ESTÁ tudo em aberto para o jogo da 2ª mão da Taça UEFA. Quinta-feira, nas Antas, FC Porto e Liverpool não foram além do nulo, resultado que serve as pretensões dos ingleses mas que não afasta – longe disso – as hipóteses dos dragões passarem às meias-finais da prova.
O FC Porto não marcou mas, do mal o menos, também não sofreu. Um dado deveras importante para a deslocação a Anfield Road, prevendo-se que o Liverpool, em casa e perante o seu público, actue de forma muito diferente.
Aliás, nem todos vaticinariam que os britânicos apostassem num sistema tão... italiano! De facto, o 4x4x2 que Houillier montou para esta 1ª mão revelou grande respeito pelo adversário, a começar pela ausência do ponta-de-lança (Heskey só entrou a meio da segunda parte) e a acabar pelas duas muralhas – a primeira à entrada do meio-campo, a outra à frente do guarda-redes – que anularam bastas vezes a toada ofensiva do FC Porto.
Os dragões tiveram paciência de chinês, é verdade que tiveram, mas essa mesma paciência não foi recompensada. Num jogo de poucas oportunidades, os guarda-redes tiveram mais atenção do que trabalho esforçado. Só podia dar 0-0.
O Liverpool, repita-se, não teve dúvidas. Defender primeiro e contra-atacar depois, aproveitando a velocidade de Owen, o único, na realidade, a dar que fazer a Ovchinnikov, foi a receita. Uma receita nada típica do futebol inglês, mas se acrescentarmos que o técnico é francês e que na equipa apenas actuaram de início quatro (!) súbditos de Sua Majestade, já se compreenderá melhor como está descaracterizado este futebol do Liverpool, em relação às formações que ainda não há muitos anos faziam as delícias dos adeptos da Europa e até do Mundo.
Sem espaços
Fernando Santos não inventou nada. Nem tinha de inventar. Chainho surgiu no lugar do castigado Alenitchev, preenchendo o miolo com Paredes, mais defensivo, e Deco, quinta-feira mais do que nunca o verdadeiro maestro da formação nortenha.
Na defesa, reapareceu Jorge Costa, que, porém, teve de abandonar, aos 57 m (após excelente corte, quando Owen se procurava isolar), sendo substituído por Aloísio.
Muito cedo ainda se vislumbrou que o FC Porto não tinha espaços por onde explanar o seu futebol. Capucho bem tentava, ora usando a velocidade ora a habilidade, mas Drulovic não o imitava e Pena perdia claramente na luta com os dois centrais adversários.
O 4x4x2 do Liverpool nunca se desmanchou e teve até requintes de sistema puramente defensivo, quando, amiúde, a equipa não conseguia partir para o ataque. Ao invés, os dragões faziam-no com facilidade. Só que também não criavam perigo.
Só perto do intervalo é que Chainho, após trabalho de Deco e solicitação de Capucho, apareceu em boa posição para o remate, mas o guarda-redes holandês do Liverpool defendeu para canto.
Na baliza oposta foi por volta da vintena de minutos que a dupla Fowler-Owen provocou alguns calafrios, com rápidas desmarcações que quase surtiam efeito.
Pode-se dizer que o FC Porto não tentou tudo, é certo, mas tem de se reconhecer o mérito do adversário face ao modo como tapou todos os caminhos. Os flanqueadores chegaram a trocar de posições, Pena recuou para criar desequilíbrios, mas nada fazia vacilar a muralha inglesa. E o golpe de asa, por mais que Deco procurasse, andava arredio das Antas.
Bem melhor
O FC Porto reentrou em campo, após o intervalo, com outra disposição. Os desequilíbrios tinham de vir de trás e tanto Paredes como Chainho e até Nélson passaram a ocupar lugares mais próximos dos homens da frente.
Com maior assiduidade, os dragões tentaram o remate, com Deco em evidência, e aos 66 m desfrutaram da melhor ocasião de todo o desafio: grande trabalho de Deco a isolar Pena e este, na única vez em que fugiu aos seus "polícias", rematou ao lado.
O Liverpool era ainda menos acutilante e as saídas de Fowler e Owen, para refrescar o ataque, não surtiram efeito. Fernando Santos lançou Cândido Costa, para o lugar de Drulovic (Capucho foi então para a esquerda), os portistas continuavam a trocar a bola de pé para pé, quase sempre com destreza, mas o nulo teimava.
A experiência e classe de alguns dos homens mais recuados dos forasteiros, de Babbel a Hamann e Gerrard, por exemplo, continuavam exibindo um claro "stop" para a produção dos portistas.
Foi, por tudo isto, um jogo chato. Sem grande emoção. Muito táctico e de respeito mútuo. Na 2ª mão, repita-se, tudo deve ser diferente, e então o FC Porto terá algo a explorar. Quinta-feira, a defesa portou-se muito bem e nunca se intimidou com o virtuosismo de Owen.
No espaço de uma semana caberá agora a Fernando Santos preparar o assalto a Liverpool, com a certeza, quase absoluta, que o opositor actuará de forma distinta, menos compacta e mais agressiva.
Será uma partida de sofrimento, se calhar, mas também de esperança. Esperança em repetir, por exemplo, aquilo que a AS Roma fez em Inglaterra (ganhou por uma bola sem resposta) na ronda anterior da Taça UEFA, e com a vantagem de não se apresentar fragilizada para esse encontro (os italianos perderam 2-0 em casa).
Ou seja, se os romanos eliminaram os ingleses, estes também podem ser afastados pelos portistas. Sem qualquer dose de chauvinismo, note-se.
Uma palavra apenas para a arbitragem do conceituado Collina: impecável. E outra para aplaudir o bonito gesto do Liverpool, cujos jogadores entraram nas Antas empunhando ramos de flores, que colocaram atrás das balizas após o minuto de silêncio cumprido em memória das vítimas de Entre-os-Rios e Castelo de Paiva.