Record - Foi uma grande desilusão perder a Taça da Alemanha?
Dominguez - No fundo, já sabíamos que iria ser muito difícil. Eles são os melhores! Ainda por cima, começando o jogo como começou, com dois golos nos primeiros dez minutos - penso, no entanto, que o "penalty" [segundo golo do Bayern) não é "penalty". Por outro lado, sabíamos que mesmo antes de jogar a Taça já tínhamos a Taça UEFA garantida e isso é que, para nós, era importantíssimo.
- Com o resultado em 2-0, teve oportunidade de reduzir num golpe de cabeça.
- Seria a primeira vez na minha carreira que marcaria um golo de cabeça... Mas fui ofuscado pelos holofotes. Acabou por sair ao lado do poste.
- O que faltou ao Kaiserslautern?
- Tivemos dificuldade na transposição defesa-ataque. Nós, os atacantes, fomos obrigados a jogar sempre de costas para os defesas.
- Mas a claque não se cansou de apoiar.
- Aqui, como em Inglaterra, eles dizem "o que acontecer, aconteceu". Isto é, numa final da Taça o que interessa é que as pessoas se divirtam, independentemente do resultado.
- O Kaiserslautern teve uma época irregular e mudou de treinador logo à terceira jornada. Porquê?
- O Andreas Brehme foi uma decepção. Ele é que me foi buscar ao Tottenham. Mas tive uma lesão e fui ao médico do Bayern tratar-me. A partir daí passaram a discriminar-me, deixaram de me dizer "bom dia" e passei um mau bocado. Com o Djorkaeff passou-se o mesmo. Treinávamos sozinhos. E outros colegas estrangeiros passaram por situação idêntica. Não sei, talvez ele fosse um pouco racista.
- Veio depois o Gerets.
- Sim. Mas continuámos a não ganhar até ao momento em que ele decidiu apostar num sistema ofensivo, com três atacantes. E colocou-me a extremo-esquerdo.
- Gerets deve pedir para que cruze muitas vezes para beneficiar da altura de Lokvenc e Klose, não?
- Pede. E com este sistema fiz muitas assistências e marquei três golos.
- Agora o ambiente é bom?
- Óptimo. Tenho uma relação especial com o Ratinho e com o Lincoln por uma questão de idioma. Mas dou-me bem com todos.
- E viver na Alemanha é fácil?
- Começa a ser. Eu sou de Lisboa, uma cidade enorme, vivi em Londres, ainda maior, e agora vim para o que eu chamo "uma aldeia". Kaiserslautern tem 60 mil habitantes e eu ainda por cima vivo num local nos arredores só com dois mil habitantes. Mas é bom porque conhecemos toda a gente, o que facilita a integração. O Inverno, com muita neve e com temperaturas de 18 graus negativos, é difícil mas supera-se. A minha mulher também está adaptada. Outro problema é que praticamente só comunico em inglês.
- A revista "Kicker" elege-o como o "vencedor do ano" na equipa do Kaiserslautern. Isso ajuda?
- Claro. Esta foi a época mais regular que eu fiz na minha carreira. Foi a minha melhor época.
«Não excluo nenhum grande»
- O seu estilo de jogo é prejudicial ou vantajoso num futebol físico como o alemão?
- O meu estilo de jogo, em drible, às vezes prejudica neste tipo de futebol mas também pode ajudar. Os treinadores é que têm de saber retirar o melhor das características dos jogadores. Agora, por exemplo, estou com um treinador que me sabe valorizar. A verdade é que evoluí, conheci outro tipo de treino e mentalidade desde que saí de Portugal.
- Ser baixo é bom ou mau para um futebolista?
- Bom. Sou perco no jogo de cabeça e, às vezes, no corpo a corpo. De resto, tenho o centro de gravidade pequeno, arranco mais depressa, travo mais depressa. Eu prefiro defrontar defesas altos. O Lizarazu, baixinho, é que é um problema.
- Em Alvalade ficou com fama de "brinca na areia".
- Eu era um menino na altura. Era a primeira vez que jogava na primeira divisão e foi nessa altura que cheguei à selecção A. Acabei por fazer duas épocas regulares mas o "mister" Octávio acabou por não me querer.
