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José Sócrates: «Sabia há dois meses que o Euro era nosso»

José Sócrates: «Sabia há dois meses que o Euro era nosso»

MINISTRO José Sócrates, que discurso tinha preparado para o caso de não ganhar a organização do Euro-2004?

- Muitas vezes pensei que se perdêssemos manteríamos ali toda a dignidade, cumprimentando quem ganhou e dizendo ao povo português que fizemos o nosso melhor numa primeira candidatura deste género, pelo que devíamos continuar a tentar. No entanto, sabia que não deixava de ser ouvido como mais um a falar de “vitórias morais”...

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- Politicamente seria um desastre?

- A política é um risco. Desta vez correu-nos bem.

- Teria dado mais jeito se fosse uma semana antes das eleições?

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- Muitos falam disso, mas não creio.

- Se fosse antes das eleições, o Governo ter-se-ia empenhado da mesma forma, correndo o risco de sair beliscado?

- Há argumentos para as duas situações. O que eu acho é que teríamos feito tudo o que fizemos e apenas porque tínhamos consciência de que era importantíssimo para o país. Esta decisão esteve para ser tomada em Junho e poderia ter tido más consequências políticas. Muitos colegas perguntavam-me se eu tinha a certeza que íamos ganhar e eu respondia apenas que se houvesse justiça venceríamos porque não duvidava que a nossa candidatura foi sempre mais forte e mais credível.

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- Quando foi para Aachen disse o quê a António Guterres?

- Disse-lhe que achava que íamos ganhar. Aliás, já achava isso há mais de dois meses.

- Havia indicadores seguros?

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- Não eram indicadores. Nós tínhamos apoios declarados, que nunca revelámos, até porque eu nunca revelaria um apoio que me fora dado pessoalmente.

- Não havia hipótese de falhar?

- Não. Ou as pessoas todas eram um grupo de cínicos ou se confirmava no resultado a ideia que fui formando de que a maioria dos dirigentes da UEFA são pessoas de grande categoria, gente de alto nível social, profissional, muito prestigiadas. Veja-se quem votou em nós: a Itália, a França, a Bélgica, a Holanda, a Noruega, a Suécia...

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- Um dos “traidores” denunciados pelos espanhóis foi a Alemanha?

- Traidor? Não. O senhor Braun é um homem de grande categoria. Encontrei-me com ele três vezes e em todas elas lhe transmiti a importância que isto tinha para o meu país. Das três vezes me ouviu com interesse e diálogo, aplaudindo a nossa transparência. A minha ideia da UEFA é de uma grande organização, de gente com muita classe. Veja a forma como foram anunciados os resultados: a reunião terminou às onze e meia e até às quatro horas [locais] ninguém soube!

- No Governo, quem é que teve a ideia de meter Portugal nesta aventura do Euro-2004?

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- Isso não é muito importante. Quando temos um êxito procuramos sempre encontrar o herói da fita, mas mais importante do que isso foi a orientação política que o Governo seguiu e que esteve na origem da decisão de apoiar esta candidatura estava em causa o nosso desenvolvimento e com a nossa política desportiva. Achámos que tinha chegado o momento em que era fundamental para o país ter capacidade de organizar grandes eventos desportivos internacionais. Ganhámos recentemente o Mundial de atletismo em pista coberta, o Mundial de ciclismo, a Gimnaestrada, mas a este conjunto faltava uma prova de grande prestígio internacional e que permitisse potenciar internacionalmente Portugal como um grande destino desportivo e como um país moderno, capaz de organizar as provas mais prestigiadas.

- Os sinais foram todos dados por entidades exteriores ao futebol, quer o ministro, quer a pessoa encontrada para liderar profissionalmente o projecto da candidatura, quer a própria UEFA só apostou num projecto virtual por causa da segurança que lhe foi transmitida não pela FPF, mas pelo Governo português.

