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Um copo meio-cheio

Um copo meio-cheio
• Foto: PEDRO FERREIRA

O copo do Benfica está meio-cheio ou meio-vazio? O 2-1 é um resultado positivo ou deixa antever uma eliminação em Turim daqui a uma semana? Numa análise pragmática, uma vitória é uma vitória e o Benfica viaja para Itália com um golo de avanço. Mas dá para sentir no final deste encontro de Champions que os benfiquistas não ficaram otimistas em relação ao desfecho do confronto, por variados fatores, todos aparentemente favoráveis à Juventus, o mais notório dos quais a extraordinária capacidade de gestão da bola, ao jeito de uma máquina, de que a equipa italiana uma vez mais fez exuberante demonstração, ao longo de quase toda a segunda parte.

Consulte aqui o direto do encontro.

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No entanto, o Benfica alcançou o resultado mais plausível, “a priori”, para este confronto: uma vitória sem conseguir evitar a alta probabilidade de a Juventus marcar o seu golo, sem esquecer que era impossível a eliminatória ficar resolvida neste primeiro encontro. Portanto, tudo pesado, por mais otimistas que sejam os italianos, também eles sabem que a sua final está em risco, porque têm de recuperar de uma derrota e não deixarão de temer a eficácia do contragolpe encarnado, particularmente se já for possível contar com Nico Gaitán. OBenfica vai para Turim a ganhar e nenhum pessimismo é autorizado, o copo está meio-cheio.

Surpresa

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O Benfica teve uma entrada surpreendente na partida, não apenas porque conseguiu marcar logo aos 2 minutos, mas ao manter o adversário em sobressalto ao longo de meia hora, inclusive com algumas situações que podia ter aproveitado melhor com um avançado como Lima no onze inicial.

A escolha de Jorge Jesus tinha sido, aliás, a primeira surpresa da noite, ao juntar aos grandes ausentes (Fejsa, Salvio e Gaitán) mais algumas opções discutíveis, de Artur a Cardozo, passando, em particular, por André Gomes.

A jogar com enormes cautelas para não facilitar a tarefa de Pirlo com lances de bola parada nas imediações da grande área, o Benfica surpreendeu também pela forma como chegou ao golo. Precisamente um pontapé de canto, marcado à esquerda por Sulejmani, para um cabeceamento de Garay, liberto no centro da área. OBenfica agredia com as armas do adversário e isso tem um enorme efeito psicológico nas equipas.

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Tudo o que fez de bom nessa fase inicial da partida passou ao lado daquelas duas unidades de campo, com André Gomes a cometer sucessivos erros no centro das operações e Cardozo apenas ocupando espaço físico, sem conseguir tocar uma bola nem interagir com Rodrigo ou com os dois extremos. Ainda assim, com Sulejmani decidido e prático no contra-ataque e com Rodrigo veloz e disponível, até o segundo golo podia ter chegado no primeiro quarto de hora, em particular numa cavalgada mal finalizada pelo extremo sérvio (11’).

A Juventus nunca deu mostras de embaraço, nunca se precipitou a acelerar as movimentações, confiando que acabaria por chegar ao domínio, à medida que o relógio avançasse e que o seu sistema, igualmente, se conseguisse instalar no meio-campo contrário e empurrasse o Benfica para trás. Com a exceção de mais um contra-ataque entre Sulejmani e Rodrigo (35’), foi o que aconteceu no último quarto de hora: a Juventus assentando arraiais, a preparar uma segunda parte assustadora, reduzindo o Benfica à vulgaridade durante longos minutos.

Sobranceria

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Apesar de ser evidente a superioridade italiana até Jorge Jesus fazer, com atraso, algumas alterações que se impunham, e de as oportunidades de golo terem surgido a espaços (Pogba aos 55’, Tévez aos 64’, Marchisio impedido por Maxi aos 68’), o prenúncio do segundo golo emudeceu a Luz. Era um golo escrito nas trocas de bola, nas movimentações e também nas dificuldades do meio-campo encarnado, agravadas pela confusão que a saída prematura de Sulejmani provocou na zona nevrálgica. O flanco esquerdo esteve órfão durante largos minutos, tendo por lá passado André Gomes, Markovic e Rodrigo, dando origem às melhores e mais perigosas acelerações de Lichtsteiner.