- Gostava de voltar a Portugal? Prefere o Sporting?
- Um profissional pensa sobretudo nos três grandes. Com o Sporting tenho uma relação forte, tenho lá muitos amigos como o Sá [Pinto], o Beto ou o Barbosa.
- E os outros grandes?
- Um profissional não deve excluir nenhuma hipótese. Por exemplo, para mim este ano foi um prazer enorme ver o FC Porto a jogar à bola. O treinador e a equipa fizeram um trabalho excelente. Aqui na Alemanha comentou-se e, como português, senti imenso orgulho.
- E o Benfica?
- Foi lá que comecei. Nunca escondi a ninguém que era benfiquista em miúdo, a minha família é toda do Benfica. Mas hoje em dia sigo com mais interesse a carreira do Sporting. Não posso negar.
«Gostava que Scolari me visse»
- Com uma participação regular no Kaiserslautern, a selecção está a caminho?
- É o sonho de qualquer um. Ainda para mais, para um jogador que já lá passou. Mas sei que Portugal tem muitos valores e que o sr. Scolari, que está a fazer um trabalho espectacular, está a dar oportunidades, antes impensáveis, a novos valores. É um incentivo.
- Fica à espera de ser observado por Scolari?
- Gostava de ser observado por ele, obviamente. Mas eu sei que ele está atento.
- O Euro-2004 é o seu principal objectivo?
- Bom, dizer que quero jogar no Euro-2004 é o mesmo que um cego dizer que quer ver...
Sá Pinto, Dani e boatos
- A sua relação com Sá Pinto e Dani acabou envolvida em polémica. Porquê?
- Às vezes os falatórios não têm razão de ser: numa ocasião, eu e eles fomos convidados pela Abraço a participar numa iniciativa em que desfilávamos numa "passerelle" com as bolas em palco. Passados dois meses, recebemos o FC Porto, a dois pontos deles, e perdemos o jogo por 2-0. A partir daí começou-se a dizer que aqueles só gostam de moda, de discotecas. Quando nós tínhamos participado no evento com a autorização expressa da direcção do Sporting. Penso que os jogadores devem ser aproveitados nestas iniciativas. E a propósito deles, devo dizer que o Sá Pinto é um campeão e que o Dani na próxima época vai ter mais sorte no A-tlético de Madrid.
Clube a clube
BENFICA
"Joguei no Benfica desde os oito anos. Quando cheguei a sénior, eles cederam-me ao Sintrense e ao Fafe mais ou menos na altura em que se começou a falar da primeira crise financeira do clube. Sentiram necessidade de se desfazerem de jogadores na minha situação e surgiu-me a hipótese do Birmingham.
BIRMINGHAM
"Foi o meu começo a sério. Deixei lá uma marca. Subi de divisão com eles, ganhei uma taça secundária, jogada com Wembley cheio. Tinha 19 anos e fui sozinho para Inglaterra. Depois o treinador Nelo Vingada chamou-me para os esperanças."
SPORTING
"O professor Queiroz levou-me depois para Alvalade. Na altura ficava sentido porque jogava a titular e depois nos jogos grandes ia para o banco. Mas eu compreendo-o perfeitamente. Seguiu-se o Robert Waseige. Com ele eu jogava sempre, em todos os encontros. Depois veio o "mister" Octávio, que não me quis. Era bom treinador, a nível de treino e de táctica, e eu queria continuar mas ele preferiu o Gimenez. Fiquei triste até porque só me dispensaram depois de vir de férias, com os plantéis fechados. Mas guardo uma recordação óptima do clube, uma relação excelente com a massa associativa e muitos amigos."
TOTTENHAM
"Lá tive quatro treinadores: Gerry Francis, David Pleat, Chistoph Gross e George Graham. Adorei lá jogar e fui sempre muito acarinhado pelos adeptos e bem sucedido no início, ao ser considerado o melhor em campo 13 vezes na primeira época. Mas Graham, o último técnico, não gostava de habilidosos: correu comigo e com o Ginola porque só gostava de jogo defensivo."