Jorge Cadete: «Vai ser época à Benfica porque existe qualidade e classe»

Jorge Cadete: «Vai ser época à Benfica porque existe qualidade e classe»

JOSÉ RIBEIRO

JORGE Cadete teve o "Mundo a seus pés" enquanto alinhou pelo Celtic, mas não gostou de Glasgow e mudou-se para Espanha. Como nunca teve forte espírito de emigrante, as saudades "mandaram-no" tentar regressar mais cedo a Lisboa. Depois de muitas promessas não cumpridas por Manuel Damásio, "o Paulo Barbosa e o presidente Vale e Azevedo", como faz questão de frisar, lá arranjaram a melhor forma de o manter feliz na profissão que escolheu. Assinou pelo Benfica. Coisa que, depois de tudo, já nem acreditava ser possível.

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"Até quis regressar mais cedo a Portugal porque, de resto, só fui para o estrangeiro obrigado pelos que não me queriam cá. Apesar de ter vivido experiências muito positivas no Celtic e no Celta, a minha intenção nunca foi sair do meu país. Por isso, assim que a oportunidade surgiu, nem hesitei. E nesse aspecto só tenho de agradecer ao Paulo Barbosa e ao presidente Vale e Azevedo tudo o que fizeram. Pensava que já não seria possível representar o Benfica. O meu nome era sempre citado como aquisição antes de qualquer assembleia geral no tempo de Manuel Damásio. Mas depois... nada."

-- Trocar toda a visibilidade que se tem no campeonato espanhol por um regresso a Portugal. Porquê?

-- Como já disse, porque por opção nunca teria saído de Portugal. Em Espanha até me senti bem. Fiz uma temporada positiva, a passada, e na actual até estava com uma média de um golo por cada três jogos, o que não é mau naquele campeonato. Mas depois lesionei-me e não mais existiu a mesma confiança do treinador para comigo.

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-- Também saiu do Celtic de uma forma estranha. E em Glasgow era quase um rei...

-- Não me interessa ter o Mundo a meus pés se não me sinto bem onde estou. O meu bem-estar sempre foi mais importante.

DECEPCIONANTE

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-- E encontrou esse bem-estar no Benfica, onde pouco jogou?

-- A minha grande aposta quando ingressei no Benfica sempre foi a época que aí vem e não os seis meses que faltavam jogar no anterior campeonato. Contudo, não encarei esses seis meses como férias e passeio. Dei o máximo, quer nos treinos quer nas vezes em que joguei. É claro que esperava jogar mais, mas quem tinha de apostar não o fez nesse sentido.

-- Foi, então, uma decepção?

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-- Não jogar mais vezes foi decepcionante, mas sei que trabalhei sempre muito, independentemente de ser ou não escolhido.

-- Souness nunca lhe explicou as opções?

-- Não me explicou nem eu lhe pedi qualquer explicação pelo facto de não jogar. Ao profissional paga-se para trabalhar e é isso que tem de se fazer. Durante a semana o objectivo era mostrar que estava em condições para depois ter direito ao prémio: jogar. Infelizmente não encontro explicações para o sucedido, mas respeito as escolhas. Tenho noção que esperavam mais de mim, mas as pessoas compreenderão que não jogando não podia fazer golos, nem ajudar mais a equipa. Gostaria que as pessoas pudessem ter exigido mais de mim, seria sinal de uma maior utilização. Isso agora, felizmente, são pormenores do passado. Vamos iniciar uma nova temporada com um treinador de provas dadas e todos os jogadores começarão em pé de igualdade. Desta vez não terei a desvantagem de entrar a meio. Estou lá desde o primeiro dia.

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-- Depois de ter sido despedido, Souness elogiou-o, rotulou-o de grande profissional e referiu-se à sua passagem pelo futebol britânico. Não terá sido uma forma de dizer que você só era melhor porque tinha aprendido com aqueles que ele julga serem os melhores?

-- É claro que sim. Ele referiu-se ao Cadete que havia estado no estrangeiro, mas como pôde tê-lo feito se nem sequer me conhecia antes? Quem me conhece há muitos anos pode fazer qualquer comentário desse género, mas ele não sabe se eu passei a ser diferente depois de passar pela Escócia. Penso que com essas palavras Souness apenas tapou o sol com a peneira, já que elogiou o meu profissionalismo e pretendeu colar isso à minha passagem pelo futebol britânico.

O QUE FALTOU?

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-- O Benfica, a dada altura, pareceu um candidato ao título altamente credível. Mas de um momento para o outro tudo mudou. O que faltou ao Benfica para ser campeão?

-- Olhe, faltou a saída de Souness mais cedo! Se isso tivesse ocorrido, possivelmente nesta altura estaríamos a festejar a conquista do título.

-- Notou-se assim tanto a diferença do treinador antes e depois do jogo com o Boavista?

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-- Notou-se. Aliás, todos notaram! Nos treinos passou a haver menos união entre o treinador e o restante grupo. Depois do jogo com o Boavista ele passou a fazer figura de corpo presente, tanto nos treinos como nos jogos. E aí as coisas não estavam totalmente perdidas. Poderíamos ter conseguido algo mais, como a presença na Liga dos Campeões. Frente ao Boavista perdemos o título. E depois disso sentimos que Souness pouco ou nada já ia fazer para dar a volta às coisas. Continuámos sempre a dar o máximo, e se mais não demos foi porque não conseguimos. Contudo, ficámos sempre sujeitos às opções do treinador e às suas opiniões acerca do nosso valor.

-- Como reagiram ao que ele foi dizendo de vós?

