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Perante uma plateia de duas centenas de alunos da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Francesco Farioli foi esta quinta-feira o convidado principal da iniciativa "Conversas que inspiram" dedicada a futebol, filosofia e liderança. O técnico campeão nacional pelos dragões começou a sua intervenção recordando a forma como encontrou a filosofia na sua vida e como em simultâneo cumpria o seu trajeto no ensino superior e no futebol. Entre o desejo de ser astronauta, a sua pouca qualidade como guarda-redes e os muitos quilómetros feitos por dia para cumprir todos os seus afazeres, o italiano deixou alguns conselhos aos estudantes.
Em baixo a transcrição de algumas das ideias transmitidas por Farioli:
"É uma grande felicidade para mim estar aqui, pois não há muito tempo estava desse lado, pelo que é uma alegria poder estar aqui convosco a partilhar alguns pensamentos. Também queria agradecer o convite que me foi dirigido.
Como sabem fui estudante de filosofia e a parte mais interessante relaciona-se com a forma como isso aconteceu. Quando andava no secundário, a minha ambição era ser astronauta, fascinava-me tudo o que era relacionado com o tema, tudo sobre a NASA, tudo sobre o que está sobre a nossa cabeça. E como podem perceber, pensava que seria um engenheiro a trabalhar sobre estas coisas… Alguns anos depois percebe-se que fiquei um pouco longe disso. As minhas notas eram boas, matemática incluído, mas depois de um certo nível a matemática, a física, a química, tornaram-se de alguma forma minhas inimigas.
De alguma forma cruzei a linha quando comecei a estudar filosofia no secundário, quando tive uma professora que me leu um livro sobre o facto de nunca ser demasiado tarde para ser filósofo, para ser um estudante da vida. Começámos a abordar a vida de Sócrates, um dos maiores seres humanos que alguma vez viveu… E esse foi o segundo grande momento da minha ligação à filosofia. Acho que o que mais me motivou na filosofia foi mesmo o facto de colocar muitas questões… e acabou por mudar a minha vida, a minha abordagem à vida, o meu pensamento. Depois, quando saí do secundário, ok, tomei o meu tempo, não sabia o que queria fazer, mas sabia que queria investir em mim mesmo.
Por outro lado, eu era um jogador de futebol muito mau, muito mau. Um guarda-redes muito mau. Fiz sempre as coisas de forma muito profissional, mas, literalmente, não era suficientemente bom, essa é a definição. A certa altura, e isto também é algo que eu gostaria que levassem convosco quando saírem daqui, por vezes podem encontrar pessoas que vos vão dizer uma verdade dura que, naquele momento, talvez não apreciem tanto quanto deviam. Mas, talvez passados alguns anos, possam dar-lhe um valor diferente.
Esta conversa aconteceu quando eu tinha 19 anos. Um dos meus treinadores estrangeiros veio ter comigo e disse: 'Francesco, quero ser muito honesto e transparente contigo, porque vejo o esforço que estás a fazer para tentar continuar a jogar. Não acredito que vás conseguir. Não acredito que venhas a ser recompensado pelo esforço que estás a depositar aí. Podes ter o prazer de prolongar a tua carreira por mais algum tempo, mas nunca, jamais, serás um jogador de futebol profissional. Mas sugeria que começasses a ajudar-me, a trabalhar comigo como treinador, porque, desde que te conheço [uns quatro ou cinco anos antes] sempre senti que já eras treinador quando tinhas 15 ou 16 anos.'
Pela forma como eu me comportava, pela forma como via o jogo e pela forma como liderava os meus colegas de equipa, foi bastante difícil e demorei algum tempo a ligar-me a esta parte. Durante dois anos desci ainda mais e, acreditem, não foi fácil, porque eu estava quase no nível mais baixo do futebol. Desci uma categoria, mas comecei também a trabalhar como treinador de guarda-redes, porque era algo que já fazia há muitos anos.
Foi o caminho natural de onde se começa. E comecei basicamente com o triplo do trabalho. De manhã, pegava no carro e ia para Florença para ter aulas. No regresso parava para treinar uma equipa do meu grupo de guarda-redes e uns quilómetros depois, às vezes esquecia-me de mudar a t-shirt, fazia a segunda paragem para trabalhar noutro clube. E depois, às 19h00, ia exatamente para o lado oposto da Toscana para continuar a jogar e manter-me, digamos, ativo.
Todos os dias fazia quase 300 quilómetros nisto. Mudei bastante de carro, especialmente nos primeiros dois ou três anos. E fiz isto, honestamente, sem sequer sentir o cansaço. Por exemplo, se comparar com o que faço agora, acho que trabalhava sete vezes mais. Se olhar para trás, nem consigo acreditar na quantidade de energia que tinha naquela altura.
E foi basicamente assim que começou. Dois anos depois, surgiu a primeira oportunidade para trabalhar a um nível profissional numa equipa principal, na quarta divisão, e também para ter, digamos, um salário, aquilo que as pessoas chamam de trabalho. Entretanto, estava no meu último ano da universidade. E sim, tive bastante tempo para pensar, porque as viagens de carro continuavam a ser longas. Com pouco de música e um pouco de reflexão pensei: 'Tenho de tentar combinar estas duas paixões numa só coisa.'
Fui ter com um dos professores de quem me sentia mais próximo, ou por quem me senti mais atraído pela forma como dava as suas aulas, e bati à porta e disse: 'Bom dia, gostaria de lhe propor um tema para a minha tese.' Normalmente, corrijam-me se estiver errado, mas normalmente são os professores que dão o título aos alunos ou, pelo menos, orientam bastante a tomada de decisão. E eu fui lá para dizer: 'Olhe, eu gostava mesmo de fazer esta tese, e o título é este: Filosofia do Jogo — a estética do futebol e o papel do guarda-redes.'
Ele deu um passo atrás para processar e disse-me: 'Senhor Farioli, gostava apenas de o lembrar que estamos na Faculdade de Filosofia da Universidade de Florença. Não estamos no ISEF (Educação Física) ou algo parecido.' Nesse momento, tive de reagir rápido e dizer: 'Não, eu sei, eu sei. É uma ideia, preciso de tempo para explicar, etc., etc.' Acho que ele ficou realmente curioso sobre o que eu tinha para dizer."
Por Rui Sousa