- Em primeiro lugar, um dos pontos mais felizes do processo foi termos seleccionado bem a pessoa que lideraria o processo, Carlos Cruz. Essa pessoa foi escolhida entre o Governo e a Federação, com ambas as partes a demonstrarem a consciência de que era preciso encontrar uma figura que desse credibilidade. Foi possível pôr a candidatura ao lado das pequenas tricas e discussões mesquinhas do futebol e preservá-la publicamente, o que permitiu ganhar o apoio da opinião pública, da comunicação social e das outras forças políticas representadas no Parlamento. Esses apoios foram decisivos para o êxito da candidatura e para a sua afirmação internacional. A dúvida que a UEFA poderia manifestar era sobre a nossa capacidade de realizar o que nos propúnhamos no “dossier” de candidatura. Mas hoje isto significa mais, significa uma vitória de um país moderno, que já não é o país pobre e atrasado de há uns anos, nada disso. Hoje a Europa olhanos com respeito, com consideração, sabe que Portugal é um país desenvolvido e que melhorou muito nos últimos anos. Foi, aliás, esse um dos nossos argumentos.

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Explicámos a todos os membros da UEFA a nossa “performance” económica dos últimos 15 anos, explicámos que para organizar o Europeu de futebol dentro de cinco anos as condições estariam prontas sem que fosse necessário qualquer investimento especial em infra-estruturas rodoviárias, aeroportuárias ou hoteleiras. Para organizar a prova, o único investimento específico é nos estádios e quando o apresentámos à UEFA fizemo-lo com a definição clara de quem vai pagar e como vai pagar, garantindo que tudo será realizado.

- Os estádios obedecem a uma filosofia nova para o futebol português?

- Os novos estádios que visitei são muito desencentivadores da malcriação e da violência. Os que vamos construir são estádios de grande nível que inibirão, até, os comportamentos mal-educados e atrairão novos públicos. O nosso futebol está dominado por um discurso hipocondríaco, a achar-se permanentemente doente ao mínimo sintoma. O nosso dever é contribuir para que se sinta um pouco melhor, para que deixe de ser tão lamuriento, tão céptico e acho que daqui a cinco anos, quando olharmos para trás, veremos uma “reforma estrutural”.

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- Esses modelos de investimento estão mesmo definidos?

- Definidos em contrato. Em protocolos assinados pelo Governo e os donos dos estádios, o que deu credibilidade à nossa candidatura e permitiu à UEFA perceber o nosso empenhamento e que o projecto poderia contribuir não apenas para ajudar o futebol, mas também contribuir para desenvolver o país, melhorar a nossa economia e fazer-nos dar mais um pulo. Qual é realmente o nosso objectivo? É melhorar o nível do nosso futebol, é fazer o trabalho de remodelação dos estádios que tinha de ser feito com Euro ou sem Euro, é dar um pequeno empurrão à nossa Economia e é afirmar o prestígio internacional de Portugal. Depois disto, ficamos no lote dos países capazes de organizar grandes eventos: fizemos a Expo e vamos fazer o Europeu de futebol e o Mundial de atletismo, ficámos na rota.

- Sabe que há pessoas do futebol que estão a analisar as possibilidades de extrair mais dinheiro do Estado, esgrimindo com o compromisso da realização do campeonato?

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- Tenho a certeza que ninguém fará essa chantagem e que toda a gente agirá com sentido de responsabilidade.

- Como interpreta as declarações de Valentim Loureiro e Vale e Azevedo?

- Não interpreto! Digo apenas que o que está assinado é para ser cumprido. As dificuldades que se revelarem serão ultrapassadas com responsabilidade. E a responsabilidade maior é honrar uma decisão muito corajosa da UEFA, o que significa estar à altura das responsabilidades.

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- O facto de haver dois estádios a mais pode levar o Governo a cortar alguma reivindicação mais exacerbada?

