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Saco Azul: «Contratos mal-amanhados mostram que não havia tentativa de simulação»

Rui Patrício, advogado do Benfica
• Foto: Paulo Calado

Foi com atraso que arrancou mais uma sessão do julgamento da Operação Saco Azul e, com a escassez de tempo, só Rui Patrício tomou a palavra. Um dos advogados de defesa da SAD do Benfica, durante mais de hora e meia, de pé, procurou desmontar os argumentos da acusação, atribuindo, vários pecados capitais. Curiosamente, um dos erros que aponta à linha investigatória é considerar que, pelo facto, dos contratos entre a Questão Flexível, de José Bernardes, e o Benfica, serem "mal-amanhados", é um sinal que possa existir crime, algo que o advogado contraria. Rui Patrício considera que esse desleixe é um sinal que não havia a preocupação de esconder provas. A este pecado da investigação, apelida de "soberba".

"Então eu iria fazer uma coisa destas e não teria o cuidado de fazer as coisas como deve ser? Iria simular uma coisa destas, um crime de alto gabarito, e não tenho o cuidado de fazer contratos como deve ser?", começou por questionar o causídico, tendo prosseguido na consideração: "Nas simulações, os contratos são feitos com cuidado, bem feitos. Fizeram estes contratos, se são mal-amanhados, que são os grandes argumentos da investigação, o que digo é que isto mostra que não houve preocupação de fazer bons contratos porque não houve simulação. A arte da simulação, sobretudo num projeto destes, teria tido o cuidado de fazer contratos como deve ser. E não contratos com esta vacuidade. É a evidência que não há o dolo de montar um saco azul. O mal-amanhado dos contratos funciona ao contrário do que a investigação pretende. Daí a soberba. Se houvesse um esquema criminoso teria havido cuidado, quer com as datas quer com o conteúdo dos contratos".

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Rui Patrício utiliza o mesmo argumento para os relatórios elaborados por José Bernardes, mas também apontou críticas ao facto da investigação ter considerado que os 2 milhões de euros pagos, serem valores exagerados. Considera, neste caso, tratar-se de "ira" da investigação. "Podem lá ser serviços verdadeiros, diz a investigação. Há uma espécie de ira, a investigação irrita-se. Se é caríssimo, não pode ser verdadeiro. Isso não diz nada sobre a materialidade dos serviços prestados. A ideia de que estes serviços de 4 anos valem 2 milhões é muito, mas mesmo que seja muito, isso não significa que não seja verdadeiro. Significa apenas que as partes decidiram que aquele era o preço. O Benfica precisava daquilo e o José Bernardes, evidentemente, queria valer-se da situação de confiança que lá arranjou", destacou o advogado, que também tocou no que apelida de de "inveja" da acusação.

"Dizem que recebe muito para não fazer nada. Porque fizeram o contrato a partir da alta disponibilidade, estar disponível 24 horas por sete dias, mas não fez nada. Que o Benfica deveria ter contratado um bolo de horas ou que o José Bernardes só deveria ser pago se tivesse acontecido alguma coisa. Não, não. A alta disponibildiade contratada é um seguro. E eu dou o meu exemplo. Eu sou muito hipocondríaco e por conta disso tenho mais do que um seguro de saúde e tenho um daqueles que cobrem tudo e custa-me uma pipa de massa. Nunca o usei e já o tenho há vários anos. Se fosse somar a anuidade desse seguro é melhor não fazer, porque ficaria a saber o que perdi ou o que não gastei, não investi ou doei. Mas tem o preço da minha tranquilidade e esse é um valor inestimável. Pago o que for preciso. É a mesma lógica da alta disponibilidade. Felizmente não foi preciso. Significa que não houve nenhum crash". 

Estes foram alguns dos argumentos utilizados por Rui Patrício, que aponta a um enorme "viés de confirmação" de uma investigação baseada em "presunções". "A investigação presumiu, desde o início, que não houve serviços. E depois presume-se que não haver serviços tem a ver com o Benfica. O que a investigação faz é tentar forçar indícios para reforçar a ideia que vem dos levantamentos a jusante. Esses indícios são forçados e não se confirmam". 

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O advogado João Madeiros, que representa também o Benfica, é o próximo advogado a realizar as alegações finais. A próxima sessão está marcada para dia 15 de janeiro. 

   

Por Valter Marques
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