a um enorme crescimento exponêncial de todas as suas infraestruturas.
Apesar disso, a cidade manteve características que nos fizeram ali perder uma manhã inteira, calcorreando as suas ruas e admirando as suas casas de traça germânica, mantidas em excelente estado de conservação desde os tempos da ocupação colonial. Aliás, a influência alemã é ainda hoje muito forte e visível em cafés, bares e restaurantes – a cerveja alemã está bem presente. Fizeram-se umas comprinhas, bebeu-se um café muito parecido a uma bica, esqueceu-se o escorpião que nos visitara durante o jantar e arrancámos para Walvis Bay. Estavámos prestes a saltar o trópico de Capricórnio…
Lá iremos, muito em breve, e disso vos daremos conta em novo artigo aqui, na edição online do Record.
Uma viagem, quatro países, 18 dias
Nota Prévia: Por razões pessoais, não foi possível dar continuidade imediata à história da nossa viagem como pretendíamos. Mas estamos de regresso…
Entre outros pontos de interesse, terá oportunidade de ‘viajar’ até Veneza ou Paris. E viver um pouco de uma região na China que já foi nossa
Ex-jogador e agora comunicador recorda episódio curioso em entrevista à 'Sábado'
Nervos estiveram à flor da pele durante a cobrança dos penáltis, que viria a determinar o vencedor da partida
Adeptos locais assobiaram também o hino egípcio