- Não quero encarar esse cenário. Confiamos plenamente em toda a gente que assinou com o Estado os protocolos, de boa fé. Estaremos disponíveis para a analisar as dificuldades que, como disse António Guterres na recepção na quarta-feira, vão ser muitas. O que é preciso é compreendermos as dificuldades uns dos outros. O Estado tem muitas dificuldades e muitos outros sectores para acorrer. A opinião pública compreendeu que esta candidatura foi feita com a preocupação de não deitar dinheiro fora.

- A Europa política ficou surpreendida com esta vitória portuguesa?

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- Não, pelo contrário. Lá fora, estão habituados a olhar já para Portugal como um país de confiança, seguro, que assume as responsabilidades. Os europeus olham com consideração e respeito para nós...

- Não tanto os espanhóis...

- É preciso não confundir as posições da Federação com as do Governo.

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- Mas o Governo de Aznar não estava tão empenhado como o nosso?

- Calculo que estivesse, mas acho que a UEFA julgou que a prova era muito importante para Portugal e não tanto para os espanhóis. E acho que julgou bem. Os espanhóis tiveram já as suas oportunidades e puderam organizar o Mundial de 1982, realizando aí grandes investimentos. Os espanhóis tiveram a sua chance. Mas agora, como eu sempre disse aos dirigentes da UEFA, este é o tempo de Portugal, a nossa oportunidade. Com esta decisão muito corajosa a UEFA também lutou pela Europa.

- Para a UEFA pode ter sido decisivo a relação quase semanal com um membro do Governo em contraste com o alheamento do Governo de Madrid?

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- Foi uma diferença, de facto. Ninguém numa candidatura deste género pode tomar a decisão final por garantida. A Federação espanhola achou sempre que a concorrência portuguesa era menor. Pelos vistos, enganou-se.

- Essa certeza de que era preciso fazer muito bem já estava na estratégia inicial ou só se revelou pelo trabalho e perfil pessoal de Carlos Cruz?

- Tudo foi sempre concertado de forma responsável entre ele, que era a voz e o rosto da candidatura, e a Federação.

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- Mas a Federação entrou um pouco por arrasto, vacilando após falhar a candidatura conjunta com Espanha, ou não?

- Era natural que vacilasse nessa altura. Ela sozinha não podia avançar com uma candidatura individual, mas assim que o Governo lhe disse que apoiava, a Federação não teve qualquer dúvida e avançou de imediato. As hesitações iniciais justificam-se pela dimensão do projecto e pela necessidade de um apoio governamental. Mas realço que tudo correu muito bem e que a vitória se deve ao profissionalismo, mérito e competência com que Carlos Cruz e Gilberto Madaíl agiram sempre.

- Mesmo em candidaturas olímpicas, não há memória de um trabalho “diplomático” tão intenso. A estratégia foi sendo desenhada à medida que o tempo corria, ou resultou de um plano inicial?

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- Tínhamos consciência de que devíamos fazer melhor do que os outros e eu sempre soube que nada dispensa o contacto pessoal. Nós fomos ter com as pessoas e esse foi também um dos segredos do nosso êxito. Uma coisa é explicar num papel, outra é dizer-lhes olhos nos olhos o que queremos. De início tínhamos como orientação a apresentação da candidatura desportiva através de Carlos Cruz e Gilberto Madaíl e eles estiveram muitas vezes em contacto com os dirigentes da UEFA. Eu e o dr. Miranda Calha intervínhamos por outro lado e por serem funções diferentes: nós fomos explicar a todos dirigentes da UEFA e por várias vezes o empenhamento total do Governo e garantir-lhes que isto era importante para o país, que havia uma estratégia por trás. Foi muito duro. Foi duro para o Madaíl, para o Carlos Cruz, mas também para o Miranda Calha e para mim. Nós visitámos estes dirigentes muitas vezes...

- Contactaram também governantes?

