O painel subordinado ao tema "Quanta custa praticar desporto em Portugal" na conferência 'Desporto em Portugal - Que futuro queremos construir?' que decorreu esta quarta-feira, contou com as participações da patinadora e campeã Mundial Madalena Costa, Pedro Melo, pai do esgrimista Xavier Melo, João Pereira, presidente do Ginásio Clube Português, e Nuno Catarino, administrador executivo da UNA Seguros, debate com a moderação de Sérgio Krithinas, diretor executivo de Record.
Madalena Costa confidenciou que se não tivesse sido o apoio dos seus pais "nunca tinha conseguido alcançar o que já conseguiu". Por outro lado, a patinadora que tem mais de 100 mil seguidores nas redes sociais aproveitou para enfatizar a importância dos "atletas cuidarem da sua imagem e terem as suas redes sociais ativas".
A jovem que completou 18 anos a 14 de outubro partilhou ainda os sacrifícios que um atleta de alta competição tem de fazer. "Divido um dia normal entre o treino e os estudos, almoço no carro. Tento que haja equilíbrio naquilo que é a minha carreira e a minha vida social, posso sair com os meus amigos e ir a um jantar de família mas tem que ser tudo feito de forma regrada".
Por seu turno, Pedro Melo, referiu a importância da família no apoio dos jovens à prática da família. Pai de três atletas que praticam desporto confessou: "No fundo eu e a minha esposa temos mais uma profissão. São três filhos que temos a competir a nível internacional. Tudo tem que ser conciliado com a atividade escolar. Temos que estar atentos ao excesso de esforço, há muitos custos invisíveis, há custos financeiros mas há invisíveis de organização, de preocupação de tê-los em países diferentes ao mesmo tempo, o que é uma ginástica muito difícil mas, felizmente conseguem conciliar a escola com o desporto. É difícil para mim e para minha família como todas as famílias que têm atletas na alta roda do desporto internacional."
O advogado, antigo atleta de alta competição de esgrima, acrescentou ainda: "Ouvi há pouco aqui o presidente da assembleia da república a falar nos talentos que nós temos do passado e do presente. Isso é verdade. Mas, as coisas mudaram nos últimos 20 ou 30 anos, os talentos que nós temos, só vamos continuar a ter estes talentos se de facto organizarmos a forma de continuar a ter desporto em Portugal porque os outros países já o começaram a fazer há muitos anos. Há coisas que podem ser feitas e revelam um enorme amadorismo português não as fazerem."
E continuou dando o exemplo do seu filho Xavier, atleta de alta competição que viu um teste do secundário ser adiado para uma data em que também estará fora do país numa competição internacional de esgrima. "Um atleta de alta competição falta, a falta está justificada mas o reagendamento do teste tem que ser articulado com o professor a ver também a disponibilidade do aluno, não deve ser imposto unilateralmente pelo professor. Depois como não há cultura desportiva, que todos nós aqui temos, ainda em Portugal. Então, só alterando a lei é que vai fazer com que o professor diga eu não vou unilateralmente marcar o teste", referiu.
Pedro Melo sublinhou ainda o problema de fazer desporto de alta-competição a seguir à universidade apontando à criação de vagas no setor público para que os atletas tenham possibilidade de desempenharem as suas profissões à margem do desporto sem prejudicarem a sua carreira desportiva de alta-competição dando exemplos do que se faz noutros países como é o caso de Espanha e Itália.
Por último, deixou ainda uma sugestão no sentido do estado incentivar as empresas a patrocinar alguns desportos que têm pouca visibilidade: "Com pragmatismo elevar a custos de 150% quando se investe em modalidades que não dão retorno."
Já João Pereira salientou "a falta de apoio que algumas modalidades com menos visibilidade têm" e do esforço que o clube faz para as manter. Por outro lado, o presidente do Ginásio Clube Português referiu que como o facto da "prática de alguns desportos é cara, torna que os mesmos se tornem algo elitistas".
Ao longo do seu discurso, o dirigente enfatizou que a principal fonte de apoio do histórico clube português são "os 'patrocínios' porque não temos apoios de empresas ou então são mínimos".
"Nestes 151 anos de existência nenhum dos nossos atletas recebeu qualquer vencimento, totalmente amadores. Como não conseguimos suportar os custos deixámos de fazer o trabalho ao nível do alto rendimento e passamos a fazer só para a formação. Algumas das modalidades são elitistas no sentido dos valores que se pagam para as praticar. Um percurso dum atleta para chegar ao alto rendimento para participar em provas internacionais, o percurso entre 10 a 15 anos, chegamos à conclusão de que só com gastos suportados pelos encarregados de educação. No caso da ginástica pode oscilar entre os 25 a 40 mil euros, no judo entre os 35 e 52 mil euros, no tiro com arco entre os 60 e 100 mil euros, na esgrima entre 110 e 160 mil euros, e no tiro entre 250 e 380 mil euros", vincou.
Enquanto Nuno Catarino, na qualidade de representante de uma empresa que tem investido de forma vincada no desporto de há cerca de oito anos, salientou que "hoje em dia as modalidades, à exceção do futebol, para aparecerem na televisão pagam" e que seria importante contrariar essa falta de visibilidade "nem que fosse através dos canais públicos".
Por outro lado o membro da UNA Seguros sublinhou o papel que esta empresa tem dado para o desenvolvimento do desporto em Portugal: "Tentamos ter equilíbrio a apoiar várias modalidades com menos visibilidade e tentamos manter-nos diversos anos e em conjunto com as federações procuramos dinamizar as modalidades. E ao mesmo tempo tentamos apoiar as federações a dinamizar as modalidades."
Por Duarte Gomes