Namíbia: A costa dos esqueletos

Uma viagem, quatro países, 18 dias

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Um macaco feliz... que pregou um susto

Na peça da semana passada, tínhamos ficado em Kasane, após visita rápida às Cataratas de Vitória, mas a aventura ainda não tinha acabado. Deixámos o Botswana através da faixa de Caprivi, um estreito corredor entre o Botswana, o Zimbabué e Angola (andámos a poucos quilómetros da célebre Jamba, onde tantas batalhas se travaram durante a guerra civil neste país), a caminho da costa da Namíbia. Foram quase 500 quilómetros de alcatrão até à fronteira, passando por Divundu, Chetto e Rundu, a cidade fronteiriça.

Tínhamos um dia de atraso em relação ao itinerário previsto, o que era pouco significativo, dada a imprevisibilidade que sempre existe neste tipo de viagens. De qualquer modo, como procurávamos recuperá-lo, aproveitámos o bom estado das pistas para nos aproximarmos daquele que é considerado o mais importante parque nacional da Namíbia – o Etosha. Não nos lembrámos, todavia, de um pormenor importante e este esquecimento saiu-nos caro.

E que vamos jantar?

Provavelmente, nem todos saberão que um surto de febre aftosa obrigou à instalação de uma cerca de arame farpado que divide a Namíbia em toda a sua largura, impedindo a passagem de animais infetados de Norte para Sul. A doença existe há mais de 50 anos e não tem decrescido, o que levou as autoridades sanitárias do país a impedirem a entrada de todo o tipo de produtos de origem animal, inclusive leite, queijo ou ovos. Por força deste controlo veterinário, as entradas para esta parte do país só podem ser feitas por zonas pré-determinadas, onde todos são obrigados a ir à desinfeção.

Todos digo bem, pois, não só os carros tiveram de passar por uma fossa cheia de um produto algo mal cheiroso, como nós também fomos obrigados a meter as botas num recipiente Dcontendo o mesmo produto. Nada de especial até aqui. O problema começou quando nos pediram para abrir os frigoríficos. E, como vínhamos do Norte, lá ficámos sem os bifes, os ovos, os enchidos…ou seja, com tudo o que era de origem animal. Bem nos lamentámos, mas a alternativa que nos foi dada – cozinhar tudo, ali mesmo !!! – não nos agradou. E que vamos jantar? – perguntávamos, assim à laia de «choradinho», mas nada os demoveu. Quanto ao jantar, valeu-nos a boa vontade do dono do parque de campismo que nos arranjou umas salsichas…

Descubra a Namíbia. Vale mesmo a pena!

Zebra - jantaram os leões

A meteorologia parecia melhorar e a chuva abrandara quando entrámos no Etosha, mas as primeiras horas foram decepcionantes, pois poucos animais vimos e aqueles que apareceram já eram «repetidos» - girafas, gnus, gazelas e até mesmo elefantes - já não eram encontros interessantes depois da passagem pelo Botswana. E nem mesmo o chacal que se atravessou à nossa frente mereceu destaque especial. Andávamos à «caça» de leões… mas estes não apareciam.

Fomos percorrendo o parque e já dávamos o tempo como perdido quando o Pedro questionou o motorista de um jipe carregado de turistas e dele veio uma dica que «salvaria» o dia: ali há leões. E havia. Um grupo de cinco, deitados tranquilamente à beira da picada, dormitando, fazendo a digestão da zebra que acabavam de liquidar e cujos restos (relativamente frescos) eram ainda visíveis. Deste grupo, um dos machos tentava cobrir uma fêmea mas de nada lhe valeu o «namoro»: a leoa não estava para ali virada… Mas o espectáculo foi sensacional. E o dia estava ganho… tinha valido a pena ir ao parque pois concluíramos a observação dos 5 maiores da selva e nem o salto que inadvertidamente demos e que atirou literalmente a Ana para o colo do Rui «ofendendo-lhe» uma costela, à Ana não ao Rui, estragou o dia.

