_
R - De treinador adjunto a treinador principal e de novo a adjunto. Qual é o plano para a carreira?
JS - Eu tenho um contrato com Marrocos. Antes de mais, queria agradecer a Marrocos por esta oportunidade de realizar um sonho, que foi o de disputar um Mundial. A primeira memória que eu tenho de futebol é em 1994. A única memória que eu tenho, é dos penáltis da final da Itália contra o Brasil. E a única coisa que eu me recordo é o Roberto Baggio a falhar o penálti. É engraçado, não me lembro mais nada. E depois tenho o Mundial de 98, que é o primeiro Mundial que vivo intensamente, como garoto, em que fico com aquela febre louca da coleção dos cromos da Panini. E depois tenho o Mundial de 2002. E pronto, é que aí já sou um adolescente e lembro-me perfeitamente de faltar às aulas, com a autorização do meu, para ir ver o jogo a casa, porque a seleção portuguesa jogava. E sempre fiquei com esta paixão pelo Mundial. E quando Marrocos me convida, em março, para participar com eles no Mundial, estou como treinador, mas naquele momento tenho algo dentro de mim que me diz não podia desperdiçar esta oportunidade. É uma oportunidade única. O Mundial é algo que se disputar uma vez na carreira é algo maravilhoso. Pode não voltar a acontecer. Foi uma decisão completamente consciente da minha parte. Não vejo como um passo atrás, bem pelo contrário, porque foi talvez a experiência mais enriquecedora da minha carreira até hoje e serei eternamente grato a Marrocos por esta oportunidade. Eu tenho contrato com Marrocos, mas desde o início fui muito honesto com eles. Propuseram e aceitaram uma cláusula em que eu a qualquer momento posso sair para ser treinador. É esse o acordo que temos e é esse o projeto futuro que eu tenho em mente. Agora, não vou abdicar desta experiência com Marrocos por qualquer coisa, ou seja, tem de ser pelo projeto certo, tem de ser por algo estruturado, algo que faça minimamente sentido e algo, sobretudo, em que sinta conexão com a estrutura, com o projeto, porque jovens treinadores, como é o meu caso, precisam de ter muito cuidado com o primeiro projeto. Não estou a dizer que isso garante resultados, mas projetos estruturados com gente competente e capaz de ajudar acabam por facilitar bastante.
R - Projeto no estrangeiro, Portugal, ou aberto a tudo?
JS - Depende do projeto. Aberto a tudo, aberto a tudo. É como eu digo, tenho de sentir conexão com o projeto, com as pessoas, porque é a minha maneira de ser. Eu sou uma pessoa que gosta de se conectar, sou uma pessoa bastante humana e pronto, tenho de sentir essa sincronização com as pessoas.
R - O que aconteceu no Lask Linz? Foi a primeira experiência como treinador principal e durou apenas 9 jogos.
JS - O que vou dizer aqui é algo que não é público, mas acho que é o momento e acho que posso partilhar isto com as pessoas. Eu tive dois eventos extremamente importantes na minha vida que aconteceram em simultâneo. Que foi a oportunidade de ser treinador, mas que coincidiu com o facto de ser pai. Então o que é que aconteceu? Eu sou pai e cinco dias depois tenho de abandonar a minha família para ser treinador. Eu sabia que isto era algo que podia acontecer. Na altura, hesitei bastante em assumir o papel de treinador principal, mas depois juntamente com a minha esposa decidi aceitar porque o clube também me queria muito. Cinco dias depois de o meu filho nascer tive de abandoná-lo para ir para a Áustria e fiquei dois meses sem o ver. E foi muito duro, muito duro. E a minha esposa ficou sozinha em Portugal, infelizmente a família não podia ajudar por questões de logística. E foi uma situação muito difícil para ela, para mim, e eu decidi abandonar o projeto do LASK na altura em prol da família. Não queria arrepender-me mais tarde de perder o crescimento e o desenvolvimento de um filho numa idade tão precoce e senti que a minha esposa precisava muito de mim. Tendo em conta a minha idade, sou jovem, decidi que era melhor abandonar porque acredito que se o meu caminho for para ser treinador principal, uma próxima oportunidade vai chegar, mas o nascimento de um filho, isso não posso recuperar. Então foi uma decisão consciente, que depois coincidiu na altura, é verdade, com um problema com um membro da minha equipa técnica que foi demitido pelo clube por razões que eu achava que não eram suficientes. E isso acabou por ser algo que me ajudou depois a dar um passo para a minha decisão, mas a decisão principal foi esta. Aliás, tanto é que até saí depois de uma vitória.