Três samurais de Tóquio'87 recriaram para Record a atmosfera que envolveu uma das maiores conquistas do FC Porto. Fernando Gomes, o capitão da equipa campeã do Mundo, Jaime Magalhães, que foi titular, e Frasco, convocado mas relegado para a bancada no dia 13 de Dezembro de 1987, na companhia de Jaime Pacheco. Os dois viram o jogo embrulhados em cobertores, tremendo de frio mas com os pés secos.
"O relvado estava gelado mas empapado. De imediato ficámos com as chuteiras cheias de água gelada", recorda o capitão de equipa, que marcou o primeiro golo, aos 42 minutos de jogo, colocando o FC Porto em vantagem. "O Madjer tentou fazer um chapéu, a bola parecia que ia entrar mas ficou presa no relvado e eu e o defesa que me marcava ainda ficámos na expectativa, mas consegui meter o pé e fiz o golo", completa a história de um lance histórico. "Acho que até te agarraste ao poste para rematar", acrescenta Frasco.
Pouco depois chegava o intervalo. "Estávamos com os pés completamente gelados e aquecemo-los com algodão e álcool", conta Jaime Magalhães em mais um pormenor desse grande dia quando Portugal pôs o relógio para despertar às quatro da manhã, devido à diferença horária.
A bola, recorda Magalhães, "era avermelhada, porque se fosse branca iria desaparecer num instante". Mais se informa: era uma bola "Molten Tangol". Empurrada por Madjer e talvez por uma rajada de vento aos 109 minutos do prolongamento, depois de sobrevoar o guarda-redes Pereira, desfazendo o empate que Viera conseguiu aos 80', e tornando o FC Porto a primeira equipa portuguesa a ganhar a Taça Intercontinental.
Tomislav Ivic, o treinador portista, analisou as condições do relvado e não foi de muitas palavras. "Não era para jogar como de costume, no seu 'tap-tap-tap', mas sim com 'pala longa', bolas compridas", recupera Jaime Magalhães a palestra do "mister" que Frasco não ouviu ("como jogou o Rui Barros, ele foi para a bancada, não podíamos jogar com dois pequeninos...", junta logo o Jaime que jogou, danado para a brincadeira).
"Foi o jogo mais difícil da minha carreira, sobre um relvado impróprio, que nos consumiu todas as energias. E ainda teve prolongamento...", recorda Gomes, que partiu para Tóquio "com uma confiança tremenda". No dia em que o FC Porto venceu a Taça dos Campeões Europeus, o maior goleador da história portista, que viu o jogo em casa, a recuperar de uma fractura da tíbia e do perónio, disse a si mesmo que estaria em Tóquio para levantar a Taça Intercontinental. Estava longe era de imaginar que tal iria acontecer sobre um tapete nevado. Mas os sonhos, sobretudo os bons, são mesmo assim...
Breves do Oriente
FORAM MIL CONTOS DE PRÉMIO. Os jogadores portistas que foram campeões do mundo tiveram direito a um prémio de mil contos (cinco mil euros). A Taça dos Campeões, conquistada nesse mesmo ano, rendeu mais 500 contos. Era dinheiro...
O TOYOTA KARINA DE... MADJER. A Toyota, que ainda hoje organiza o evento, tinha reservado para o melhor jogador da final de 87 um dos seus modelos então mais populares: um Karina Jun. Rabah Madjer foi o MVP e ganhou o direito às chaves. Os jogadores tinham antecipadamente combinado que o carro seria vendido e o prémio distribuído por todos. "O carro deve estar no museu do clube...", é tudo o que conseguimos saber, pela boca de Magalhães, sobre o assunto.
A NEVE A MENOS 67º. A caminho de Tóquio, os campeões do mundo fizeram um estágio de neve, pois o avião das linhas aéreas japonesas que os transportou fez escala em Amesterdão e a seguir em Anchorage, no Alasca. "Acho que estavam 67 graus negativos mas não saímos do aeroporto...", recorda Magalhães. A dois dias do jogo, o céu estava nublado e a "temperatura fresca". No dia anterior, um vento glaciar fez-se sentir. Na "hora H", quando os jogadores acordaram, às nove horas locais, Tóquio estava coberta de neve. "Foram os espíritos extra que a trouxeram...", não se contém o Jaime que jogou.
BIGODAÇAS DO URUGUAI. Em 87, FC Porto e Peñarol partilharam o hotel. Os uruguaios chegaram primeiro a Tóquio. Ao almoço e ao jantar, as duas equipas ficavam separadas apenas por um conjunto de vasos com plantas. "Eles mostravam caras de maus, com aqueles bigodes...", conta Frasco. Não há notícias de contactos imediatos de 3º grau. "Só no campo é que o Fernando Gomes trocou galhardetes", brinca Magalhães. "Eles estavam com excesso de confiança, como o Bayern na final da Taça dos Campeões", junta.
Sabres... chineses
Os sabres, explica-se já, não vieram do Japão, não serviram para cortar a fatia mais deliciosa do bolo da Taça Intercontinental de 87 e não consta que algum dia tenham pertencido a um samurai. Nunca se deve mostrar o que está atrás do palco mas vamos quebrar a regra: as três espadas foram compradas numa "loja de chineses", a 30 metros do restaurante onde decorreu a conversa com Gomes, Frasco e Jaime Magalhães. O "making-off" foi montado pelo Luís Vieira, à entrada do Boa Ideia, e até deu para Gomes se assustar com um golpe de Magalhães. São espadas de brincar, só custaram 25 euros, mas nunca fiando (como nas lojas de artigos orientais).