MIRKO Jozic e Fernando Santos têm sábado, no Estádio de Alvalade, um desafio importante para as suas carreiras de treinadores. No 61º Sporting-FC Porto na história do campeonato nacional, os dois são personagens incontornáveis, com a capacidade para mudarem a qualquer altura o rumo dos acontecimentos. Só no início desta época assumiram o comando das respectivas equipas, mas chegam a este clássico com perspectivas bastante diferentes: Fernando Santos, nunca campeão nacional, com um passado de treinador em clubes mais modestos como o Estoril e o Estrela da Amadora, está a um passo da maior conquista da sua carreira; Mirko Jozic, com um passado recheado de êxitos em clubes de prestígio como o Colo Colo e o Hadjuk Split, a nada mais pode aspirar que não um terceiro lugar no campeonato, classificação que nada acrescenta de novo ao Sporting da última década.
Mas o croata não pode correr o risco de um mau resultado na noite de sábado. Não propriamente pela classificação final a que se arrisca -- um quarto lugar --, mas pelo saldo final nos tão apetecidos confrontos com os outros "grandes: esta época, os leões ainda não ganharam ao Benfica nem ao FC Porto (nem mesmo ao Boavista), e fazê-lo seria um bom ponto de partida para gerar algumas esperanças para a próxima época. Ao longo da sua carreira de treinador, iniciada em 1979 nas selecções jovens da Jugoslávia, Jozic habituou-se ao contacto com o sucesso, e poucas vezes chegou ao final de uma época com as mãos tão vazias como agora. O croata chegou a Alvalade com uma aura de construtor, de treinador experiente e capaz de preparar, metódica e pacientemente, uma equipa para ser campeã a médio prazo.
O seu trabalho com a jovem equipa de Alvalade tem deixado promessas: o Sporting é a equipa mais disciplinada do campeonato (73 amarelos, 4 vermelhos acumulados, 1 vermelho directo, média de 2,44 por jogo); é a equipa que mais cartões aplica aos adversários (113 amarelos, 11 vermelhos acumulados, 3 vermelhos directos); é a equipa que mais faltas sofre (785, média de 24,53 por jogo); é a equipa com mais cantos a favor (276, média de 8,63); é a equipa com menos cantos contra (81, média de 2,53); é a equipa mais rematadora (510, média de 15,9); é a equipa que menos remates permite aos adversários (201, média de 6,3)!
Isto é futebol, estes são os números de uma equipa bem estruturada, que está no relvado para construir. É evidente o bom trabalho do croata. Então, por que razão o Sporting não chega a este jogo a lutar pelo título? As estatísticas, mais uma vez, podem dar a resposta: o Sporting remata muito mas só tem 60 golos marcados, do que resulta um dos piores índices de aproveitamento do campeonato, atrás do FC Porto, do Benfica, do V. Guimarães, do Boavista, do Salgueiros, do Marítimo, do Farense e do Campomaiorense!
Fernando Santos, o engenheiro que esta época assumiu a liderança do FC Porto, tem uma equipa mais... engenhosa. Não tendo índices tão bons como os apontados ao Sporting, os dragões ganham naqueles que, afinal, parecem ser decisivos: é a equipa com mais golos marcados (82, média de 2,56), o que, aliado ao facto de ser a segunda equipa mais rematadora (486, média de 15,2), lhe dá o melhor índice de aproveitamento da prova, bastante acima de todos os outros concorrentes. Os dragões têm ainda a melhor defesa da prova (25 golos sofridos, uma média de 0,78 por jogo). Apetece destacar, de imediato, jogadores como Jardel e Vítor Baía, um que marca e outro que defende. Uma equipa, porém, não se faz com dois jogadores, e é nesse colectivo que permite um tão bom rendimento final nas áreas decisivas que reside o segredo deste FC Porto.
É esse engenho da equipa de Fernando Santos que hoje estará em jogo em Alvalade, frente à construtiva equipa de Mirko Jozic.
JOAQUIM SEMEANO