Árbitros sem fronteiras

O Comité Executivo da UEFA vai discutir em Fevereiro uma proposta do Comité de Arbitragem que permitirá, já na época 2004/05, o intercâmbio de árbitros entre campeonatos nacionais, em jogos considerados de vital importância.

A ideia envolve, para já, os 27 juízes do grupo de elite da UEFA, onde se incluem Pierluigi Collina (Itália), Markus Merk (Alemanha) ou Anders Frisk (Suécia), os mais cotados da actualidade, para além do português Lucílio Baptista. Para já, de fora fica o segundo grupo, chamado "1ª classe", onde está Paulo Costa.

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Pretende-se assim retirar a pressão sobre os árbitros nacionais que apitam jogos decisivos e "derbies" quentes. A proposta defende um intercâmbio bilateral entre países (por exemplo, um trio de arbitragem inglês no campeonato alemão e vice-versa) e um raio de acção de três ou quatro partidas por prova, no máximo.

APAF de acordo

A APAF (Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol) está atenta à proposta. Vítor Reis, o presidente, afirma que a ideia tem pernas para andar: "Em tese, aceito-a, pois será benéfica para a arbitragem. Mas temos de conhecer a proposta em pormenor, pois existem muitos aspectos a considerar: quem nomeará os árbitros? Como serão classificados? Que países vão aderir?"

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Para já, a APAF vai esperar pela decisão do Comité Executivo. "Se for para a frente, vamos pedir o projecto à FPF e encetar reuniões para articular a necessária alteração da regulamentação nacional." E nem a hipótese de árbitros estrangeiros apitarem os grandes jogos em Portugal atrapalha Vítor Reis: "Desde que haja reciprocidade, não vejo inconveniente. Não defendo a invasão de estrangeiros, mas, sim, a sua utilização em casos justificáveis. Estamos a falar de árbitros de elite. Mas terá sempre de haver retorno."

Reciprocidade

A questão da primazia dos árbitros de elite levanta outras dúvidas. Os países sem juízes no grupo de topo da UEFA, como a Escócia ou a Turquia, não verão com bons olhos a nomeação de estrangeiros para as grandes partidas nacionais sem que haja reciprocidade.

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Seja como for, a ideia já foi praticada nos últimos anos, mesmo a nível europeu. Como exemplos, relembrem-se as presenças de Pierluigi Collina no Lyon-Marselha de 10 de Fevereiro de 2003 ou do holandês René Temmink no Monaco-Lyon do passado dia 9. Domenico Messina, também do grupo de elite, foi à Roménia em Abril de 2003, para apitar o Rapid-Steaua, "derby" de Bucareste. Em 2001, o suíço Urs Meier estivera na final da Taça romena, que opôs o Dínamo ao Rocar.

O que a UEFA pretende é levar a ideia mais longe e criar uma comunidade de árbitros sem fronteiras. Os melhores da Europa nos melhores jogos da Europa. Em Fevereiro haverá novidades.

Chora pela Lusa seu argentino!

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O futebol brasileiro serviu de cobaia para muitas alterações às regras do futebol, mas a ideia de chamar árbitros estrangeiros saiu da cabeça de um homem, Eduardo Farah, na altura (1998) presidente da Federação Paulista. O conceito foi aprovado ou desaprovado, consoante a opinião, mas morreu pelas mãos, melhor, apito, do argentino Javier Castrilli.

Na meia-final do Paulistão-98, a Portuguesa recebeu o Corinthians e procurava uma vitória para chegar à final. Castrilli inventou dois "penalties" para o Timão e transformou a derrota de 0--2 em 2-2, empate que se ajustava às pretensões dos visitantes. O segundo castigo máximo foi marcado no último minuto, por mão na bola de um defesa da Portuguesa, na sequência de um cruzamento. O juiz argentino confundiu o peito com a mão. Rincón fez o 2-2.

Teorias de conspiração dos grandes contra os pequeninos encheram as páginas dos jornais e o juiz argentino foi "crucificado". A moda dos árbitros estrangeiros não pegou.

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Juízes escoceses torcem o nariz

Os árbitros escoceses não estão entusiasmados com a ideia da UEFA. Desde que Hugh Dallas se retirou, no ano passado, o país ficou sem representante no grupo de elite e a ideia de ver um estrangeiro a apitar um dos mais famosos "derbies" do Mundo, o "Old Firm", que opõe Rangers a Celtic, significaria um passo atrás no desenvolvimento de novos árbitros escoceses de topo.

Esta preocupação é defendida pelo presidente da arbitragem escocesa, Donald McVicar: "Estamos a projectar árbitros no país e eles precisam do prémio dos grandes jogos. Todos anseiam por apitar o 'Old Firm' e, diga-se, têm mais sensibilidade para entenderem esse jogo do que qualquer estrangeiro. Claro que um árbitro de Itália, Espanha ou Alemanha gostaria de cá vir, mas e os nossos? Vão apitar jogos onde?" E depois vem a questão financeira: "Quem pagará a Collina para vir a Glasgow? Prémio de jogo, acomodação, transporte... Não é para brincar".

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A Oriente nada de novo

Os árbitros portugueses já têm experiência de apitarem jogos de campeonatos estrangeiros, sobretudo na Ásia, cujas federações nacionais olham com agrado a presença de juízes europeus nos grandes jogos, pelo estatuto que detêm entre os pares.

Vítor Pereira esteve no Egipto, Paulo Costa no grande "derby" (Persopolis-Esteghlal), de Teerão, capital do Irão, José Pratas e Lucílio Baptista no Japão.

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O último recorda a presença na J-League: "É uma Liga muito diferente da portuguesa, com meios financeiros poderosos, mas uma qualidade técnica pouco evoluída. O nível da arbitragem também não é muito bom. O facto é que senti uma completa ausência de pressão, fui tratado com respeito e tolerância por parte de ambas as equipas, o que não aconteceria se o árbitro fosse um japonês, pois eles sentem grandes dificuldades para dirigirem jogos de grande impacto no país."

Para além de serem bem pagos, os árbitros lusos ganham experiência em jogos atípicos.

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