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Record – Pedro, não querendo chamar-lhe velho...
Pedro Fraga– Ai, mas sou velho! Para a média de idades dos atletas de alto rendimento já sou um bocadinho velho, não tenho problemas em dizê-lo.
R – Pronto. Passando Tóquio, ainda se sente preparado para atacar Paris’2024?
PF – Sim, mas de férias [risos]. Não, vai ser mesmo o ponto final e os meus últimos Jogos Olímpicos. Costuma-se dizer ‘nunca digas nunca’, mas neste momento o meu foco é ir a Tóquio e terminar da melhor forma a minha carreira internacional.
R – Olhando mais a sério para os Jogos Olímpicos, quais são os objetivos? Pedro, depois de um oitavo em Pequim, de um quinto em Londres, agora então é para ir às medalhas?
PF – É fácil [risos]. As coisas não são assim e se fossem nem tinham piada. Estamos a trabalhar para o melhor. Não consegui ir ao Rio de Janeiro, mas também era esse o objetivo, oitavo, quinto, medalha, mas as coisas não foram por aí. Acho que estamos com boa velocidade, falta afinar uma coisa ou outra. A margem de evolução do Afonso está a acontecer e isso dá mais confiança ao barco no futuro. É ver o que vai acontecer, ainda temos duas provas da Taça do Mundo antes dos Jogos. É cedo para pensar em medalhas, mas o principal objetivo é fazer uma final, porque se não conseguirmos isso, de certeza que não vamos às medalhas.
R – Quais são as vossas principais valências como dupla?
Afonso Costa – Para isto funcionar tenho de destacar a confiança um no outro e o respeito, porque havendo respeito tudo funciona melhor e quanto mais confiantes estivermos, melhor as coisas correm.
R – Afonso, como estes serão os seus primeiros Jogos, está mais ansioso para competir ou para, apesar de todas as limitações, entrar na aldeia olímpica?
AC – Competir. O que quero mesmo é fazer regatas, porque é isso que me move. Tivemos tanto tempo sem competir que até me senti desmotivado. Por isso depois desta regata que fizemos, a única em quase dois anos, é que percebi que gosto mesmo disto.
R – O Pedro levantou o braço e mostrou ali a tatuagem dos arcos olímpicos. Também vai fazer uma, Afonso?
AF – Primeiro tenho de correr em Tóquio. Estou qualificado, mas ainda tenho de ir lá. Tenho de viver o espírito, mas sim, gostava de fazer.
R – Pedro, nos dois Jogos em que já esteve, tem algum episódio do género de estar sentado e quando olha para o lado está ali o Michael Phelps?
PF – Phelps, Nadal, Bolt era impossível eles sentarem-se ali ao teu lado porque andavam sempre com dezenas de pessoas à volta a chateá-los. Mas tive a ocasião de estar perto de algumas referências mundiais. Lembro-me de um episódio depois da cerimónia de abertura de Pequim, estávamos no autocarro, cansados, de repente houve uma confusão muito grande e entra ali a equipa de basket dos Estados Unidos da América. As vedetas, todas, o LeBron James, o Kobe Bryant, sempre na brincadeira… Foi naquele momento que senti o que era estar no sítio certo à hora certa. Eu e o Nuno [Mendes] parecíamos umas formigas ali ao lado daqueles atletas. Isto também é algo importante nos Jogos Olímpicos, experienciar estes pequenos momentos que ficam para sempre. As cerimónias de abertura são únicas. Estes Jogos vão ser tristes por isso, porque vai ser só uma competição. Vamos lá, competimos e vimos embora.
R – Houve muita gente que descobriu talentos escondidos durante o primeiro confinamento, pergunto-vos com o que é que se entretiveram naqueles meses duros em que tudo estava parado?
AC – Olha, eu descobri um grande gosto pela leitura, li bastante. Comecei também a aprender francês e um pouco de italiano. Só que quando voltámos à vida normal, comecei a ficar enferrujado. Agora só falo ‘un petit peu’.
R – E o Pedro?
PF – Eu também me dediquei bastante à leitura, mas com isso descobri que precisava de óculos porque não conseguia estar muito tempo. Ainda preciso porque ainda não fui tratar disso. O que eu mais desenvolvi foi uma capacidade de paciência e entretenimento fora do normal. Isto porque o meu filho, agora tem dois anos, mas nesse confinamento tinha um aninho, e estarmos fechados um dia inteiro com uma criança tão novinha é muito complicado. Foram momentos engraçados que nos obrigaram a improvisar um pouco.
R – O Afonso é bolseiro da Santa Casa da Misericórdia. Que influência é que isso teve na sua carreira?
AC – A Santa Casa provavelmente nem sabe a influência que teve na minha carreira desportiva e académica. Principalmente na primeira bolsa – já vamos na quarta edição –, porque eu estava a atravessar um período financeiro muito complicado, tendo mesmo chegado a colocar em cima da mesa deixar a alta competição para trabalhar. E a Santa Casa permitiu que eu não desistisse. Eles tiveram um contributo muito importante na minha carreira pelo qual eu estou muito grato. Este tipo de apoio é fundamental e os resultados mostram que vale a pena continuar a apostar no desporto e na educação.
Por Pedro Filipe Pinto