RECORD – Como vê o futuro do futebol com a determinação da FIFA que substitui os agentes licenciados por intermediários?
ARTUR FERNANDES – O documento da FIFA é absolutamente vago, incipiente. No fundo, não é nada. É dizer "nós não queremos saber, as federações que façam aquilo que entenderem". No nosso caso, depende muito da sensatez e da capacidade que a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) tem demonstrado no sentido de regular esta atividade para que não seja o caos daqui a uns meses. Em Portugal vamos ter o problema resolvido e a nível internacional, se não se resolver, o mais provável é a FIFA estar a dar o dito por não dito daqui a uns anos, como já fez em outras ocasiões. E se calhar ainda vai regular com base naquilo que temos em Portugal. Estou convencido que o nosso documento pode ser um documento-piloto para todas as federações.
R – O fim dos agentes licenciados surge ao mesmo tempo que a extinção dos fundos de investimento. Existe aqui uma relação?
AF – Claramente que existe. A pressa com que a FIFA andou nestes últimos 6/8 meses a trabalhar na desregulação dos fundos que normalmente estão conectados com os agentes e com o não-licenciamento é um ataque aos agentes e um ataque claro aos campeonatos dos países do Sul da Europa. Se temos o melhor agente do Mundo [n.d.r.: Jorge Mendes] durante quatro anos seguidos e a FIFA decide não regular mais os agentes, temos de entender isso como um ataque a nós próprios. Acho muita graça às picardias do Benfica com o FC Porto, do FC Porto com o Sporting, do Benfica com o Sporting, do Sp. Braga com o V. Guimarães, até apimenta um bocadinho os campeonatos... mas temos de perceber que os grandes inimigos e adversários dos nossos clubes estão para lá da Península Ibérica. Ainda bem que conseguimos eleger um português para o Comité Executivo da UEFA [n.d.r.: o presidente da FPF, Fernando Gomes] porque é ali que se vai resolver o futuro do futebol português. É que corremos o risco, daqui a poucos anos, de o 1.º classificado do campeonato português não ter acesso à Champions League. Isso pode ser um problema grave para o futebol português.
R – A FIFA persegue os empresários de jogadores? Tem inveja do dinheiro que ganham?
AF – Não tenho a menor dúvida que a FIFA percebeu que ao tirar a importância aos agentes e ao eliminar os fundos, os campeonatos do centro da Europa ganham força.
R – Os agentes de jogadores estão unidos nesta batalha contra as novas regras da FIFA?
AF – Em Portugal os agentes estão plenamente unidos, desde o mais famoso ao mais incógnito. Isto não é uma batalha porque não temos as mesmas armas neste tipo de competição. Vai valer o bom senso de todas as partes, a capacidade de diálogo e o trabalho feito num passado recente em que as pessoas perceberam que a gestão das carreiras dos jogadores e treinadores e as relações dos empresários desportivos com os clubes e com a Comunicação Social têm sido de qualidade, ao ponto de o futebol português ser 5.º no Mundo. Em que mais é que somos 5.ºs no Mundo? É bom pensarmos nisto... porque o que estão a atacar é o futebol português, o futebol do Sul da Europa e da América do Sul. Se baixarmos a nossa capacidade financeira mas também a nossa capacidade de vender e promover, baixamos automaticamente o nível dos nossos campeonatos e com isso o crescimento dos nossos jogadores.
R – Os agentes de jogadores fizeram no passado um investimento, inclusive com o depósito de cauções, para exercerem a sua atividade. A FIFA vai ressarcir os agentes, agora que determinou, digamos, a sua "extinção"?
AF – Esse é o problema que queremos evitar pensar a partir de dia 1 [hoje]. Se assim não for, então cada agente, consoante os casos, entenderá os passos que deve dar. Mas não quero pensar nessa possibilidade, porque todos os sinais que nos têm vindo da FPF, Sindicato, Liga, são no sentido de continuar a qualificar a profissão de empresário desportivo. O futuro dos empresários desportivos, conforme a lei portuguesa 28/98, vai continuar a existir. Em Portugal as pessoas perceberam a importância do papel do agente/empresário desportivo.