- Não, praticamente só contactámos dirigentes desportivos. Porque o futebol na Europa está entregue a uma organização independente, cujos dirigentes são absolutamente independentes dos governos - aliás como aqui em Portugal. São pessoas que não recebem orientações. Por isso foi a essas pessoas que nos dirigimos, muitas vezes com o apoio das nossas embaixadas. A acção da nossa diplomacia foi também digna dos maiores elogios, com uma cooperação fantástica neste objectivo.

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- Foi preciso superar aquele incidente diplomático com a Espanha por causa das declarações de Carlos Cruz sobre a segurança.

- Disse muitas vezes que o Governo espanhol não se podia constipar quando a Real Federação dava um espirro. A Federação não tinha o direito de inferir que o Carlos Cruz estava a desferir um ataque à Espanha pelo facto de declarar que em Portugal os indicadores de violência são muito baixos. O facto de se dizer que em Portugal há baixos índices de insegurança não é insulto para ninguém! Por isso não passou de um incidente sem importância.

- E hoje como são as relações com Madrid?

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- Excelentíssimas, excelentíssimas. Quem esteve nestes dias na Alemanha pôde ver que tudo foi feito com elevação e que os nossos contactos com o secretário de Estado espanhol que lá estava foram de grande cordialidade e “fair play”. Disse-lhe antecipadamente que aceitaria com dignidade um possível triunfo espanhol e ele teve a gentileza de me dar um abraço no final. É óbvio que aparece sempre alguém que tem mais dificuldade em aceitar as coisas, mas os responsáveis estão muito acima disso.

SENHOR X NAS MÃOS DE GUTERRES

-Como vai ser o processo de constituição do comité organizador?

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- Toda a gente faz essa pergunta, mas não nos devemos precipitar. Temos de escolher com serenidade, porque essa escolha é fundamental e tenho a certeza que a Federação não deixará de conversar com o futuro ministro do Desporto sobre o que quer fazer. O país vai ter um novo Governo...

- O primeiro-ministro também vai ter uma palavra a dizer. O seu abandono desta pasta do Desporto é definitivo?

- Nada é definitivo na vida. Vai haver um novo Governo. Vamos esperar para ver quem será o novo interlocutor da Federação...

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- Os interlocutores da UEFA, quer o ministro José Sócrates quer Carlos Cruz, afastam-se e o futebol começa a tentar reivindicar uma posição e uma importância que todos sabemos não ter tido até aqui.

- A Federação não precisa de reivindicar nada que já lhe pertença claramente. É evidente que a candidatura é da FPF e que a responsabilidade da organização lhe pertence na totalidade. O que a Federação também sabe é que será decisivo contar com o apoio do Governo e estou convencido que ela não deixará de o consultar para qualquer decisão importante que tiver de tomar.

- Surpreendeu-o a recusa insistente de Carlos Cruz?

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- Desde o princípio ele assegurou que o seu trabalho terminaria no dia da decisão. Não me surpreendeu. E percebo que as pessoas, às tantas, precisem de se afastar. Isto foi uma “overdose”!

- Será então a Federação a escolher o “comissário”, o senhor X?

- Sim, claro, mas não sem antes consultar o Governo. Isso acontecerá se houver razoabilidade. Mas não adianta procurar fantasmas onde eles não existem. Nos documentos que a UEFA exigiu, estão assinaturas de seis ministros ou mais, em matérias que têm a ver com segurança, com vistos, com situações que dependem da administração pública e não podem passar sem o envolvimento governamental e até das câmaras municipais. As coisas correram sempre bem entre a Federação e o Governo e tenho a certeza de que vão continuar a correr. Depois, há uma parte que está à margem de tudo, que é o que diz respeito aos protocolos que o Governo assinou com os donos dos estádios.

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- Mas alguns desses donos de esádios já revelam sinais de dificuldade de financiamento...

- Foi uma coisa que me desagradou! Diria assim: quando se assinaram os protocolos ninguém o fez com reserva mental e estou certo de que estava de boa fé e assumirá a sua responsabilidade. Os contratos estão assinadinhos e nós só temos que fazer uma coisa: dar-lhes execução, com responsabilidade.

