Apresentando um onze formado maioritariamente por jogadores que costumam representar a equipa B, o Sporting conseguiu uma surpreendente vitória em Guimarães, desforrando-se assim da pesada derrota sofrida no jogo do campeonato e que esteve na base do clima de grande tensão entre presidente e treinador, que marca a atualidade do clube de Alvalade. E o triunfo ontem alcançado, contra a maioria das expectativas, teve o dedo de Marco Silva, que soube utilizar com mestria as poucas armas de que dispunha.
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Sendo a Taça da Liga uma competição assumidamente desprezada, devido aos episódios jurídico-administrativos da época transata, o Sporting utilizou uma equipa de recurso e que, exatamente por estar privada dos seus melhores jogadores, soube ser humildade, sofrer, e, acima de tudo, conceder astutamente ao adversário o papel de favorito à vitória. O técnico leonino, hoje em dia bem mais popular na bancada do que no gabinete da presidência, montou a estratégia adequada e teve a sorte de o quarteto defensivo que pôde escolher lhe ter resolvido todos os problemas nos períodos de maior aperto.
Tobias
O 2-0 alcançado ontem no sempre difícil D. Afonso Henriques foi obra de um coletivo forte, que embora totalmente diferente daquele que conseguiu a vitória na Choupana, parece ter-se unido também em redor de Marco Silva. Não houve, talvez por esse motivo, nenhum desempenho individual digno dos mais rasgados elogios, à exceção, claro está, de Tobias Figueiredo, que mostrou ter condições para formar com PauloOliveira a dupla de centrais da formação principal.
Um golo madrugador, apontado por Heldon, logo aos 5 minutos, teve, por outro lado, o condão de facilitar em grande medida a consumação dos objetivos leoninos. Numa fase em que a partida permanecia ainda incaracterística, uma boa jogada de combinação entre Esgaio e Podence possibilitou a desmarcação do cabo-verdiano, que atirou a contar.
A partir daí, e praticamente até final, o encontro teve sentido único. O Sporting foi recuando cada vez mais os blocos, chegando mesmo a apresentar-se com todos os jogadores atrás da linha da bola, inclusive o ponta-de-lança Tanaka, enquanto o V. Guimarães, pese embora revelando grande facilidade em chegar com a bola dominada até ao último terço do terreno, não revelava qualquer sentido prático.
Sem Bernard
Tanto assim foi que, apesar das consecutivas incursões de Hernâni pelo flanco direito, o V. Guimarães só dispôs de uma clara oportunidade de golo até ao intervalo, após uma jogada em que intervieram Gui e André André. Os vimaranenses encontram-se, aliás, numa fase menos feliz da temporada. A intensidade não é a mesma, tal como a capacidade de pressão sobre o adversário (fundamentais para o 3-0 sobre o Sporting na partida para a Liga) e não foi por acaso que a primeira falta cometida surgiu à passagem da meia hora. Por outro lado, Hernâni esteve complicativo na hora de decidir o jogo, André André pareceu cansado e Bernard, outras das peças fundamentais da equipa de Rui Vitória, pura e simplesmente não existiu.
No reatamento, o treinador vimaranense tirou Bernard, colocou Alex, a equipa ficou mais incisiva no ataque e conseguiu “acampar” durante um longo período nas imediações da área do Sporting. Josué falhou um golo de baliza aberta, Ricardo Gomes, num pontapé acrobático, atirou ao lado, e André André, de cabeça, errou por um triz o alvo. Foi o canto do cisne. Depois de Tanaka ter ameaçado na cobrança de um livre, o Sporting, aproveitando os desequilíbrios no último reduto vimaranense, fez o 2-0, num remate inspirado de Dramé.
O homem do jogo: Hernâni
Assumiu o papel de desequilibrador, mas, no longo período em que o V. Guimarães dominou, perdeu-se em jogadas individuais, não ajudando a que essa superioridade se materializasse. Não foi o melhor em campo, mas foi o principal protagonista.
Árbitro: Manuel Oliveira (nota 4)
Dois foras-de-jogo mal tirados não chegam para manchar uma atuação de bom nível no capítulo técnico e disciplinar, num dia, aliás, particularmente difícil para Manuel Oliveira.
NOTA TÉCNICA
Rui Vitória (3)
O facto de o adversário estar aparentemente enfraquecido fê-lo arriscar, por exemplo, em Gui e Ricardo Gomes, no ataque. Depois disso, mexeu bem na equipa, mas os seus jogadores não revelaram o sentido prático que se exigia.
Marco Silva (5)
A estratégia adotada esteve na base da vitória. Percebeu, pelas unidades que tinha à disposição, que o Sporting não podia jogar como uma equipa grande e deixou, astutamente, o adversário assumir o seu teórico favoritismo.