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Um FC Porto pleno de confiança, que estudou minuciosamente o adversário e sabia exactamente os parâmetros em que o jogo se iria desenrolar, teve a arte e o engenho para ganhar tranquilamente ao Lyon e dar assim um passo de gigante rumo às meias-finais da Liga dos Campeões. Suportado em actuação de grande personalidade e numa segurança de processos absolutamente espantosa, o FC Porto fez ao Lyon aquilo que nenhuma equipa francesa consegue há mais de dois anos: reduzi-la a uma expressão menor, vulgarizando-a a quase todos os níveis.
No fim, o 2-0 surge como espelho de hora e meia de superioridade total do campeão português, a quem bastou seguir o guião estipulado pelo seu treinador para obter um resultado que excede em grande medida as melhores expectativas anunciadas antes do embate.
Segurança
O FC Porto começou por valorizar a sua segurança colectiva. Para isso recorreu a todo o arsenal de argumentos tácticos - Deco solto num onze sem extremos, que alternou o 4x3x3 (com que atacou) e o 4x4x2 (com o qual defendeu em muitas ocasiões) - e agarrou-se aos mais sagrados fundamentos do seu projecto futebolístico - posse de bola, bom posicionamento e pressão alta, não apenas com o intuito de retardar a saída adversária mas para ganhar a bola o mais próximo possível da área adversária.
Enquanto isso, o Lyon encolheu-se no 4x3x3 que achou melhor para travar o adversário - dois avançados nas zonas laterais para evitar as subidas de Paulo Ferreira e Nuno Valente - e povoou a zona central do meio-campo em função daquilo que os portistas fizeram. Se à partida não revelava ambição, a verdade é que o trio de avançados (Govou, Élber e Luyindula) funcionava como arma de arremesso à defesa azul e branca, impulsionado por Juninho Pernambucano (uma desilusão total).
Paciência
O segundo alicerce da exibição portista foi a paciência. A equipa teve sempre a iniciativa mas nunca se desuniu; procurou progredir em busca de espaço mas não se sentiu inferiorizada pelo facto de ter de recuar e recomeçar tudo de novo. Porque o tempo ia passando e os resultados práticos do domínio tardavam, o dilema no estádio começou a sentir-se aos poucos. A equipa sabia que precisava de ser cautelosa e não podia correr riscos; a paciência, que precisava ser total no relvado, tem limites nas bancadas. E foi precisamente quando fazia sentido moderar o estado de espírito de uns e outros que o primeiro golpe surgiu. A dois minutos do intervalo, o FC Porto adiantou-se no marcador, enquadrando em moldes mais favoráveis a viagem até ao balneário. Se o golo não alterava os objectivos do dragão, era fatal que tivesse efeitos no adversário. Teve mesmo.
Elástico
Para o segundo tempo, Le Guen trocou Juninho Pernambucano por Dhorasoo. A equipa avançou no terreno e, por fim, reclamou a posse de bola. O jogo tornou-se mais aberto e comprido, relevando os perigos para um FC Porto menos habilitado a jogar aos repelões e que preferia ter a bola para atacar de modo organizado. Os solavancos dados pelos franceses, com acções explosivas de trás para a frente, executadas sobretudo pelas faixas laterais, configuravam o perigo anunciado pelo razoável número de jogadores com que chegava à grande área comandada por Vítor Baía.
José Mourinho, com os laterais manietados e um meio campo preocupado em demasia com o avanço das tropas adversárias, respondeu com a entrada de Jankauskas para o lugar de Carlos Alberto. Chegara o momento de aceitar novas regras e recorrer a um tipo de jogo mais directo - ou pelo menos estar mais bem apetrechado para o fazer. Porque o Lyon se limitou a causar perigo relativo e o FC Porto encontrou argumentos para sair em contra-ataque, o que parecia ser uma dificuldade acrescida acabou por transformar-se em simples capítulo de uma história cujo final ainda não estava definido. Chegara também a hora de recorrer aos lances de bola parada como forma de intimidação.
Autoridade
Nos últimos 20' do jogo, o FC Porto puxou dos galões e assumiu toda a autoridade: aquela que o passado europeu lhe conferia e aquele que resultava da superioridade revelada sobre o adversário. Num livre lateral nasceu o segundo golo - centro de Deco, cabeça de Ricardo Carvalho. Dobrava o passo de gigante azul e branco rumo às meias-finais da Liga dos Campeões. Mais do que estar vivo, o sonho europeu faz cada vez mais sentido. Mesmo admitindo que ainda falta hora e meia para o fim.
Árbitro
Terje Hauge (3). Actuação sem margem para reparos excessivos do árbitro norueguês, o que não significa grande qualidade. Terje Hauge revelou-se inseguro em algumas decisões e não teve critério uniforme durante todo o jogo. Em termos disciplinares, procurou tomar conta do jogo (o que conseguiu), embora nem sempre o tenha feito com firmeza. A classe não é muita.