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Rotura do ligamento cruzado anterior em jovens atletas: quais as consequências e o impacto na vida adulta?

A rotura do ligamento cruzado anterior (LCA) em desportistas continua um tema em foco na literatura ortopédica nacional e internacional, embora pouca informação seja prestada acerca dos riscos e complicações a longo prazo provocadas por esta lesão. Sendo o LCA um dos principais elementos estabilizadores do joelho, a sua função é essencial para preservar a biomecânica e garantir a longevidade da articulação.

O futebol, como desporto-rei, assume-se como o grande responsável pela ocorrência de rotura do LCA em jovens, relacionada com as mudanças súbitas de direção características desta modalidade. Alguns fatores de risco intrínsecos conhecidos, como género feminino, hiperlaxidez e alterações anatómicas e/ou hormonais favorecem a ocorrência desta lesão. No que respeita aos fatores extrínsecos, destaca-se o piso sintético, implicado na maioria dos casos de rotura do LCA observados em consulta, sobretudo em atletas amadores. Esta questão tem sido abordada por alguns órgãos e federações desportivas na procura de alternativas custo-efetivas com vista à menor taxa de lesão dos atletas.

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Na última década, o aumento exponencial do número de casos de rotura do LCA levou, invariavelmente, à necessidade de aperfeiçoamento das várias técnicas cirúrgicas, de forma a garantir um tratamento adequado dos doentes. A presença de lesões concomitantes, como rotura dos meniscos e lesões da cartilagem, constitui também um fator determinante no resultado funcional dos doentes operados, não só pelo maior dano estrutural, mas também pela maior complexidade cirúrgica exigida.

De acordo com os estudos, cerca de 95% dos doentes com idade inferior a 30 anos submetidos a cirurgia de reconstrução do LCA, apresentam um joelho estável após 15-20 anos de seguimento e a grande maioria retoma a atividade desportiva. Mas afinal, se a retoma da atividade desportiva é tão importante para o atleta e os clubes envolvidos, não será igualmente importante prevenir as complicações futuras e garantir a qualidade de vida na idade adulta? Independentemente do modus operandi e dos recursos utilizados, estaremos focados na prevenção da saúde destes atletas a longo prazo? A resposta parece incerta.

Apesar do tratamento cirúrgico poder atrasar o processo fisiopatológico de desgaste articular e evolução para artrose, não existe evidência científica de que este seja totalmente impeditivo. De facto, doentes submetidos com sucesso a cirurgia de reconstrução do LCA apresentam um risco 3 a 5 vezes superior de desenvolver artrose do joelho no futuro. Sintomas como dor, derrame, rigidez ou limitação da mobilidade surgem mais precocemente na idade adulta e são responsáveis por uma incapacidade funcional significativa com perda da qualidade de vida e implicações para a atividade laboral. A esta incapacidade associa-se um maior número de tratamentos médicos e, consequentemente, um aumento dos custos diretos e indiretos relacionados com a saúde. Assim, parece expectável que nos próximos anos aumente significativamente o número de artroplastias do joelho em adultos-jovens por artrose secundária a rotura do LCA, sob o risco de todas as complicações inerentes aos procedimentos artroplásticos.

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Perante esta problemática, torna-se urgente apostar em medidas preventivas, implementando estratégias políticas e desportivas nacionais que possam diminuir substancialmente a taxa de rotura do LCA no futebol. Desta forma, estaremos a proteger os atletas de potenciais complicações associadas, assim como a diminuir os custos em saúde a longo prazo.

Autores: Miguel Quesado (Médico Ortopedista na TrueClinic) e Carlos Sousa (Médico, Diretor Clínico da TrueClinic)

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