Dormimos em Okaukuejo (onde ocorreu um episódio curioso - a Ana, já na tenda, ouvindo ruídos estranhos perguntou: «Que raio anda aí?» E o Rui, com calma olímpica, respondeu-lhe: «Nada de especial. São apenas chacais!») e após termos avaliado todas as possibilidades e fazermos contas aos dias que restavam, optamos por seguir pela C38 até Outjo, apesar da pista ser mais "secundaria" que as secundárias e daí seguir quase em linha recta para a costa, concretamente até Torra Bay, onde ficaríamos acampados na praia. Passámos então por Khorixas, atravessámos a Floresta Petrificada, perto de Vrede, optando por um estradão ainda mais «pedregoso», mas que encurtava o caminho para a Costa dos Esqueletos. Valeu-nos um furo e uma troca de pneus que nos deu água pela barba – primeiro que descobríssemos uma chave de rodas decente…suámos as estopinhas e não só pelo calor que fazia.

E o deserto que acaba no mar

A Skeleton Coast e o seu Parque Nacional é uma estreita e ventosa faixa de terra onde o deserto do Namibe «desagua» no Oceâno Atlântico e à qual apenas é possível chegar com autorizações especiais e reserva confirmada num dos rudimentares parques de campismo ali existentes. O de Torra Bay, por exemplo, apenas está aberto em Dezembro e em Janeiro e quem para ali vai tem de ser completamente autónomo, pois apesar de ser uma zona paradisíaca para os muitos pescadores que a frequentam nem sequer peixe foi possível comprar.

A costa, dizem, deve o seu nome aos esqueletos de baleias que ali iam morrer e também aos «esqueletos» de barcos que, empurrados pelos ventos e por uma forte ondulação, acabavam por encalhar já perto de terra e ali apodreciam.

Aproveitámos o bom tempo para percorrer a praia para Norte, até Terrace Bay e Mowe Bay, mas só alguns tiveram coragem de ir molhar os pés naquelas águas frias que se estendiam, tranquilas, por uma areia doirada onde, curiosamente, não foi possível encontrar conchas. E também para mostrar as habilidades de condutores experimentados em conduzir na areia…

Prosseguimos viagem, no dia seguinte, manhã cedo, ao longo da costa, para Sul, aproximando-nos da caminhada final para Joburg. Mas não deixámos de ir ver os barcos encalhados – ou melhor, os restos que o mar bravio ainda não conseguiu destruir, a sensacional e mal-cheirosa baía onde se amontoam umas 250 mil focas; passámos pelo Cape Cross, cabo conhecido pelo nosso aventureiro de outrora de nome Diogo Cão, que ali arribou em 1486, fomos a Henties Bay – localidade onde se concentram muitos amantes do 4x4 que querem ir testar a sua perícia nas dunas onde ainda é permitido andar e onde, mais uma vez, não conseguimos encontrar peixe fresco -, demos um saltinho à velha mina de sal e acabámos o dia em Swakopmund.

Uma manhã bem perdida

Outrora um porto de águas profundas com intensa actividade, a cidade tornou-se num destino turístico de eleição para os pescadores de alto-mar e em especial para os amantes do todo-o-terreno, que daqui partem para as zonas onde é permitido conduzir pelas pistas de areia. De facto, a condução offroad foi consideravelmente limitada pela recente criação do Dorob National Park, pois eram tantos os que para ali iam que o meio ambiente corria sérios riscos de destruição. Foi, no entanto, a impactante descoberta de urânio na região que levou a um enorme crescimento exponêncial de todas as suas infraestruturas.

Apesar disso, a cidade manteve características que nos fizeram ali perder uma manhã inteira, calcorreando as suas ruas e admirando as suas casas de traça germânica, mantidas em excelente estado de conservação desde os tempos da ocupação colonial. Aliás, a influência alemã é ainda hoje muito forte e visível em cafés, bares e restaurantes – a cerveja alemã está bem presente. Fizeram-se umas comprinhas, bebeu-se um café muito parecido a uma bica, esqueceu-se o escorpião que nos visitara durante o jantar e arrancámos para Walvis Bay. Estavámos prestes a saltar o trópico de Capricórnio…

Lá iremos, muito em breve, e disso vos daremos conta em novo artigo aqui, na edição online do Record.

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A chegada ao parque
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Uma estrada vermelha alagada
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Um furo na estrada
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A visita à quinta
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A praia das focas
Seal Bay, deserto, leões e muito mais: assim se vai percorrendo a Namíbia

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