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Varandas e a capacidade de liderança: «Cada vez mais me parece que infelizmente um líder procura popularidade»

Frederico Varandas em painel com mais dois oradores
• Foto: Sporting CP

Frederico Varandas, presidente do Sporting, marcou presença este sábado no 'Game Changers', fórum sobre liderança e outro temas que teve lugar na Meo Arena, em Lisboa, e, entre outros, teve Barack Obama (antigo presidente dos Estados Unidos) como um dos oradores. Num painel denominado 'Is Leadership a Game Changer? What Does It Take to Lead Change?', o líder do clube de Alvalade lembrou o seu passado tanto no exército como na chegada à presidência dos leões em 2018, referindo o que é necessário para uma boa gestão. 

"Falando no meu caso pessoal, o de quem dirige um clube da dimensão do Sporting, acho que nenhum setor tem comparação. Normalmente, uma empresa tem clientes e consumidores, mas nós temos de gerir emoções. E gerir emoções é gerir irracionalidade, o que é muito difícil, se não impossível. Mesmo fazendo as coisas bem, não se ganha sempre. E não é por não vencer sempre que tem de se mudar. Isto é extremamente difícil num cargo onde estamos expostos a uma pressão semanal, sempre que há um jogo em que podemos ganhar, empatar ou perder, temos de nos manter fiéis ao rumo em que acreditamos. Cada vez mais me parece que, infelizmente, um líder procura popularidade. Se calhar esse é um dos nossos segredos no Sporting: nunca procurámos popularidade, procurámos fazer o que o clube exigia. Na verdade, para se ter sucesso, tivemos de tomar decisões para lá do nosso mandato. É preciso ter a coragem de fazer aquilo que é melhor para o clube neste momento, e isso vai muito além dos próximos quatro anos", admitiu, puxando a fita atrás no tempo.

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"A primeira vez que reunimos depois de eleitos [em 2018], todos os meus colegas de conselho diretivo estavam muito felizes, orgulhosos, mas estraguei aquele ambiente de festa logo aos três minutos. Disse-lhes: "Meus senhores, não sei se vamos durar seis meses ou seis anos, porque vamos fazer o que tem de ser feito". E acho que isso é que é diferenciador e, muitas vezes, incompatível com a busca pela popularidade", apontou.

De resto, na sua experiência, num painel em que participou ainda com Filipe de Botton, líder da Logoplaste, Varandas reiterou como a formação militar ajudou na capacidade de ganhar capacidade de liderança. "Mais do que os resultados, as pessoas seguem valores. O que tiro da minha formação militar – ainda sou capitão do exército com muito orgulho - e da experiência da missão no Afeganistão, com os comandos, é a capacidade de conhecer os meus limites. Somos testados em condições altamente desfavoráveis, tendo de continuar a trabalhar, a decidir sob pressão, muitas vezes nesse limite. Aprendi também, e lembro-me muitas vezes de um episódio, da capacidade de incutir tranquilidade e confiança a quem lideramos. Num dos momentos mais difíceis na missão em Kandahar, fui fazer uma patrulha em Helmand, uma zona totalmente dominada pelos talibãs. Estou a preparar o meu material quando entra o tenente que nos ia comandar naquele dia. E, muito à pressa, entrega-me uma carta. 'Se correr mal, entregas isto à minha namorada'. Eu disse-lhe que também ia na missão. Ele fecha a porta e vomita de nervos. E eu penso: 'Oh, Diabo'. Aprendi que nós, líderes, temos de tomar decisões difíceis. Quando premimos o gatilho, temos medo? Temos. Mas temos, sobretudo, de não transmitir esse medo aos nossos colaboradores, aos nossos soldados", assumiu o líder do clube leonino.

Não só, o presidente dos verdes e brancos contou alguns episódios que viveu nos tempos do exército. "Tenho muitas memórias, demasiadas. Estive sempre vivo, mas vi a morte. A vida muda quando temos 28 anos, estamos a sofrer uma emboscada no Afeganistão, estamos encurralados e nos dizem que demorará oito minutos a chegar apoio aéreo. E tu percebes quanto tempo demora um minuto, dois minutos... ao quarto minuto, começámos a ter feridos. Tiro uma perna, tiro um braço. Conseguíamos vê-los cada vez mais próximos e lembro-me perfeitamente de pensar: 'Tenho 28 anos e vou ficar aqui'. Mas fiz o que tinha de fazer. É uma zona muito fértil em papoila de ópio e ainda hoje aquela companhia de comandos brinca comigo, porque acha que eu estava sob efeito de estupefacientes devido à minha calma. Não estava [risos]. Simplesmente pensei: 'Vou fazer a minha parte e depois logo se vê'", confessou.

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Além disso, traçou um termo de comparação no momento em que foi questionado se alguém nasce ou cultiva a capacidade de liderança. "Sou pouco romântico nesta questão. Ouço muito aquele slogan que defende que uma pessoa pode ser o que quiser, tem apenas de acreditar. Não acredito nisso. Eu adoro música. Tinha 13 anos quando fui para uma escola aprender a tocar guitarra. Passado um mês, os meus colegas já sabiam os acordes todos, mas eu não nasci com talento para música. Adoro jogar basquetebol, mas, com 1,80 metros, nunca vou poder ser jogador de alta competição. Falando como médico, e com conhecimento do nosso mapa cromossomático, hoje em dia sabemos do quê, e como, vamos morrer. Podemos, com o nosso estilo de vida, ganhar ou perder 15 anos, mas não vai fugir muito disso. A liderança penso-a exactamente da mesma maneira: temos de ter características inatas para ser um líder com competências e resultados. Todos melhoramos, sim, com treino, mas um verdadeiro líder, que aguenta momentos difíceis... isso nasce connosco", explicou.

Por Filipe Balreira
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