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É um FC Porto senhor do seu nariz, que assume ambições claras e revela coragem para enfrentar o ambiente hostil, aquele que vai hoje subir ao relvado de Old Trafford.
O campeão nacional traz na bagagem a vantagem de um golo e o ascendente moral de quem leva hora e meia de supremacia indiscutível sobre o colosso inglês; diante dos olhos tem a imponência de um estádio cheio e a força de um adversário temível.
Face ao resultado escasso e tendo em conta que o Manchester United marca habitualmente em casa, o raciocínio de José Mourinho foi claro: elaborou um plano, escolheu uma equipa e definiu uma estratégia a pensar na imperiosa necessidade de fazer, pelo menos, um golo.
Ferguson
Enquanto se agarra ao que diz ser a teatralização habitual dos jogadores portugueses, Ferguson revela incapacidade total para tirar as ilações devidas sobre o que sucedeu à sua equipa no Porto - Sir Alex, pelos vistos, ainda não percebeu que o futebol português já não é aquele ao qual faltavam 30 metros e se contentava com vitórias morais.
O ridículo não é achar que os jogadores portugueses fazem batota - fazem eles e outros também, como o insuspeito Van Nistelrooy, por exemplo, no jogo com o Arsenal. Ridículo do ponto de vista da análise é usar o jogo do Dragão para o dizer uma, duas, vinte vezes em quinze dias. José Mourinho respondeu exemplarmente, salientando que conhece a táctica e compreende as motivações; alertou apenas para um ponto fulcral: o pior numa guerra psicológica é pensar que os outros são estúpidos.
Surpresa
Quando perguntaram a Alex Ferguson se achava que o FC Porto viria a Old Trafford jogar ao ataque, o escocês agiu como se nunca tivesse pensado no assunto: olhou para o tecto fixamente, corou e demorou a responder, fazendo-o sem convicção - "É possível."
A par do golo de vantagem que traz da primeira mão, essa continua a ser a maior arma do FC Porto: conhece perfeitamente um adversário que o avalia com preconceito. José Mourinho foi muito claro no que disse e hábil no que pretendeu sugerir. Matou a sobranceria inglesa ao divulgar com mais de 24 horas de antecedência a equipa que vai utilizar.
Um golo
O efeito de um onze sem medo, que entre para ter a bola, jogar e agir como quem está com pressa de chegar ao golo não está certamente nos planos de Alex Ferguson, ainda que pareça uma possibilidade a ter em conta. Lembram-se do que fez o FC Porto em Atenas, frente ao Panathinaikos, a época passada, depois de ter perdido nas Antas? Não se admirem que a estratégia se repita.
Mesmo partindo de uma situação mais favorável (vitória por 2-1) os campeões nacionais sabem que dificilmente conseguirão o apuramento se não marcarem pelo menos um golo.
Golos fora não valem no prolongamento
Surpresa: a UEFA manteve o "golo de prata" que, num prolongamento, pode decidir um jogo e evitar, por exemplo, que se jogue a segunda parte de tempo extra. Mas diz agora que a regra dos golos fora, para decidir eliminatórias empatadas no somatório das duas mãos, já não vale.
Com números é assim: se o Manchester United chegar a 2-1 há prolongamento. Se uma equipa marcar ganha a eliminatória; mas se cada equipa marcar um golo (fixando o marcador em 3-2), deixando o total em 5-5 com o 2-1 da 1ª mão em favor do FC Porto, os golos fora que dantes dariam a qualificação já não contam. Vai-se sempre a desempate por grandes penalidades.
O 3-2 (4-3, 5-4, etc.) se for nos 90 minutos, apura o FC Porto pelos tais dois golos fora contra um dos ingleses no Dragão. Ou seja, faz-se ao contrário de um célebre Sporting-Rangers quando a regra dos golos fora passou a valer e o árbitro não sabia: após 3-2 dos escoceses em casa, o 4-3 de Alvalade apurava-os. Mas o árbitro mandou marcar os "penalties", Damas foi um herói até alguém dizer que não valiam e o Rangers seguiu em frente.