-- Bom, para ele a equipa do Benfica não tinha qualidade nem jogadores de classe, não era? E eu pergunto: Preud'homme, Ovchinnikov, João Pinto, Nuno Gomes, Calado, Poborsky, Paulo Madeira ou Ronaldo, para não estar a elaborar uma lista mais extensa, são o quê? Jogadores de qualidade e com classe, como é evidente! São jogadores normais? Claro que não, pois nesse caso não estariam numa equipa como o Benfica.

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CORRIDA A TRÊS

-- O que se pode esperar do Benfica na próxima temporada?

-- Vai ser uma época à Benfica! Tenho a certeza que o nosso grupo vai dar aos adeptos as alegrias que eles merecem. Cinco anos sem ganhar o campeonato, num clube como o Benfica, é muito tempo. Está na altura de mudar isso e para os jogadores mais jovens a nossa vitória no futuro campeonato vai ser o tranquilizante que eles necessitam para jogarem ainda mais. Porque a grande pressão de ter de ganhar só acalma com um título. E conseguindo-o na época que vem, tudo se acalma e a partir daí a equipa melhorará ainda mais.

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-- A concorrência será muito forte. Já se deu ao trabalho de ver as equipas que Sporting e FC Porto estão a preparar? O Benfica também está a reforçar-se, mas para já só com defesas e guarda-redes....

-- Em relação a isso, digo-lhe que é um assunto que não me diz respeito. Temos um treinador e um presidente com capacidades para levar o Benfica ao título. Eles sabem melhor do que qualquer jogador aquilo que a equipa precisa. De resto, no actual grupo de trabalho existe qualidade e classe; é só a questão de determinados jogadores começarem a sentir maior confiança e logo irão ver.

-- Concorda, então, com Vale Azevedo quando ele diz que o Benfica tem uma grande equipa e que bastará um ou outro reforço para chegar ao título?

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-- Aquilo que digo é isto: o Ovchinnikov é titular da selecção russa; o João Pinto e o Paulo Madeira são titularíssimos da selecção portuguesa; o Poborsky é titular da selecção da República Checa, curiosamente a primeira a apurar-se para a fase final do Euro 2000; o Nuno Gomes foi o segundo melhor goleador do campeonato; o Hugo Leal foi considerado como a revelação portuguesa do campeonato; o Calado é um “trinco” excepcional e todos o irão ver na próxima época. O Benfica tem, como se vê, jogadores com grande classe. Há muita qualidade no nosso grupo.

-- O próximo campeonato será uma corrida a três ou o Boavista continuará com aspirações?

-- A época que o Boavista acabou de fazer deve ser salientada. Com todo o respeito que tenho por eles, e o Jaime que me desculpe, mas parece-me que o Boavista vai ressentir-se, no próximo campeonato, daquilo que fez neste. E por isso creio que vamos ter uma corrida a três, da qual o Benfica sairá vencedor, conquistando o título.

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-- Fé não lhe falta...

-- Não é uma questão de fé. Simplesmente vamos provar que somos, de facto, os melhores em Portugal. Esse tem de ser o pensamento de todos os benfiquistas.

AINDA O JOGO DE ALVALADE

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CADETE marcou ou não um golo em Alvalade? Para a esmagadora maioria dos adeptos a resposta é clara: não. Para ele, no entanto, a questão não é assim tão fácil de decidir, até porque continua a defender o seu golo.

"Ainda hoje as pessoas dizem que o Beto fez dois autogolos, mas a verdade é que o próprio Beto, 45 dias depois, veio afirmar que não havia feito os dois autogolos. Eu pergunto: se um jogador rematar de fora da área e a bola bater num adversário e desviar a trajectória, acabando por ser golo, o que decidem? É golo ou autogolo? Todos dizem que é golo, por isso não vejo razão para o meu em Alvalade não o ser. O Beto cabeceou-me na nuca e abriu o sobrolho. A bola, é certo, desviou na cabeça dele, mas depois de cabeceada por mim."

-- Como justifica toda a polémica que se levantou devido a esse golo ou autogolo?

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-- Custava mais aos responsáveis do Sporting, pelos vistos, engolir a derrota com um golo do Cadete! Mas eu não guardo rancores a ninguém e ainda agora no jogo da Luz cumprimentei todos os meus ex-colegas do Sporting.

-- Cumprimentou o Ivkovic?

-- Não, claro que não cumprimentei o Ivkovic. Ele não é ninguém no futebol para merecer o meu respeito. Nem como profissional nem como atleta.

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-- Porquê?

-- Analisem a carreira dele no Sporting...

-- Não foi má, afinal esteve sempre como número um.

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-- Pois esteve, mas também deve ter sido o único guarda-redes que passou pelo Sporting sem ter concorrência. Se eu for o único ponta-de-lança nem preciso de me preocupar em trabalhar muito, pois jogarei sempre, não é?

-- Está a insinuar que ele conseguiu convencer Sousa Cintra a nunca adquirir alguém que lhe movesse concorrência?

--Não, até porque também diziam que era protegido de Sousa Cintra, só por ser compadre dele. Sei é que os meus treinadores me consideraram sempre entre os bons profissionais. Não sei se dele dizem o mesmo...

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-- Não acha que está a reagir mal ao facto de Ivkovic ter questionado o seu "sportinguismo"?

-- Não está em causa se sou do Sporting ou do Benfica. Sou é um profissional. Passei 12 anos no Sporting, mas tal como num casamento, um dia acaba o amor e dá-se o divórcio. Voltei a casar e penso que o meu amor pelo Benfica será o último.

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