- O modelo do edifício para o Euro-2004 passa pela constituição de uma fundação ou de uma empresa?

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- A fundação é um modelo possível. Não tenho ainda certezas, mas também ainda não é o momento de divulgar o que entendemos. Em todo o caso, não são as obras do Euro que nos devem preocupar mais, mas sim a gestão posterior dos estádios. Clubes e câmaras precisam de pensar em formas de gestão dos estádios, tão sofisticados, muito diferentes das que têm seguido até aqui. São modelos de gestão profissional que, por outro lado, acabam por depender bastante do nível competitivo do clube-residente.

- Nos casos de Aveiro e Coimbra a situação não é prometedora...

- Faltam cinco anos de grande incentivo para Beira Mar e Académica...

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QUANDO chegou a Portugal no regresso de Aachen, o que lhe disse o primeiro-ministro?

- Expressou-me o seu contentamento e deu-nos a todos os parabéns. Aliás, o mesmo fez o senhor Presidente da República, com palavras de grande gentileza para esta candidatura, que quero agradecer pessoalmente.

- Está perante um dilema de trabalhar noutra área governamental ou manter esta pasta?

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- Tenho anos suficientes de actividade política para saber que as coisas mudam em função das necessidades. Durante anos fui porta-voz do PS para as questões de ambiente, fui secretário de Estado do Ambiente e de um momento para o outro tive de ir trabalhar noutras zonas.

- Hoje a Imprensa política fala do seu possível regresso ao Ministério do Ambiente, é verdade?

- Tudo depende do senhor primeiro-ministro. Ele é que tem a obrigação de formar um Governo e de tomar essas decisões. A nós compete comportar com profissionalismo em função das responsabilidades. Para já, estou muito satisfeito com o que fiz.

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- Mas está disposto a continuar, ou não?

- Essa pergunta, desculpe, só o primeiro-ministro ma pode fazer! São coisas que não se dizem em público.

- Os conhecimentos pessoais que granjeou neste processo vão torná-lo também num “pivot” dos interesses do futebol em futuras negociações entre a União Europeia e a UEFA, precisamente no ano da presidência portuguesa?

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- Acho que a Europa não deve olhar para o futebol com uma visão tão liberal como olhou no passado. O futebol não é uma questão de mercado, é mais do que isso: tem dimensão social e cultural que extravasam muito a simples consideração do futebol como mero negócio. A anterior Comissão Europeia olhou sempre para o futebol como uma actividade comercial e acho que fez mal.

- Vai ter que haver alteração à lei?

- Depende da nova Comissão...

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- ... onde os socialistas estão em maioria...

- ... sim, confio muito na possibilidade de mudanças.

- Com o seu contributo?

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- Estamos disponíveis. Aliás, o primeiro-ministro português, o espanhol e o austríaco no último Conselho Europeu, na Áustria, exprimiram pontos de vista muito críticos relativamente à visão ultraliberal que a Europa tinha para o futebol.

- Esse passo pode ser dado sob a nossa presidência?

- Vamos olhar para esse “dossier” com olhos críticos de quem quer fazer algumas mudanças. Gostaríamos que a Europa mudasse o seu ponto de vista excessivamente liberal.

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- Como em concreto?

- O futebol europeu deve reforçar a autoridade das suas entidades reguladoras, como é o caso da UEFA.

«DESPORTO DEIXOU DE SER MARGINAL»

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QUANDO chegou a ministro do Desporto, não ia ao futebol...

- ... Era raro...

- ... não lia jornais desportivos. É hoje um homem transformado?

