FPF homenageia José Fonte no final de uma carreira construída "a pulso"
Ex-central recorda: "Aos 19 anos, fui dispensado, quase ninguém apostava em mim. 882 jogos depois, estou aqui"
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"Uma lenda". Foi assim que Pedro Proença, presidente da FPF, se referiu a José Fonte, central que, aos 42 anos, pôs um ponto final da carreira. Em homenagem prestada na Cidade do Futebol, esta quinta-feira, a cerimónia teve início com um vídeo em que o próprio jogador passou em revista a sua carreira. "O Crystal Palace entrou em 'administration' e vieram falar comigo, arrisquei ir para a terceira divisão inglesa, na altura. Foi difícil, não vou mentir. Pensei 'estou cada vez mais longe da Premiere League'. Sabia que o Southampton também era um clube grande, que tinha a história na Premiere League. Estava com dificuldades, mas havia realmente um projecto. A seguir, subimos imediatamente, primeiro para o Championship, depois para a Premiere League. Foi um percurso a pulso, graças à força, ao trabalho, à dedicação e nunca desistindo. Foi assim muito, muito difícil. Quando olho para trás, para uma carreira de esforço, de sacrifício, de dificuldade, mas com muito gosto e com a mentalidade de nunca desistir, é possível chegar muito longe", introduziu o central, ainda em vídeo.
Pedro Proença, presidente da FPF, tomou a palavra e referiu-se ao jogador homenageado como "uma lenda". "Em cada história que termina, há outra que fica para ser contada. Hoje, contamos a história de um campeão. A história, até vou dizer, de uma lenda. Hoje termina a história do José Fonte enquanto jogador. Mas começa outra história. E dizemos sempre, não se trata de uma despedida, mas sim de uma celebração. Neste caso, a celebração de a carreira de um enormíssimo jogador. Nenhuma carreira é fácil, a de José Fonte não foi certeza. Uma carreira feita de esforço, de sacrifício, mas de muito amor ao futebol. Um jogador que aceita emigrar para a Inglaterra, para jogar na terceira divisão, com o sonho de jogar na melhor Liga do mundo. E que deixa a Inglaterra com quase 200 jogos na 1.ª Liga e um troféu, até se tornar campeão nacional em França. Com toda a naturalidade, José Fonte chegou à Seleção Nacional e fez parte da maior conquista do futebol português até o momento. José Fonte é vencedor do Euro 2016 e junta a si também a Liga das Nações. Atrevo-me a dizer, um dos pilares da nossa Seleção, que nos deu uma das maiores alegrias até hoje, até à data em que vamos embarcar para os Estados Unidos", começou por elencar, numa cerimónia que contou também com os ex-companheiros de José Fonte na Seleção, Rui Patrício e Éder.
"Despede-se com 50, 50 jogos pela Estação Nacional. Hoje, no dia em que celebramos a sua carreira, é um prazer chamar a José Fonte aqui, o que ele é. Uma lenda, uma lenda do futebol português. A história de José Fonte recorda-nos o melhor que o futebol tem. É uma história de superação, de trabalho e de afinco. De um jogador que nos provou, época após época, que não existem limites no futebol. Querido amigo José Fonte, tu não és o futebol, tu és nosso. Em meu nome e em nome da Federação Portuguesa de Futebol, agradeço tudo, tudo o que deste ao futebol português. Os títulos, os jogos, cada corte, cada jogada que fizeste, mas sobretudo o teu carácter de um jogador que, com paciência e confiança no trabalho, chegou à imortalidade. Há poucas semanas, no cumprimento de um designo desta direção, abrimos a primeira turma do curso de treinadores UEFA B+A, dedicada a antigos internacionais que acabaram a sua carreira. E o José Fonte ocupou o seu lugar por direito próprio. Sinal de que a história que hoje termina já tem outra escrita. Porque a nossa cultura de vitória, o nosso ADN de vitória, constrói-se com os jogadores como José Fonte e como o Mr. Martínez. E felicitar-te. Vou-te felicitar muito sinceramente pela tua extraordinária carreira. E desejo-te o melhor futuro para ti e para a tua família. E digo, como digo sempre às grandes lendas, nós não somos a Federação, nós estamos na Federação. E as portas da Federação estarão sempre abertas para lendas como tu", assegurou.
"Termino com a mão estendida a quem vem a seguir"
José Fonte começou por... não falar de si próprio. "Aproveito para deixar à nossa Seleção todo o apoio para o Mundial, que corra tudo da melhor maneira e que consigamos trazer o troféu, que é o mais importante", começou por referir.
"Hoje estou aqui a ser homenageado e é muito por vossa culpa. Sim, culpa vossa. Estou aqui porque o meu pai, com a sua sabedoria, os seus conselhos e as suas palavras por vezes duras, me guiou até ao dia de hoje. Estou aqui porque a minha mãe nunca me deixou cair, sobretudo nos dias mais difíceis. Foi ela que encontrou em mim a resiliência que me caracteriza. Estou aqui muito por causa do meu irmão, pela nossa ligação única. Das vezes sem conta que treinámos juntos, na rua, na praia ou em casa, das duras que levámos por partir tudo", recordou, antes de passar para agradecimentos mais emotivos: "Não posso esquecer a minha avó. Foi ela que apanhou o avião para a Inglaterra para cuidar dos netos. Mesmo sem saber a língua, ia às compras sozinha, sem medo de nada, só para termos o conforto da sua comida e da sua companhia. E há quem tenha sacrificado mais do que eu, sem nunca pisar um relvado: a minha mulher. Durante anos, a nossa vida foi feita de distância. Eu em França, vocês em Inglaterra. Foi ela que segurou a nossa casa e a nossa família, para que eu só tivesse que pensar em jogar. O sucesso desta carreira é tanto dela como o meu. Mais dela, talvez, porque o dela foi sem aplausos."
"Está quase a terminar", prometeu, antes de lembrar: "Luca, Luna, espero que me perdoem os aniversários que falhei, as peças de teatro e os jogos que não pude ir. Mas tudo o que fiz, foi também por vocês. Uma palavra muito especial para os dois homens que acreditaram em mim: o míster Norton Matos, que me deu a mão aos 19 anos, acabado de ser dispensado do Sporting. Obrigado, mister. E o mister Fernando Santos, que depois de duas dispensas, me deu a estreia por Portugal aos 30 anos. A estes dois, devo momentos decisivos da minha carreira."
A rematar, José Fonte, atirou: "Por isso, esta homenagem não é para mim, é para todas as pessoas que contribuíram para o meu caminho. Para toda a minha família, para todos os meus amigos, para todos os treinadores, todos os meus colegas de equipa, todo o staff que tudo fez para me tornar melhor jogador e melhor pessoa. E é para todos os adeptos, claro. Para os que me apoiaram, mas também para aqueles que me criticaram, porque todos me obrigaram a ser melhor. Aos 19 anos fui dispensado e quase ninguém apostava em mim. 882 jogos depois, estou aqui à vossa frente. Tudo começou porque alguém me deu a mão. E termino agora com ela estendida a quem vem a seguir. Um muito obrigado a todos e um resto de bom dia."