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O percurso foi sinuoso e difícil, com altos e baixos, feito de esperança em dias melhores mas também da resignação face a sucessivos obstáculos que foram devolvendo à estaca zero o esforço de quem perseguia o sonho. A Seleção Nacional feminina de futebol nasceu no início da década de 80, no meio de um amadorismo total, tão grande quanto a ilusão que orientou grupo de mulheres apaixonadas pelo jogo e que reclamaram palavra a dizer num mundo dominado por homens. Foi curta a emoção: ao fim de dois anos, correspondentes a oito jogos, a Federação Portuguesa de Futebol, então comandada por Silva Resende, suspendeu a atividade da equipa.
Só ao fim de dez anos a FPF reconsiderou a decisão. Em 1993, numa altura em que Carlos Queiroz era o selecionador nacional, a Seleção voltou a competir. Alfredina, estrela do Boavista e melhor jogadora portuguesa dessa fase embrionária, partiu como adolescente em 1983, retomou a atividade como veterana em 1993. Se há rosto capaz de centraliza esse período é o dela, enorme futebolista que teria ido mais longe na atividade que escolheu se as circunstâncias fossem diferentes.
Os anos seguintes foram de consolidação. Com avanços e recuos mas já sem o espetro de nova decisão radical, a equipa deu seguimento a um projeto cuja ambição foi crescendo, até atingir dimensões suficientemente fortes para se tornar imparável. Quando Fernando Gomes chegou à presidência federativa, tudo mudou. Para trás ficavam os apoios de presidentes como Lopes da Silva, Vítor Vasques e Gilberto Madail, mais os contributos técnicos de Hélder Pereira, António Simões, Leonel Domingues, Graça Simões, Nuno Cristóvão, José Augusto, Mónica Jorge e António Violante. Mas foi quando Francisco Neto assumiu o comando, em 2014, que os resultados passaram a ter uma base de sustentação mais forte e a evidência ganhadora desejada. O processo foi engrandecido, também, pelo apoio dos clubes, que investiram cada vez mais na modalidade. Tanto que o Benfica já consegue passar pela Liga dos Campeões, discutindo o apuramento para a fase seguinte da competição.
Nesse longo caminho brilharam estrelas como Carla Couto e Edite Fernandes, duas avançadas que, feitas as contas, permanecem no topo da lista das melhores marcadoras. Numa fase um pouco mais avançada, Cláudia Neto tornou-se referência de uma geração que construiu, consolidou e ainda foi a tempo de tirar partido da solidez de um edifício que, em seis anos, conta com duas presenças em Europeus (2017 e 2022) e uma no Mundial (2023). Prova de que a longa viagem desde o início dos anos 80 até aos dias de hoje, é composta por um presente animador mas, principalmente, encerra um futuro mais promissor ainda. Um ciclo que tem em Kika Nazareth a máxima figura.
Carreira notável de Ana Borges
A sportinguista Ana Borges é um caso extraordinário na relação com a Seleção. Internacional sub-19, estreou-se na equipa A a 4 de março de 2009, na Algarve Cup, com a Polónia – vitória por 2-1, com um golo de sua autoria. Desde então, a atual jogadora do Sporting deu seguimento a uma relação que leva 14 anos e que, face à frescura e à qualidade que evidencia, não vai ficar por aqui. O total de 166 presenças na Seleção principal, a que se juntam 27 jogos nas camadas jovens, conferem-lhe estatuto único entre as futebolistas nacionais.Não será ultrapassada tão cedo.
CINCO FIGURAS MAIORES
Alfredina
Foi a estrela maior do primeiro troço da Seleção Nacional. Tinha 17 anos quando se estreou e logo deu nas vistas, pela habilidade associada a um pé esquerdo impressionante e a uma boa visão de jogo. Dela podemos dizer que nasceu adiantada no tempo. Quando o caminho foi interrompido estava com 19 anos.
Carla Couto
Era uma avançada móvel, rápida, ágil, coordenada, que valia pelo instinto e pela capacidade de síntese. A técnica era refinada e constituía ameaça permanente para as defesas contrárias. Apesar de ter passado grande parte da carreira em Portugal, foi uma das primeiras a emigrar e a ter sucesso, neste caso no futebol italiano.
Edite Fernandes
É a melhor marcadora de sempre. Os 39 golos foram apontados em tempos distintos, com resultados menos expressivos do que passaram a ser na fase em que o seu peso peedeu relevância. O melhor que dela se pode dizer aponta para a falta que faz o seu instinto matador à Seleção atual.
Cláudia Neto
A algarvia tornou-se um caso à parte na história do futebol feminino português. Numa altura em que a Seleção ainda lutava pela afirmação internacional, estava noutro patamar. Um enorme talento, cuja carreira foi quase toda feita no estrangeiro. Renunciou à equipa nacional em 2021, isto é, sem viver por dentro os primeiros passos do ciclo de ouro.
Kika Nazareth
Aos 21 anos adquiriu a aura de fenómeno, não apenas do futebol português mas também internacional. É o rosto de um presente sustentado e do futuro risonho que se abre a Portugal. O seu futebol tem de tudo um pouco: soluções individuais milagrosas e uma intervenção estratégica que sustenta soluções ofensivas no último terço do terreno.