Joaquim Evangelista, presidente do Sindicato de Jogadores, não tem dúvidas que a Gala das Campeãs Record BPI, que vai para a sua 4ª edição e sempre com o apoio do organismo que dirige, já ganhou um espaço próprio relevante no contexto do futebol português.
R - A Gala das Campeãs Record BPI vai para a quarta edição, sempre com o apoio do Sindicato. É um evento que faz a diferença?
JE - Sem dúvida, é uma parceria que nasceu da vontade genuína de destacar o mérito e a resiliência das nossas jogadoras e tem dado a visibilidade que elas merecem, o que nem sempre é fácil acontecer em eventos similares. Esta Gala dá voz às protagonistas e é por isso que tem um significado especial.
R - O Sindicato tem sido uma voz sempre presente na defesa da igualdade no futebol. Quais têm sido as maiores resistências que tem enfrentado?
JE - Fatores culturais e conjunturais. As barreiras sociais para a afirmação das mulheres no desporto e desigualdade nas oportunidades têm vindo a ser esbatidas, mas ainda persistem. Acresce que nem sempre existe a mesma visão, capacidade de investimento e, sobretudo, uma estratégica concreta para o desenvolvimento do futebol feminino. Trata-se de um processo que se constrói com diálogo e confiança entre todas as partes envolvidas, entre as quais Federação, clubes e atletas que, dentro de campo, têm dado uma resposta fantástica.
R - Quem são os verdadeiros heróis, ou heroínas, por trás da afirmação das mulheres no futebol?
JE - Eu diria que além das nossas jogadoras, foram heroínas as gerações anteriores que fizeram o caminho das pedras para reclamar um espaço nesta indústria e ambicionar com o caminho da profissionalização e são, também, heroínas as famílias que apoiaram as suas filhas, netas, sobrinhas ao longo do seu trajeto. Mais do que nomes individualizados, o futebol feminino em Portugal foi construído com visão e ambição, apesar do muito que pode ser feito para melhorar.
R - Acredita que aquilo que acontece no futebol é um reflexo do que se passa na sociedade?
JE - Acredito, embora muitas vezes o futebol possa assumir ele próprio um papel transformador na sociedade. Se investirmos na igualdade de género, capacitarmos e dermos oportunidades a mais mulheres para assumir cargos de gestão e dirigismo no desporto, ou criarmos condições de progressão e profissionalização das nossas atletas, damos um sinal para a sociedade de que esta transformação é possível.
R - O que há ainda para conquistar no futebol feminino?
JE - Em Portugal, falta-nos um Acordo Coletivo de Trabalho com critérios transversais e que protejam sem qualquer sombra de dúvida as jogadoras na sua relação laboral, maternidade e desenvolvimento de carreira. Não desistimos dessa luta. Precisamos, ainda, de alcançar um patamar superior ao nível das infraestruturas e condições de trabalho das jogadoras, bem como um crescimento desde a base no número de praticantes que nos permita, gradualmente, assegurar a qualidade no patamar de elite. A nível internacional, mais do que reivindicar maior investimento, penso que o desafio continua a ser fazer crescer de forma sustentada o futebol feminino e valorizar as suas competições.