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Mário Wilson: Eternamente Velho Capitão

• Foto: Pedro Simões 

Mário Wilson, um dos maiores vultos do futebol português, faleceu ontem ao fim da tarde em Lisboa. Ele foi o avançado que veio para o Sporting substituir Fernando Peyroteo, o primeiro treinador português campeão pelo Benfica e um homem que, por carisma, intervenção e inteligência, marcou não só o pontapé na bola como a própria vida desportiva do país durante mais de meio século. Estudioso do fenómeno, firme nas convicções, divertido por natureza, assinou uma enorme carreira, com ligação substancial a dois clubes: a Associação Académica de Coimbra e o Sport Lisboa e Benfica.

Com Mário Wilson parte, também, um dos membros honorários de uma grande geração de treinadores portugueses, dando seguimento ao processo natural da vida que já levou parceiros ilustres como José Maria Pedroto, Juca, Joaquim Meirim, Carlos Silva, António Medeiros, entre muitos outros. O Velho Capitão, como era apelidado carinhosamente por todos quantos o admiravam, deixou marcas na história do futebol português, no qual tem lugar assegurado como figura eterna, que influenciou a carreira de muitos grandes jogadores nacionais, estrelas que nunca esqueceram a importância dos conselhos do Mestre e do contacto que tiveram com tão singular personagem. Mário Wilson sempre revelou sensibilidade apurada para deixar marcas por onde passou e nas pessoas com quem trabalhou. Veio de Moçambique para substituir Peyroteo, seguiu para Coimbra onde se formou. Lá encarnou o espírito da Briosa e cruzou-se com Mestre Cândido de Oliveira, máxima referência futebolística até ao fim da carreira.

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Substituto de Peyroteo

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Mário Wilson nasceu em Lourenço Marques, hoje Maputo, a 17 de outubro de 1929. No bairro de Maxaquene viveu uma infância modesta mas feliz, sempre agarrado à bola que havia de conduzi-lo ao topo da consideração desportiva. Começou a jogar no Desportivo, filial do Benfica, tendo sido campeão moçambicano. Tinha 19 anos quando foi alvo do apelo continental. O rasto goleador que deixara não passou despercebido aos principais clubes portugueses, com especial incidência no Sporting que, nesse ano de 1949, perdeu o maior goleador da sua história: Fernando Peyroteo, então com 31 anos, decidiu colocar ponto final na carreira, deixando a família verde e branca órfã da sua máxima referência ofensiva.

Resistindo ao coração benfiquista que nunca escondeu, Mário Wilson aceitou o desafio de vir muito jovem para Lisboa, para o Sporting e com a tremenda responsabilidade de render um jogador simplesmente insubstituível. Mesmo não tendo sido fácil a adaptação à capital e à exigência máxima da tarefa que tinha pela frente, Wilson cumpriu como especialista do último toque. Na primeira temporada (1949/50), apesar de ver interrompida a série de três títulos nacionais, foi o melhor marcador dos leões (23 golos). Na época seguinte as coisas correram pior: perdeu preponderância e só fez 14 golos no campeonato. Começou então a fervilhar a ideia de que não desejava prosseguir no Sporting.

Coimbra e Académica

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Impulsionado pela ideia de tirar um curso superior e de encontrar o irmão Billy, escolheu Coimbra e a Académica como destino. Era ainda um jovem (21 anos) quando deu início a uma paixão para o resto da vida, em representação de um clube que viria a ser decisivo na construção do enorme treinador em que viria a tornar-se, principalmente depois de se cruzar com o homem mais marcante da sua carreira: Cândido Oliveira.

Antes disso, o treinador argentino Oscar Tellechea operou a grande transformação, ao fazer do homem que substituiu Peyroteo no Sporting um defesa-central de créditos firmados, tendo formado com Mário Torres uma das mais extraordinárias duplas da história da Briosa. Numa função em que lhe era mais fácil impor os dotes de líder, Mário Wilson triunfou sem hesitações, associando juventude e talento para cedo se afirmar como capitão de equipa. No arranque de 1955/56, depois de um mau início de época, mestre Cândido assumiu o comando da equipa – iniciaram aí uma relação eterna. Capitão de equipa, figura incontornável da cidade e do clube, Mário Wilson jogaria até à época 1962/63, acumulando funções de adjunto, também de José Maria Pedroto, que acabaria por afastá-lo dos relvados. Wilson nunca compreendeu a decisão que deu início a um conflito que se reacenderia em várias etapas das carreiras e duraria até ao último dia de vida do inesquecível Zé do Boné.

Mestre Cândido

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Mário Wilson: Eternamente Velho Capitão

Nasceu então o treinador. Na Académica, Mário Wilson passou cinco épocas em que nunca ficou abaixo do 6º lugar, tendo sido vice-campeão em 1966/67, com uma final da Taça de Portugal perdida para o V. Setúbal (1966/67). Seguiram-se Belenenses (entre 1969 e 1971) e V. Guimarães (1971-1975), antes de ser contratado pelo Benfica (1975/76). Tornou-se o primeiro treinador português a ser campeão na Luz para, no fim dessa época, regressar a Guimarães, onde passou duas temporadas, período no qual regressou à Luz para uma temporada (1979/80) culminada com a conquista da Taça de Portugal. Entre 1978 e 1980 assumiu a Seleção Nacional, em plena guerra sem tréguas entre FC Porto (liderado por José Maria Pedroto) e Benfica.

Depois dessa marcante passagem pela FPF, o Velho Capitão não mais teria o sucesso de outrora. Tinha o carisma, a força da autoridade e dos conhecimentos, um estatuto de referência indiscutível no futebol nacional, mas as portas foram-se fechando. Nos anos 80 e na primeira metade de 90, passou por Académica, Estoril (também na 2ª Divisão) e Boavista, isto para não falar em Cova da Piedade, Louletano, Torreense, Olhanense e Águeda (todos no segundo escalão) e de uma experiência em Marrocos, no FAR Rabat.

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Últimas etapas

Em 1994, Artur Jorge chamou-o para a estrutura benfiquista. Rei Artur rendeu Toni no comando técnico das águias e não se esqueceu do homem que o orientou nos primeiros anos da longa caminhada. No início da temporada 1995/96, os encarnados decidiram destituir o treinador e promoveram Mário Wilson a treinador principal. Manteve-se até final da época e ganhou a Taça de Portugal ao Sporting (3-1), na final do Jamor. Manteve-se na estrutura do clube, tendo pegado na equipa em fases de transição, como a que se viveu entre Paulo Autuori e Manuel José, na época 1996/97.

A última etapa profissional viveu-a no Alverca, então comandado por Luís Filipe Vieira. Estava com quase 70 anos e mantinha a paixão pelo trabalho, o desejo de ensinar e de se testar como treinador que, no fundo, sempre foi. Mesmo quando ainda só era futebolista.

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Acamado desde o dia 12 de fevereiro

Mário Wilson já estava com a saúde muito debilitada e desde 12 de fevereiro que se encontrava acamado, vítima de insuficiência cardíaca. O seu estado deteriorou-se nos últimos tempos. O programa das exéquias fúnebres do Velho Capitão só hoje será conhecido. À família enlutada, Record apresenta sentidas condolências.

Por Rui Dias
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