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- Os políticos têm de actuar com profissionalismo, independentemente de actuarem sempre com um pensamento político. A acção do secretário de Estado Miranda Calha foi excepcional ao longo destes quatro anos, deixando uma marca forte. Foi ele o responsável pela actualização legislativa que era indispensável na actividade desportiva, mesmo na área do futebol, e acabamos por deixar um trabalho significativo. Resolvemos a matéria difícil das dívidas ao Fisco e à Segurança Social, no meio de grande turbulência. Deixamos o mecenato desportivo, uma matéria que estava em agenda há anos. Estabelecemos um programa de acesso do desporto aos fundos comunitários, com um programa de desenvolvimento e modernização. Deixamos um país com uma presença nas provas internacionais como nunca teve. Pela primeira vez foi possível iniciar a preparação dos Jogos Olímpicos assim que terminaram os Jogos anteriores.

- Mas alguma coisa ficou para trás por causa do envolvimento no Euro-2004?

- Não. Acho que todo o Desporto percebe a realidade. Demos todo o apoio às várias candidaturas que se perfilaram e acho que as outras Federações compreendem a vantagem de termos também uma prova com a dimensão e o prestígio de um Campeonato da Europa de Futebol. O Europeu de Inglaterra foi visto por 6,7 mil milhões de pessoas, mais do que a população do planeta. O próximo, prevê-se que vá ser visto por mais de dez mil milhões - o que garante um inigualável prestígio internacional ao país organizador. O desporto em Portugal no ano de 2005, depois de termos organizado os Mundiais de Atletismo e Ciclismo, a Gimnaestrada, o Europeu de Futebol, será outro em termos de actividade, de projecção internacional e de reconhecimento.

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- As Federações têm razão em temer uma eventual “canibalização” das modalidades por parte do Futebol?

- Ninguém mais do que eu lamenta que o Futebol ocupe no espaço mediático a dimensão que tem. Porventura seria ideal se tivesse um pouco menos e as outras modalidades um pouquinho mais, mas a realidade é o que é e cumpre-nos lidar com ela. No entanto, sempre notei da parte dos outros dirigentes desportivos uma compreensão muito grande em relação a este projecto. Basta analisar o efeito só desta decisão e a forma como ela foi noticiada pelo Mundo fora, para tomarmos consciência de que será bom para todos. No Governo, fazemos esforço para que a sobrevalorização do futebol não exista e a política desportiva nacional mudou bastante nos últimos quatro anos. Esta aposta em Portugal como um país de destino desportivo vai sentir-se muito, para lá do Europeu.

- Os dirigentes das modalidades nunca admitiram que fosse possível Portugal organizar uma competição da envergadura das do futebol?

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- Não acredito que eles tenham ciúmes do futebol. E as provas que estão previstas dão um sinal claro da importância que o Governo atribui ao Desporto. O Desporto deixou de ser uma área marginal. Pelo contrário, é uma área de primeiro plano e os governantes olham para ele, tirando-lhe o chapéu, reconhecendo que contribui para o país, ajuda a Economia e aumenta o prestígio.

- E isso não chega para haver finalmente um Ministério do Desporto?

- Não é essa alteração orgânica que resolverá problemas.

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- Não é importante reconhecer o peso específico do Desporto?

- Orgulho-me muito de ter participado na equipa que deu ao desporto esta dimensão de primeiro plano. Para ser inteiramente justo, devo dizer que o mérito é muito mais do secretário de Estado que dirigiu o sector de forma impecável durante quatro anos.

- Insisto: não devia passar-se do nível de Secretaria para o de Ministério, para ser um parceiro directo das outras grandes áreas que com ele se relacionam como a Economia, a Educação, as Obras Públicas?

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- Já é um parceiro. O Governo anterior já colocou o Desporto num estatuto superior, colocando-o sob a Presidência do Conselho de Ministros, também por ser uma área muito intersectorial. O facto de termos ganho agora esta candidatura aumenta esse estatuto.

- Mas vai manter-se o mesmo esquema e filosofia?

- O primeiro-ministro é que vai decidir. Mas o mais importante não são eventuais alterações orgânicas, mas sim o peso que ganhou na opinião pública e na política. Deixou de ser uma área marginal para ser de primeiro plano, no contexto das políticas de desenvolvimento.

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JOÃO QUERIDO MANHA

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