Fernando Tavares partilhou esta 4.ª feira mais uma reflexão sobre o futebol português, na qual sugere alterações ao modelo de gestão da arbitragem em Portugal. Numa publicação no LinkedIn, o antigo vice-presidente do Benfica apelou a que se olhasse para "modelos internacionais", no sentido de retirar a arbitragem da alçada da Federação Portuguesa de Futebol, concedendo-lhe maior autonomia e independência.
O antigo dirigente aponta que o "futebol português, não é capaz de fazer uma gestão competente da arbitragem e continua preso a um ciclo de desconfiança: erros, polémicas e um ruído mediático constante que mina a credibilidade do jogo". Nesse sentido, defende ainda que a reforma estrutural que sugere ou outra qualquer não sobreviverá sem uma "mudança cultural" e sem que os erros dos árbitros deixem de ser tratados como "combustível de conflito".
Leia a publicação de Fernando Tavares na íntegra:
"O futebol português, não é capaz de fazer uma gestão competente da arbitragem e continua preso a um ciclo de desconfiança: erros, polémicas e um ruído mediático constante que mina a credibilidade do jogo.
A questão não é nova. Mas talvez esteja na altura de mudar a forma como a abordamos.
Olhar para modelos internacionais pode ajudar. Em Inglaterra, a PGMOL gere a arbitragem de forma profissionalizada e com maior autonomia face às competições como a Premier League. Não é um sistema perfeito, longe disso, mas assenta em três pilares essenciais: independência, profissionalização e “accountability”.
Copiar não chega. Adaptar é o desafio.
Em Portugal, a arbitragem mantém-se sob a esfera da Federação Portuguesa de Futebol, através do seu Conselho de Arbitragem. Esta proximidade alimenta dúvidas recorrentes sobre independência e transparência, num contexto já marcado por forte pressão mediática e institucional.
Talvez o caminho não passe por uma rutura imediata, mas por um modelo intermédio, credível e progressivo. E se criássemos uma entidade independente, inspirada no Conselho das Finanças Públicas?
O CFP não “tutela”, não tem poder executivo nem autoridade para impor decisões. Não manda, não decide políticas, nem aprova orçamentos. A sua função é avaliar, analisar e alertar sobre a sustentabilidade das finanças públicas. No entanto, a sua voz é respeitada e ouvida, pela sua
Independência institucional, pelo se rigor técnico e pela sua reputação.
Ou seja, o CFP funciona mais como um “árbitro” ou “fiscal” técnico do que como um decisor. Não manda, mas condiciona o debate público e político. Ignorar sistematicamente os seus avisos pode ter custos reputacionais para o Governo.
Um “Conselho Superior de Arbitragem” que não tutela diretamente, mas que supervisiona, audita e intervém com autoridade técnica reconhecida por todos.
Com funções como:
Auditoria independente às decisões;
Avaliação regular e pública do desempenho;
Supervisão de critérios de nomeação e progressão;
Recomendações vinculativas;Comunicação transparente e pedagógica.
Comunicação transparente e pedagógica.
Numa primeira fase, a arbitragem poderia manter-se dentro da FPF, mas sob escrutínio qualificado e permanente.
Isto permitiria:
Reforçar a confiança sem ruptura institucional;
Introduzir transparência de forma progressiva;
Reduzir a perceção de influência externa;
Preparar uma eventual evolução para maior autonomia, à semelhança da PGMOL.
Mas há um ponto essencial: nenhuma reforma estrutural sobreviverá sem mudança cultural. Enquanto o erro for tratado como combustível de conflito, e não como parte do jogo, qualquer modelo continuará sob suspeita.
Mais do que escolher um sistema, trata-se de reconstruir confiança. E isso exige visão, consistência e responsabilidade de todos os intervenientes no futebol português."
Por Record