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Fernando Mendes: «Arrependido de trocar Sporting pelo Benfica»

– Ainda se recorda do seu primeiro jogo como sénior?

– Foi um Sporting-V.Setúbal, da última jornada do campeonato, ganhámos por 4-1, em 83/84, tinha eu 17 anos. Recordo-me que o equipamento era todo verde e, no final, depois de ter actuado durante meia hora, atirei a camisola ao meu pai, que estava na bancada.

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– Como apareceu tão cedo nos seniores?

– Porque tive um problema nos juniores. Atirei a camisola e a braçadeira de capitão para o chão e fui proibido de treinar e de entrar nas instalações. Foi uma confusão com o Tomé, na altura o treinador e hoje um grande amigo meu.

– E só estava proibido de treinar-se com os juniores?

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– Um dia faltava um defesa esquerdo nos seniores e eu fui chamado para um treino de conjunto. Já não voltei aos juniores.

– Acabou por sair do Sporting e de uma forma conturbada...

– É verdade. Sempre assumi os meus compromissos. Para mim, a palavra vale mais do que qualquer contrato. Estávamos há oito meses sem receber, houve eleições antecipadas e eu tinha dito que apenas ficava se Jorge Gonçalves continuasse como presidente. Como ele perdeu, eu saí. Ainda falei com Sousa Cintra, mas não gostei da forma como fui abordado.

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– Em boa ou má hora?

– Em má hora, a minha saída para o Benfica. Não pelo clube mas por algumas pessoas que o serviram e que em nada me ajudaram a singrar naquele clube.

– A quem se refere?

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– A Gaspar Ramos, que nunca me apoiou. Hoje, sair de um clube e ingressar noutro é normal. Mas na altura não era assim.

– E o que é que você fez?

– O problema é que algumas pessoas pensavam que ia ser a salvação do clube, numa fase em que o Álvaro estava a terminar a carreira. Chego à Luz, no primeiro treino, e fiquei logo de fora – eu, o Ademir e o Bento. E, quando entrei, foi para defesa central...

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– Quer dizer que não guarda boas recordações de Eriksson, o técnico na altura...

– Não. Mas não é pelo facto de não ter jogado. Nunca gostei dele, daquele sorriso característico das pessoas falsas. E ele era falso. Só conheci um parecido: Keith Burkinshaw, no Sporting.

– Sentiu-se ignorado no Benfica?

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– Houve uma altura, com Tomislav Ivic, em que tudo me estava a correr bem. Mas depois entrei numa fase em que já me estava a borrifar. Como era um dos primeiros a chegar aos treinos, pegava na minha pressão de ar e, já equipado, ia aos pássaros ou então dava umas chumbadas na porta do balneário de Eriksson.

– Como foi a sua relação com Toni?

– Não foi por ele que tive os maiores problemas. O meu final no Benfica foi com Jesualdo Ferreira, quando fui para o Estrela com o José Carlos, o Paulinho e o Mário Jorge por troca com Abel Xavier. Já andava a ser empurrado, mas aí puseram-me mesmo as malas à porta.

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– Mas no FC Porto nem parecia o mesmo...

– Foi um desafio. Eu já tinha 29 anos e, portanto, outra maturidade. Tive a felicidade de entrar no FC Porto numa fase vitoriosa e senti que, finalmente, encontrava uma equipa à minha imagem. Tenho muito a ver com aquele clube.

– Teria sido diferente a sua carreira se tem chegado mais cedo ao FC Porto?

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– Não sei. Se calhar. Mas repare que sempre fiz o que me deu na cabeça. Nunca fui o típico jogador de futebol bem comportado. Não saía todas noites, mas saía muitas.

– De que se arrepende?

– De ter saído do Sporting. Nunca o devia ter feito.

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– Deixa uma imagem de eterno irreverente...

– É verdade. Mas é a minha maneira de ser. De outro modo, teria deixado o futebol aos 25 anos.

– Qual é a pior aspecto do futebol?

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– Os dirigentes. Também devia haver uma escola para eles e não apenas para treinadores. Alguns não percebem nada de futebol.

Manuel Fernandes, Jorge Costa e... o porta-chaves

Quando se pergunta a Fernando Mendes quais foram os jogadores que, por esta ou por aquela razão, mais o marcaram, o lateral-esquerdo não tem dúvidas.

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"Manuel Fernandes foi e será sempre uma referência para mim. Era ele quem me dava boleia para Alvalade e foi dele que partiram alguns dos bons conselhos que escutei ao longo da minha carreira. Depois, tenho uma grande admiração pelo Jorge Costa. Acho que as pessoas têm uma ideia errada dele. Recordo-me que, quando fui para o FC Porto, teve um papel importante na minha integração no grupo. Nada tem nada a ver com a imagem que transparece no campo. É excelente como pessoa. Há poucos como o Jorge Costa."

E o jogador mais difícil de marcar? "O Babangida, do Ajax. Era tão pequeno que parecia um porta-chaves. A primeira rotura que tive foi por causa desse moço."

Os treinadores que foram quase pais

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– Já se sabe que não gostou de trabalhar com Eriksson. Quais foram os treinadores que mais o marcaram?

– Manuel José, por exemplo, que chegou a admitir, e era verdade, que aturava mais coisas minhas do que dos filhos. E também João Alves, que foi como um segundo pai para mim, quando fui para o Belenenses. Abriu-me as portas do FC Porto."

– Esperava terminar a sua carreira desta forma?

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– Não. Eu queria jogar mais um ano, porque me sinto em condições. Acho que merecia, pelo menos, uma palavra de apreço, mais que não seja pelo muito que trabalhei quando o clube estava na II Divisão.

«Nunca precisei de empresário na minha vida»

– Teria mudado alguma coisa se pudesse voltar atrás?

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– Nada. Não altero a minha maneira de ser. Sempre fui consciente, sempre pensei pela minha cabeça e nunca fui comandado ou manipulado.

– Orgulha-se do seu percurso?

– Orgulho-me, e de que maneira. Joguei em todos os clubes que foram campeões nacionais e repare que nunca precisei de empresários, apesar de reconhecer que eles são necessários hoje em dia. Tudo o que fiz foi com mérito. Tive algumas ajudas, mas sem mérito próprio não teria representado esses clubes.

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– Qual o maior erro que cometeu num jogo?

– Foi num Sporting-Barcelona, para a Taça UEFA, estávamos a ganhar 2-0 e tínhamos a eliminatória resolvida. Eu fazia 20 anos nesse dia, nunca mais me esqueço. Num lance, isolei-me, podia ter dado a bola a três ou quatro companheiros mas não o fiz. Tentei o chapéu ao Zubizarreta e a bola ficou em cima da malha. Foi pontapé de baliza e golo deles. Perdemos a eliminatória. Foi o erro mais grosseiro e aquele que ficará na memória.

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