_
É FÁCIL dizer-se, depois de 50 anos de vida, que esta casa foi escola e universidade de muitas gerações de jornalistas. Gente que aqui deu os primeiros passos numa profissão apaixonante, que arregalou os olhos ante a assinatura das primeiras peças e, depois, se lançou na difícil escalada que os conduziu ao êxito.
Se é fácil dizer-se fácil é, também, demonstrar-se.
Numa sociedade -- ao tempo -- pouco vocacionada para a leitura -- mesmo no âmbito da leitura desportiva -- não se poderá afirmar que os primeiros tempos, ainda que imbuídos do ânimo e da ambição de tornar longa a vida de Record, tenham sido fáceis. Não, não foram. Porém, talvez ninguém sonhasse que, meio século depois, estaríamos aqui a comemorar um feito e a prestar honras aos que, ao longo deste percurso, lhe deram corpo e alma.
Meio século de vida é data muito significativa e confirma, sem que isto seja um auto-elogio, a credibilidade da informação, a qualidade da escrita e a objectividade da notícia. Aliás, ao longo de cinco décadas, entre glórias e fracassos do desporto português, entre promessas e mitos, Record soube sempre encontrar o ponto de equilíbrio, a sensatez e, fundamentalmente, a independência no tratamento dos factos que foram história e na história ficaram.
Difícil dizer o que terão sentido os homens que, no longínquo dia 26 de Novembro de 1949, puseram na rua o primeiro número, mas certa e segura era a intenção de ver Record trilhar o caminho do êxito.
A “escola” estava criada. Pelos seus bancos passaram figuras que seriam, mais tarde, legendas marcantes no jornalismo português e que aqui deixaram escritas páginas do seu talento. Uns, infelizmente, já desaparecidos -- Monteiro Poças, Alves dos Santos, Frederico Cunha, Amadeu José de Freitas, Vítor Sérgio, Neves de Sousa, Carlos Pinhão, Francisco Camilo, Fernando Assis Pacheco, Rigaute Graça, António Capela, Rogério Paula Bastos, Moura Diniz entre mais que a sempre traiçoeira memória não permite recordar -- e outros, felizmente, ainda no nosso convívio -- Carlos Cruz, Artur Agostinho, Guita Júnior, Fialho Gouveia, Garcia Alvarez, Mário Zambujal, Carneiro Jacinto, Fernando Correia, Rodrigo Pinto, Alves Henriques, Fernando Delgado, Serafim Ferreira, Patrício Álvares, Sena Santos, David Borges, Eduardo de Castro, António Jorge Almeida, José Leite Pereira, José Manuel Freitas --, embora noutros órgãos de Comunicação Social ou, até, noutras actividades profissionais, a confirmar que a aprendizagem foi excelente e que o esforço dos mestres não foi em vão.
Desta elite muita coisa ficou: o exemplo de humildade, a capacidade profissional, a entrega total a um projecto, o amor a uma camisola, ainda que, no início, o jornalista desportivo ainda não tivesse estatuto profissional, andasse mais ou menos marginalizado da classe (essa “benesse” só foi dada no inicio da década de 70) e, por isso, o vínculo assentasse numa “colaboração permanente”, remunerada à medida da bolsa, quase sempre “magra”, naturalmente.
Óbvio que deitar uma olhadela por este passado, regressar a esta escola, será trazer à ribalta recordações que, analisadas à luz dos nossos tempos, quase poderão parecer ficção. Os tempos são outros, outros são os horizontes. Hoje, vive-se de computador portátil, transmite-se a crónica em poucos segundos; antes, o telefone era o meio, o telex surgiu depois e, quase como um luxo, apareceu o fax. E quando se fala nos aparelhos de transmissões pode e deve associar-se os meios de transporte usados: camioneta, comboios ou o carro, luxo dos luxos, mesmo que fosse um Fiat 600, como aquele que levou o Fialho Gouveia, certa vez, ao Norte de Espanha, para fazer a cobertura de um torneio onde participava uma equipa portuguesa.
Ora, toda a geração seguinte aprendeu a conviver com as dificuldades e nelas ganhou o traquejo para as saber ultrapassar e colocar na redacção, em tempo útil, a reportagem, a crónica ou a entrevista. Por isso, depressa se soube impor, rapidamente galgou a barreira que separa o anónimo cidadão do comentador conhecido. Os nomes corriam de boca em boca. Record impunha-se! Em cinquenta anos de história, muitos têm os seus nomes gravados a ouro nessas páginas que o tempo não consegue devorar.
Dir-se-á, pois, e face ao autodidactismo comum -- o “jeito para” era única condição para entrar... --, que a “escola” depressa se transformou em “Universidade”. O saber de experiências feito, o entusiasmo de querer mais e mais, o desejo de dar à estampa prosa que o leitor devorasse, geravam as energias necessárias para, depois de um dia de trabalho nas outras actividades profissionais que cada um tinha, esquecer o cansaço e lançar-se na “aventura” de fazer mais uma edição.
DE MILAGRE EM MILAGRE
Hoje, recuando no tempo, olhando para trás, não se pode evitar reconhecer que cada edição era um milagre. Milagre do querer, do entusiasmo, do espírito de grupo. Milagre que o leitor avalizava. No tempo de parcos recursos, a concorrência aumentava. As dificuldades, também. Em vésperas de aniversário -- curiosamente no dia comemorativo dos 25 anos de existência -- Record suspende a sua publicação. Vive-se o “período quente” de 75. Porém, quinze dias depois reaparece nas bancas, revitalizado, apostado em recuperar terreno perdido. Estratégia? Manuel Dias, o “homem da maratona” e uma das figuras fundadoras, apostava na saída ao domingo e não se cansava de dizer que a “sobrevivência do jornal estava na mudança da edição de 5ª-feira para domingo”. O marco histórico aconteceu a 4 de Janeiro de 1976 e o êxito que hoje respira tem muito a ver com essa data.
Com uma redacção reduzida em número mas enorme em entrega, as tiragens mostravam que se estava no caminho certo. Uma fornada de gente nova, com outra dinâmica, cedo bebeu a mística do grupo e não demorou muito que o estudo de mercado apontasse Record como uma publicação enraizada entre o público leitor e, por isso, com futuro.
A privatização -- Record pertencia ao grupo do “Diário Popular” -- e consequente aposta na valorização dos quadros e na modernização dos meios, acabou por provar que quando o homem quer, a obra cresce.
Hoje, os que já partiram, teriam orgulho no esforço feito; hoje, aqueles que estiveram nesta “Universidade” e a olham diariamente não deixarão, por certo, de ter uma pontinha de orgulho por nela estarem pedaços de si próprios!
A grandeza dos que já partiram do nosso convívio está viva. No entanto, permita-se se destaque Monteiro Poças e António Capela. Como profissionais e como companheiros. Nestes 50 anos de Record continuam entre nós! E continuarão!
COSTA SANTOS