De uma falta escusada de André Gomes nessa zona nasceu o golo do empate, com a bola a viajar rapidamente pelo flanco de Maxi Pereira até chegar a Tévez, letal, com espaço e de frente para a baliza.

Este inevitável empate pareceu ter sentenciado jogo e eliminatória, pois o Benfica não tinha realizado uma jogada de ataque, com conclusão, ao longo de todo o segundo tempo. O futebol, contudo, nunca deixará de nos surpreender: seja porque a Juventus fez uma avaliação precipitada da sua superioridade, seja porque Jorge Jesus foi particularmente feliz no lançamento de Ivan Cavaleiro, o jogo ainda não tinha acabado. O melhor, aliás, ainda estava para vir.

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Lima

Depois de uma fase menos assertiva, o avançado brasileiro despertou para um final de temporada que pode tornar-se épico. Aos dois golos da grande festa do título com o Olhanense decidiu juntar uma finalização bombástica que faz toda a diferença entre Benfica e Juventus e permite aos encarnados ainda sonharem com a final de Turim. Faltavam oito minutos para o jogo acabar, o Benfica tinha recuperado o equilíbrio com a entrada de Ivan Cavaleiro e a deriva de Markovic para o lado esquerdo, e até a ideia de que alguns jogadores acusavam o desgaste dos festejos de domingo à noite se desvaneceu por momentos.

A jogada congeminada por MaxiPereira e Enzo Pérez e tornada possível pela simulação feliz do jovem Cavaleiro só foi golo, todavia, pela potência e direção do remate inesquecível de Lima. Como se esperava, foi a inspiração individual que desequilibrou e decidiu um jogo entre forças mais ou menos aproximadas. Mais ou menos porque, sem tirar a razão de Jorge Jesus, de que se trata das duas equipas mais fortes da Liga Europa, a Juventus situa-se num degrau acima do Benfica.

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No entanto, esta partida deixou perceber as possibilidades dos encarnados. Osistema italiano permite rápidas retomas de bola e contra-ataques fulminantes, como se observou no primeiro tempo, e a coesão do sector defensivo garante que não haverá um massacre no Piemonte. Esse não é o método da Juventus, que só finaliza pela certa, e o Benfica estará mais sólido dentro de uma semana, se recuperar Fejsa e Gaitán.

Aperder por 1-2, a Juventus revelou-se ansiosa, quase aflita, como se o chão lhe tivesse fugido debaixo dos pés. Ficou claro nos últimos minutos, quando atacou descoordenada, que se expõe e nem é mais segura por atuar com três defesas, podendo até ficar em inferioridade numérica atrás: Ivan Cavaleiro teve o golo nos pés nos últimos segundos, após nova ação desequilibradora de Lima.

ÁRBITRO

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Cuneyt Çakir (2)

Cünet Çakir é mais um árbitro de dimensão mundial, que veremos no Brasil’2014, a mostrar “urbi et orbi” num relvado de Lisboa como é difícil ajuizar bem nos tempos que correm. Ele e os auxiliares erraram na maioria dos lances difíceis, com diversos foras-de-jogo mal avaliados e um lance capital, de observação fácil, quando Cáceres impediu a progressão de Enzo Pérez dentro da área (56’). Mais condescendência merece no despique entre Chiellini e o médio argentino, dentro da área encarnada, sem bola, quando o italiano começa por empurrar e acaba agredido por Pérez, que arriscou o cartão vermelho num lance inofensivo, embora de difícil observação.

NOTA TÉCNICA

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Jorge Jesus (3)

Começou com opções discutíveis, com Artur, André Gomes e Cardozo no onze inicial. Melhorou com as substituições, embora também a de Sulejmani tenha sido prematura e deixado a equipa desequilibrada durante longos minutos. Lima e Ivan Cavaleiro salvaram-no de um resultado negativo e de críticas mais graves pelas escolhas iniciais.

Antonio Conte (3)

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Também terá feito uma escolha controversa na formação inicial, ao deixar Llorente de fora, mas a equipa não se ressentiu. O problema da Juventus, que ele não conseguiu resolver, terá sido mais de ordem motivacional: a equipa pareceu sempre dona de um destino feliz e só se mostrou incomodada quando o 1-2 se tornou irrecuperável. Houve realmente sobranceria italiana.

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