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A vida por um jornal para os craques do futuro

QUINZENALMENTE, à sexta-feira, sai para as bancas um jornal, único em Portugal, totalmente dedicado aos jovens “craques” de todas as modalidades, até ao escalão de juniores, inclusive. Chama-se “Desporto Jovem” e é quase totalmente feito por uma única pessoa, Francisco Carmezim, protagonista de uma história incrível.

Em 1994 este ex-empresário, ex-animador cultural e tradutor entre os portugueses que, nos anos 80, trabalhavam na construção das bases americanas em Israel e na Arábia, e ex-director comercial de uma empresa de segurança, decidiu fundar um jornal que se dirigisse aos desportistas até aos juniores, inspirado na sua própria experiência como pai de um jovem atleta. Criou o “Desporto Jovem” para “falar dos problemas que sentem os jovens e dar-lhes o apoio de que tanto necessitam para praticarem desporto”.

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O jornal, então semanal, era feito numa garagem em Queijas e pretendia conseguir o seu mercado entre os jovens que praticavam desporto e as suas famílias. Carmezim planeava assegurar só a parte comercial, mas não conseguiu contratar nenhum jornalista e acabou como redactor, fotógrafo, revisor e distribuidor do jornal. Nessa altura, para produzir o conteúdo do jornal socorreu-se da experiência como desportista: enquanto jovem, no Liceu Passos Manuel (junto à Assembleia da República), jogou, por exemplo, basquetebol com Mário Saldanha e praticou atletismo no CDUL com Fernando Mota (hoje presidentes das respectivas federações), entre outros dirigentes desportivos da actualidade.

Mergulho “de cabeça”

Durante dois anos, Francisco Carmezim tinha de correr 15 a 18 campos ao fim-de-semana. Não havia tempo para estabelecer contactos comerciais e o jornal foi acumulando prejuízo. A ponto de ter de vender, aos 50 anos, a moradia onde habitava, em Queijas, para poder regularizar as dívidas. Um ano e uma depressão depois, em 1997 Carmezim recuperou o sonho de fazer o jornal e arrancou de novo com o projecto, agora com um subsídio da Associação de Futebol de Lisboa e dois contratos de publicidade anuais da Câmara Municipal de Lisboa e do Instituto Nacional do Desporto (IND). Destes, só o subsídio da AFL se mantém, mas o jornal (actualmente imprime 10 mil exemplares) já não dá prejuízo, embora dependa ainda de alguns amigos para questões de tesouraria. Carmezim continua a fazer o trabalho jornalístico, desde este mês com a ajuda de uma jornalista estagiária. Os textos são escritos por si ou enviados por colaboradores (desde delegados aos jogos até simples apaixonados do desporto) e depois revistos.

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Crescimento ou desaparecimento

Apesar de tudo, Francisco Carmezim garante que, mais do que nunca, a viabilidade existe: “Comercialmente o jornal é até bastante viável. Mas, ou consigo dedicar-me apenas à parte comercial ou a tendência é para que desapareça.”

Neste momento, a grande aspiração deste “comercial” com alma de jornalista é tornar o “Desporto Jovem” num encarte de um jornal de implantação nacional, que assim teria algo mais a oferecer ao seu público enquanto que o quinzenário viveria da exploração da publicidade, naturalmente potenciada por uma maior implantação no mercado.

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«É a ‘carolice’ que comanda»

Francisco conhece por dentro o desporto nos escalões jovens e tem opinião formada sobre o assunto: “É preciso não encarar o desporto jovem tão ‘a sério’. A competição é necessária mas é mais importante a formação.” Para este ex-desportista, o problema reside no pouco apoio que recebem os pequenos clubes, aqueles que na realidade fazem formação: “Há poucos incentivos aos clubes pequenos, onde é a ‘carolice’ que comanda. E as pessoas não estão capacitadas para formar desportistas, embora tenham boa vontade.” E deixa um repto: “Por que não se começa a dar subsídios aos pequenos clubes para que empreguem os jovens técnicos saídos das faculdades?” E garante: “Hoje, quem pratica desporto é sacrificado: tem de fazer o que fazem os outros e depois treinar nos tempos livres. Até por isso é que este jornal é importante: um miúdo que vê a sua foto no jornal tem uma motivação extra.”

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