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Nico, Senhor Contente, João Godunha, Cajó, Pierino Langostini, Joaquim Malarranha e… tantas e tantas outras personagens que se confundiram com o próprio ator, tornando-se mesmo ‘sinónimos’ de Nicolau Breyner, falecido ontem na sequência de um ataque cardíaco. Deixando o mundo dos vivos, foi ocupar o lugar já reservado na galeria dos ‘Imortais’, onde será finalmente conhecido pelo nome de batismo: João Nicolau de Melo Breyner Lopes.
Nascido há 75 anos em Serpa, no seio de uma família de proprietários agrícolas, Nicolau Breyner mudou-se ainda jovem com os pais para Lisboa, tendo estudado canto, enquanto cumpria o ensino secundário no Liceu Camões. Foi precisamente pelo canto que iniciou a sua carreira artística. Ou melhor, pela ópera, estreando-se como tenor aos 17 anos. Mas o apelo do teatro foi mais forte, sobretudo depois de Ribeirinho lhe dar uma oportunidade na peça ‘Leonor Telles’. A partir daí, não mais parou e, naturalmente, foi impondo o seu talento e personalidade, acumulando sucessos nos palcos, na televisão, no cinema, e depois na encenação, na realização, na direção de atores e na produção.
Mulheres, política e Benfica
Outras paixões, teve-as pelas mulheres, pela política e pelo futebol. Foi casado e divorciado três vezes – Mafalda Barbosa, Sofia Sá da Bandeira e Mafalda Bessa –, tendo ainda vivido com Cláudia Ramos. Foi candidato à Câmara Municipal de Serpa, pelo CDS-PP (1995), e depois à Assembleia Municipal de Sintra, pelo Movimento Independentes por Sintra (2013). E foi adepto do Benfica, de quem se dizia "adepto fanático", mas "não fundamentalista", sendo apoiante de Luís Filipe Vieira desde a primeira candidatura deste à presidência do clube.
Mas tudo isto foram detalhes paralelos a uma carreira de mais de 50 anos, que o deixa também conhecido como o ‘pai das novelas portuguesas’. Foi ele o coautor e principal personagem da primeira de todas, a mítica ‘Vila Faia’, em 1982. A morte levou-o ontem de surpresa, numa altura em que estava em plena atividade, participando nas gravações da telenovela da TVI, ‘A impostora’.
Terá, agora, outro nome: ‘Nicolau, o imortal’, tal como o filme homónimo de António-Pedro Vasconcelos, de 2003.
Um papel que irritou Pinto da Costa
Nicolau Breyner sempre fez questão de mostrar a costela benfiquista, mas nunca escondeu a sua admiração por Pinto da Costa, que considerava ser "uma pessoa interessantíssima, divertidíssima, com um grande sentido de humor e um grande presidente". Contudo, o líder do FC Porto terá ficado zangado com o ator, depois de este ter interpretado o papel do ‘presidente’ no filme de João Botelho, de 2007, ‘Corrupção’, o qual foi baseado no livro ‘Eu, Carolina’ e relata os meandros do futebol português. O filme, escrito pela ex-companheira de Pinto da Costa, Carolina Salgado, não associa as suas personagens às figuras reais, mas é evidente a relação com o líder portista. Cinco anos depois de ‘Corrupção’, Nicolau Breyner contou, em entrevista a Record, que nunca mais falou com Pinto da Costa. "Segundo dizem, ficou zangado comigo, mas é uma coisa que não me diz respeito. Está no seu direito", disse então o ator à nossa jornalista Sofia Lobato. Nessa mesma conversa, Nicolau Breyner definiu ainda Messi como "um artista" e Cristiano Ronaldo como "um operário".
REAÇÕES À PERDA
"O Sport Lisboa e Benfica associa-se a este momento de profundo pesar e endereça as mais sentidas condolências a familiares e amigos"
Comunicado do Benfica, clube do qual Nicolau Breyner era adepto
"Tive um grande desgosto. Um grande desgosto não só por ser um grande artista, um grande coração e um grande amigo"
Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República
"Foi com surpresa e tristeza que tomei conhecimento do falecimento do Nicolau Breyner, um extraordinário ator, nos últimos anos um grande realizador, além disso um amigo, e que deixa um vazio imenso no teatro, no cinema, nas novelas em Portugal"
António Costa, primeiro-ministro
"É com grande sentimento de perda que damos conta desta notícia. Acaba por ser sempre um choque, e logicamente que o concelho de Serpa, tal como o Alentejo e o país, ficam sempre um pouco mais pobres"
Tomé Pires, presidente da Câmara de Serpa, de onde o ator era natural
"Fiz o filme ‘Os Imortais’ a pensar nele, porque era um ator único, que sabia muito bem interpretar todas as emoções – a tristeza, a alegria, a ironia – e doseá-las para cada cena"
António-Pedro Vasconcelos, cineasta
"Perdi um irmão e um amigo. Não imagino vida mais útil e mais profícua, a minha gratidão será eterna"
Herman José, comediante que se tornou popular após o ‘sketch’ com Nicolau Breyner ‘Senhor Feliz e Senhor Contente’
"Tinha o poder da leveza, de desdramatizar os problemas, e era contagiante, na vida e em palco. Ultimamente, andava triste, mas fazia tudo para não transparecer"
Maria do Céu Guerra, atriz
"Uma perda irreparável para o teatro português. Ele gostava muito de viver e de rir. Estou chocado com a morte inesperada dele. Ainda há pouco tempo almoçámos juntos, a rir e a conviver"
Filipe La Féria, encenador