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"É UM caso de polícia", afirmou, em meados de Novembro do ano passado, o presidente do V. Guimarães, justificando abruptamente e em modos tão severos quanto surpreendentes, o alegado desaparecimento de N'Dinga, ex-jogador do clube e mais recentemente responsável pela prospecção de talentos no mercado africano. Volvido mais de meio ano, pode constatar-se que Pimenta Machado sabia perfeitamente daquilo que estava falar, mas talvez não estivesse ele a contar com os ataques desferidos por N'Dinga, inospitamente interessado em "limpar a sua imagem", como vincou a Record, no pretérito dia 22, numa longa entrevista.
Em Guimarães, o caso que Pimenta Machado ameaçou entregar à Interpol está indubitavelmente a ganhar contornos e efeitos inesperados, isto quando se sabe que para a próxima sexta-feira está marcada a realização de uma reunião magna de associados que se prevê explosiva. Para além do mais, o mandato da actual Direcção termina no final do ano e Pimenta Machado já foi avisado que poderá ter uma oposição forte para o combater na presidência do clube.
N'Dinga representou o V. Guimarães durante dez temporadas consecutivas, é uma figura querida e estimada em Guimarães e as suas revelações caíram que nem uma bomba. "Não roubei um escudo ao V. Guimarães e o seu presidente não é um ser superior. Só tenho medo de Deus. A minha verdade de hoje, será verdade amanhã. O presidente do V. Guimarães não tem coração, deve-me dinheiro porque o meu contrato não foi cumprido", acusou o ex-olheiro.
HISTÓRIA MISTERIOSA
Para melhor situar todo o processo, importa precisar os passos de uma história misteriosa e que ameaça revelar-se numa espécie de "bola de neve". N'Dinga regressou da Zâmbia em Novembro último, onde se deslocara para, alegadamente, contratar um jogador que integraria o plantel profissional do V. Guimarães. Partiu mas demorou a regressar, ao ponto de Pimenta Machado perder a paciência e o acusar de ter "roubado" o clube. Queixava-se o presidente de nem ver o dinheiro nem o jogador. Para N'Dinga o jogador em questão é N'Kangwea, internacional do Zannaco, mas para Pimenta Machado trata-se de Omar Banza. Identidades à parte, diz-se que o negócio ruiu porque os africanos exigiram cerca de 23 mil contos para a transferência do avançado, verba que Pimenta Machado não terá aceite.
Mas por causa desta viagem nasce o rebentamento da polémica, entretanto desencadeada por N'Dinga, que nos últimos meses tentou, mas em vão, falar com Pimenta Machado. Porque não concretizou os seus intentos dispôs-se a abrir o livro. Na entrevista, o ex-jogador diz que, para além de trabalhar para o clube, tinha como missão desenvolver algumas funções para uma sociedade, da qual levara 30 mil dólares, em dois cheques de uma conta pessoal de Pimenta Machado e posteriormente sacados em Lusaka. Uma empresa que até ontem ninguém sabia, excepto N'Dinga, a quem realmente pertencia e com que fins opera. Um dos sócios, precisa agora o ex-olheiro, é Pimenta Machado. Os restantes dois ainda ninguém revelou a sua identidade, mas só poderão ser pessoas da extrema confiança de Pimenta Machado.
No interior do clube são poucos aqueles que estão surpreendidos com as últimas histórias, nomeadamente, no que se refere à sociedade, potencialmente, registada num paraíso fiscal e muito provavelmente sob o domínio britânico. A grande maioria dos dirigentes são conhecedores da sua existência e, inclusivamente, sabem a que actividade se dedica. Todavia, ninguém tem coragem de a denunciar, ainda que esse segredo possa estar a lesar alguém. Depreende-se sem recurso a grandes exercícios que está em causa um triângulo de interesses demasiado pantanoso, mas susceptível de merecer particular atenção no período da ordem do dia da assembleia geral de sexta-feira à noite.
Resta aferir se o anúncio de quatro ou cinco reforços de vulto para a próxima temporada chegam para ofuscar a contestação generalizada que prolifera na massa associativa do V. Guimarães.
PRESIDENTE E EX-JOGADOR EM TROCA DE ACUSAÇÕES
Pimenta Machado mudou de ideias e numa semana de particular importância para a sua imagem e gestão abriu a boca. Uma surpreendente inflexão em função de uma estratégia que tende a minorar as reacções previstas para a noite de sexta-feira. Para o efeito, o dirigente vitoriano socorreu-se do “Sport”, um semanário local, recusando responder nas páginas de Record, conforme convite que lhe foi dirigido no dia em que a entrevista foi publicada. Mas N'Dinga não gostou do que leu e já respondeu às declarações do presidente do V. Guimarães.
Por partes. Durante aquilo que se pode considerar uma explanação dos seus, e apenas seus, factos, é curioso constatar que o presidente do V. Guimarães não abordou por uma única vez sequer o tema que envolve a misteriosa sociedade de que falava o ex-jogador, N'Dinga, entretanto disposto a desvendar parte do mistério. "A sociedade de que falei na entrevista chama-se Vitory Management Limited e um dos três sócios é o presidente do V. Guimarães. Foi ele quem me deu o dinheiro da sua conta pessoal, do Banco Comercial Português, para tratar de umas coisas", disse.
"Passados treze anos, o senhor N'Dinga descobriu que não tínhamos coração e que não éramos humanos", interroga-se, Pimenta Machado, chamando "ingrato" ao congolês, aproveitando para lembrar um episódio antigo: "Tirei-o uma vez da prisão, devido a problemas particulares, e para isso tive de falar com um juiz num fim-de-semana. Tirei-o daquela vez da prisão, mas penso que desta vez ele vai ter grandes problemas para se safar dela."
N'Dinga não gostou que um assunto relacionado com a sua vida privada fosse publicitado: "O presidente do V. Guimarães não tem nada que estar a falar da minha vida particular, porque ele também pode ir dentro", respondeu, ao jeito de uma séria ameaça.
As revelações de N'Dinga, de acordo com Pimenta Machado, vão agora ser totalmente esclarecidas no Tribunal: "Desta vez é irreversível. No que eu mais uma vez errei foi em não seguir aquilo que ia fazer e ouvir outras pessoas. O senhor Pedro Xavier e o doutor José Cotter, por quem tenho grande consideração, influenciaram-me no sentido de eu não meter a acção no Tribunal". O congolês reagiu com naturalidade e uma indirecta: "A minha verdade de segunda-feira, será verdade hoje. Vou contar a verdade, até posso ser preso."
Para tentar sossegar os associados, dado que adiou a assembleia geral para lhes comunicar em primeira mão os reforços, Pimenta Machado, que deverá partir ainda terça-feira para o Brasil, apenas disse que apresentará "quatro novos nomes". "Nunca enganei ninguém, tenho as minhas opções gestionárias. Os sócios sempre sufragaram essas minhas ideias, as minhas opções e é com essas opções que eu continuarei até ao fim do meu mandato".
MARCO AURÉLIO