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Dos intervalos do "pontapé no balde" ao talento das "Kikas Nazareth e Andreias Jacinto": Francisco Neto abre o livro

• Foto: Luís Vieira/Movephoto/Arquivo

Francisco Neto, selecionador nacional feminino, marcou presença esta segunda-feira na 2.ª Conferência Bola Branca, sobre "Talento, Ética e Igualdade no Desporto", promovida pela Rádio Renascença e pelo IPDJ e não deixou de abordar a participação de Portugal no Mundial da Nova Zelândia.

Viagem para a Nova Zelândia: "Ninguém tem de treinar no avião porque não temos espaço, mas vão ter de fazer algumas coisas porque é uma viagem, no mínimo de 25 horas dentro de um avião. A nossa unidade de saúde e performance irá trabalhar nisso".

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Mau tempo antes do playoff: "Ficámos três dias fechados no hotel no jogo mais importante das nossas vidas".

Igualdade: "Acima de tudo é com muita naturalidade. Desde muito cedo que trabalhei com equipas feminas, o que permitiu conhecer o meio. Tive a felicidade de termos uma estrutura e termos ótimas condições. Dentro da FPF temos essa igualdade. Usamos as mesmas instalações, relvados e até membros do staff. A minha forma de estar é muito normal. A grande diferença é o acesso ao balneário. Normalmente bato à porta antes de entrar. Ao intervalo, quando tenho de mandar um pontapé no balde, bato à porta e elas dizem que não posso entrar. Isso permite-me contar até 10 e acalmar-me um pouco. Acho que às vezes fazem de propósito. O que eu sinto é que em toda a estrutura temos pelo menos uma treinadora no staff, seja a liderar ou no staff. O que procuramos é a competência, não olhamos ao que é o género. Culturalmente, é mais difícil para uma mulher ter acesso a esta profissão. Infelizmente, tem de provar muito mais, mas para quem está no meio, as coisas são muito naturais. Felizmente, no mundo, há grandes exemplos de sucesso. O mundo está a mudar também no acesso ao treino. Quem tem qualidade é sempre bem-vindo".

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Profissionalismo do futebol feminino: "É algo que temos vindo a crescer em Portugal. Há 9 anos, a ideia de ser profissional no futebol era apenas no estrangeiro. Em Portugal já temos essa possibilidade. Este nosso apuramento para o Mundial está a servir muito para isso. Este apuramento é um tributo às gerações que tinham muita qualidade, mas não tiveram as mesmas condições. Esta geração está a semear as referências para as gerações futuras. Neste momento estamos a conseguir criar o futuro das próximas gerações, que podem dizer: 'eu quero ser como elas e quero estar no lugar delas'. As gerações futuras podem querer ter pessoas à espera no aeroporto. Percebemos que não é só injetar dinheiro e tudo passa. As condições de profissionalismo vão muito além do contrato. O crescimento está a ser pensado. Não sei em quantos anos será, mas vai acontecer. Financeiramente, o que envolve o masculino e feminino, é diferenciado. Criar condições também para o pós-carreira.

Programas de desenvolvimento do futebol feminino: "Há vários programas pensados. O acompanhamento da jogadora na escola. Nos estágios trazemos um professor para estar junto das jogadoras. No espaço de seleção A, durante o Mundial, nos tempos livres, vamos fornecer cursos de team manager, diretora desportiva e treinador. É uma preocupação extra futebol. Já tive jogadoras a chegarem mais tarde aos estágios porque tinham um exame".

Abusos sexuais, conversas com jogadoras: "Infelizmente tem sido anunciado mais no futebol feminino, mas também me parece que há no masculino embora haja mais vergonha de ser anunciado. A FPF tem uma plataforma para denúncia e nós incentivamos as jogadoras a não guardarem para elas quando não se sentem confortáveis com alguma situação. Ninguém tem rendimento se o ambiente onde estiver não for feliz e de segurança".

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Futebol Feminino é um exemplo? "Andamos sempre muito na procura da comparação entre o masculino e feminino. Eu acho que não temos de nos preocupar em dar lições. Temos a nossa cultura e a forma de jogar o jogo, que não é melhor nem pior, é diferente. Felizmente, há uma afirmação muito forte em alguns aspetos, mas não fazemos disso uma obrigação para que os outros sigam".

Passos para crescer o futebol feminino: "Temos as duas vertentes. Na quantidade, precisamos de mais jogadoras e, naturalmente, que mais jogadoras vão aumentar a qualidade. Depois há o que nós controlamos, como os quadros competitivos. O talento tem de estar bem enquadrado, senão deixa de ser talento ou não chega ao potencial que queríamos".

Cultura de futebol feminino: "Queremos que as meninas experimentem a modalidade o mais cedo possível. Depois, se sentirem a paixão que continuem, se não que pratiquem outra modalidade. Cá em Portugal ainda está muito enraizado que as meninas só jogam futebol se quiserem, ninguém oferece uma bola a uma menina assim que nasce".

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Chegar à Seleção A: "Antes era muito fácil uma jogadora sub-19 entrar na equipa A. Depois do Euro, o nível subiu e agora é muito mais difícil, por isso também criámos a seleção sub-23. Tenho muita interferência nas duas convocatórias, por isso consigo perceber se estão preparadas para chegar à equipa A. Felizmente temos ótimos exemplos de jogadoras que têm tido este trajeto. Também temos as Kikas Nazareth e as Andreias Jacinto que saltam patamares porque o talento é muito".

Objetivo Mundial: "Com alguma hesitação... Neste último mandato, um dos compromissos do presidente era a presença no Mundial 2023. Era uma grande preocupação minha não o cumprir porque não fomos competentes. Felizmente a FIFA alterou o número de vagas - passou para 32 equipas - e tivemos a oportunidade de lá estar. Isso abriu-nos as portas. Depois de estarmos nesta competição e em que vamos representar o país, não há outro pensamento que não passar a fase de grupos. E uma montanha muito grande para escalar, mas também o era antes de irmos Mundial e também o era em 2015 quando conseguimos ir ao Europeu. Vou dormir muito tranquilo porque enquanto houver uma oportunidade, aquelas jogadoras vão trabalhar muito. Quem nos quiser ganhar, tem de trabalhar muito. Com este espírito estamos mais perto dos objetivos. O objetivo é ir até à Austrália porque é lá que vão ser disputados os oitavos-de final".

Por André Zeferino
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