Catarina Costa: «Tinha o sonho desde pequena de representar a Académica»
Em entrevista a Record, assume também que o judo português tem cada vez mais prestígio além-fronteiras
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Record - A seleção portuguesa estagiou no ano passado com a seleção brasileira, em Coimbra. O quão benéfica foi a troca de experiências?
Catarina Costa - Na Seleção estamos muito habituados a viajar para estágios e competições e vimos isso ser cancelado devido à pandemia. Foi muito bom para os mais novos poderem conviver com atletas de topo e evoluíram bastante. De setembro até agora fomos recebendo outras seleções, tais como Bélgica, Espanha, Itália... e isso enriqueceu o nosso treino. Mantivemo-nos em Portugal e conseguimos trazer qualidade até nós. Isso foi importante.
R - Em que posição coloca o judo português em relação a outros países?
CC – Sentimos uma grande evolução do judo. Completamente! No último Mundial obtivemos duas medalhas, sendo que o Jorge Fonseca fez história ao ser bicampeão do Mundo, e houve resultados muito bons. Este ano tivemos o Europeu em casa, com a Telma Monteiro a conquistar a medalha de ouro, o que teve um impacto muito grande por ter sido em Portugal. Cada vez mais o judo em Portugal tem um impacto muito grande e as pessoas apoiam-nos. Mas também a nível mundial já olham com mais respeito, admiram a qualidade da nossa seleção e isso enche de orgulho.
R - Divide o balneário, por assim dizer, com atletas que já eram consagrados quando você começou a dar os primeiros passos no judo. Ainda sente atualmente essa admiração por eles?
CC – Ainda hoje sinto essa admiração, até por atletas mais jovens. Por exemplo, a Patrícia Sampaio é alguém que também admiro pela sua superação. Mas em relação aos mais velhos é algo muito engraçado. Comecei a ingressar nos trabalhos da seleção sénior quando ainda era júnior de primeiro ano, em 2014. Na altura, fui bastante bem acolhida e integraram-se rapidamente no grupo. Com o passar dos anos, sinto que é um orgulho poder passar por tantas experiências com eles. Ver de perto quem é a Telma Monteiro e como é que ela treina. Ver como a Joana Ramos ainda consegue estar no alto nível com 39 anos. O próprio Jorge Fonseca sempre me motivou quando eu era mais nova. E continua a fazê-lo. E agora é ao contrário. Tenho como objetivo ser um exemplo e motivar os mais novos a alcançarem as suas metas e chegarem longe. Os mais novos já me veem como uma referência isso é bom...
R - Sente uma maior visibilidade e apoio das pessoas no dia-a-dia?
CC – Sim, sinto. Sou de Coimbra, que é uma cidade mais pequena. É comum eu estar num local público e alguém vir falar comigo, porque reconhece-me ou viu nas notícias um resultado meu. Já aconteceu não me conheceram de lado nenhum e abordarem-me por causa do judo. Acho que isso é muito bom.
R - E houve algum episódio que a tenha marcado em especial?
CC – Há vários... Ainda há poucas horas fui comer um gelado com o Jorge Fonseca aqui em Coimbra e fomos abordados por dois jovens que queriam uma fotografia. Deram logo os parabéns ao Jorge pela conquista do Mundial e estavam super felizes. Acho que fizemos o dia deles, o que é especial.
R - Representa a Académica. É quase uma ligação familiar com o clube por causa da cidade?
CC – Sim. Tinha o sonho desde pequena de representar a Académica. Uma grande vontade mesmo de ser da Académica!
R - E vê-se a continuar na Académica durante a carreira toda?
CC – Sim! Nunca tive propostas para sair...
R - Ao mesmo tempo que tem a carreira no judo, está a tirar o curso de medicina. O quão difícil é conciliar as duas áreas?
CATARINA COSTA – É curioso, porque a pandemia veio facilitar tudo. Tinha optado por não estudar no último semestre letivo de 2020, já que iria ter os Jogos Olímpicos. Percebi que os Jogos iriam ser adiados e inscrevi-me em algumas cadeiras. Como as aulas passaram a ser online, ficou muito mais fácil conciliar. Podia treinar nos horários que tinha estabelecido, ao mesmo tempo que assistia às aulas nos intervalos desses treinos. A partir de setembro, tivemos algumas aulas práticas. Fui ao hospital duas ou três vezes por semana e consegui conciliar facilmente a parte prática. Neste semestre decidi fazer uma pausa, pois estou focada nos Jogos. Mas gostava que este modelo de aulas continuasse depois da pandemia. Para um atleta de alta competição é uma maravilha.
R - Tem apoio dos professores?
CC – Estou a ficar mais conhecida. Muitos deles antes das aulas até perguntam como estavam a correr os treinos. Isso é bom sentir por parte deles. Há compreensão e querem ajudar os alunos que levam isto a sério.
R - Há algum atleta em específico que admire e gostasse de conhecer na aldeia olímpica?
CC – Já vai ser muito bom podermos ter uma envolvência com os atletas portugueses das outras modalidades. Já os conheço mais ou menos a todos, mas não temos tantas oportunidades de estar com eles neste tipo de competições. Logo por isso já vai ser muito bom. Nos Jogos Europeus de Minsk, em 2019, tive a chance de partilhar experiências com alguns deles e agora acho que vamos poder repetir isso. Estou ansiosa. É um bom momento para falarmos com outros atletas. Em relação a outras modalidades... o Usain Bolt está reformado e adoraria ver. Mas talvez na ginástica. Vai ser impossível mas, se pudesse, gostava de ver a competição da Simone Biles.