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DO NOTICIÁRIO, passando pela reportagem e magazine, até à opinião, a última página de Record sofreu várias alterações de conteúdo ao longo dos 50 anos, mas recebeu sempre um tratamento diferenciado em relação ao grosso do jornal.
Nos primeiros tempos, a "contracapa" foi construída com base num misto de noticiário e rubricas próprias. Na primeira edição, para além de uma reportagem com Barrigana, Alex Jazes assinou o espaço "Do estrangeiro escrevem-nos..." e surgiu também "Esperanças de hoje... Certezas de amanhã", dedicado aos novos valores. No segundo número do jornal é publicada "A figura", uma rubrica que resistiu quase duas décadas, intermitentemente, sempre na última página.
Os anos cinquenta evoluíram nesse sentido: autonomizar a última página, criando-se uma diferenciação. As rubricas específicas foram-se sucedendo: "A minha foto favorita", "Cartas de apresentação", “Reportagens de outros tempos", "Record aplaude"... A fotografia, a memória e a crítica foram ganhando espaço. Artur Agostinho, figura histórica do jornalismo português, estreou-se com "Variedades" na última página aos sábados, na tentativa de "proporcionar aos leitores alguns momentos de evasão", como se pode ler no prólogo. Pela primeira vez, em 12/02/53, o espaço em questão foi inteiramente assinado por uma pessoa.
A fotografia, sempre que o assunto era de grandeza relevante, ganhou protagonismo, numa "táctica" que atravessou os tempos e resistiu até hoje. Assim, os rescaldos fotográficos das jornadas, de grandes jogos ou grandes conquistas transformaram a derradeira página num mural de imagens. E as rubricas continuaram a aparecer: "Roteiro da semana", "Estrelas dos estádios", "Entrevista os teus ídolos", que apelava à participação dos leitores, através de perguntas, "O que o público não sabe", "Problemas de futebol", dedicado às leis do jogo...
A década de 60 trouxe as reportagens para a última página. "As nossas reportagens" tratavam de assuntos da vida privada dos desportistas, como o casamento de Eusébio ou a passagem de Simões pelo serviço militar. Mas por vezes eram publicadas nas páginas internas do jornal. Quando, em 1965, se introduziu um título generalizado na página, o estilo magazine foi assumido. "Outras secções" fazia a súmula de várias rubricas, como "Lembra-se disto" ou "Fim de semana", para além de englobar banda desenhada, no caso retratando a vida de Di Stefano.
Um ano depois, a página foi reintitulada: "Desporto em magazine". O estilo manteve-se, agora com "Zezinho, o desportista" como BD e a colaboração de Frank Wright nas histórias curiosas do desporto no Mundo. No entanto, o modelo não teve continuação e a década de 70 apresentou uma menor preocupação na estilização do espaço. Por vezes entrevistas, por vezes noticiário, por vezes colaborações especiais, como as histórias de Peyroteo em "Homens e factos do meu tempo", mas nada de um modelo fixo.
O SUCESSO DO "BATE-FUNDO"
É já na década de 80 que o futebol internacional, timidamente, tenta ocupar aquele espaço, mas serão três outras rubricas que ganharão protagonismo e assumirão, durante muitos anos, a fidelização dos leitores na última página. "Retrospectiva e resultados" apresentava, antes da jornada, a estatística dos confrontos em questão, "Iniciativas Record" fazia o somatório semanal de pontos referentes aos prémios do jornal e "Bate-Fundo", aos domingos, inaugurou um espaço de "fait-divers" dos bastidores do futebol que se tornou numa referência do jornal e ainda hoje permanece, nas centrais. Nos finais da década, os cartoons do falecido António Nunes abrilhantaram o "Bate-Fundo", tendo depois Carlos Laranjeira seguido a tradição.
A estilização da última página passou a fazer parte da política editorial do jornal que, na década de 90, experimentou mais um modelo de sucesso: "Miradouro dos Inglesinhos", com o rescaldo das jornadas e curiosidades. No entanto, também as entrevistas e a secção do internacional ganharam protagonismo. A passagem a diário, em 1995, provocou a necessidade de se preencherem sete últimas páginas por semana. Foram criadas novas rubricas: "Quadro de honra", "América", "Crónicas do Mundo", "Clássico da semana" e outras. E, no campo dos "opinion-makers", António Tavares-Teles, com o seu duradouro "Futebol -- Futebol", tornou-se uma referência. "Os Cromos", que contam as aventuras dos nossos craques na infância, chegam ao "Bate-Fundo" em 1997.
A última etapa do espaço em questão começou a ser vivida no início da época 98/99, com a substituição do magazine pela opinião. Jornalistas e colaboradores passaram a assinar diariamente a derradeira página, num modelo que ainda perdura. E foi aí que o "Revendo a semana", de João Marcelino, viveu as últimas linhas de uma longa e inovadora existência no jornalismo português.
CÉSAR DE OLIVEIRA