VALERY Lobanovsky, o treinador do Dínamo Kiev que faleceu anteontem no hospital de Zaporodije vítima de acidente vascular, era um verdadeiro personagem dentro e fora dos relvados: um homem frio, sério, de mau humor, mas incrivelmente eficaz, como se comprovam os 25 títulos.
"Durante os jogos, parecia uma múmia. Olhávamos para ele e víamos um homem austero e sem expressão", lembrou Viktor Branitsky, porta-voz da Federação ucraniana. "Há uns anos, ele tinha o hábito de se balançar para a frente e para trás durante os jogos. Um pouco como um pêndulo. A alcunha dele era mesmo a balança", adiantou Branitsky.
Considerado um treinador com grande visão de jogo, Lobanovsky raramente aparecia nas conferências de Imprensa. Quando ganhava, falavam os adjuntos. Quando perdia, ninguém aparecia na sala, como aconteceu no célebre Portugal-URSS de 1983 (1-0) e no Dínamo Kiev-FC Porto de 1987 (1-2), nas "meias" da Taça dos Campeões, só para citar os casos relacionados com portugueses. A explicação de Artiom Frankov, chefe do jornal ucraniano "Football": "Geralmente, não gostava dos jornalistas. Dizia que eles não percebiam nada de futebol. Há muito tempo que ele não lia jornais e nem queria saber das críticas."
Os métodos de Lobanovsky deram que falar. Sobretudo nos anos 70 e 80, quando o Dínamo Kiev e a URSS jogavam o denominado futebol do futuro, com movimentações constantes. "Para Lobanovsky, os jogadores eram 'robots': ele davam-lhes um trabalho e a missão deles tinha de ser cumprida, senão...", conta Viktor Matvienko, jogador do Dínamo na década de 70.
O desaparecimento de Lobanovsky representa o adeus de um revolucionário do futebol. Até sempre!
Polémica em Lisboa
A polémica acompanhou Lobanovsky na viagem a Lisboa em Novembro de 1983, aquando do Portugal-URSS, para o apuramento do Euro-84. O tal do "penalty" de Chalana. Na véspera do jogo, a equipa soviética treinou com bola no Estádio da Luz quando a ordem era só a vistoria do relvado. A persistência do técnico em ficar no campo irritou os 300 espectadores, que "espingardavam" para Fernando Martins, o então presidente do Benfica: "Abra a porta que nós tiramos esses 'comunas' daí". Só 20 minutos depois é que Lobanovsky, indiferente às vaias e a dizer "isto é feio, muito feio", deu ordem para os jogadores saírem.
Um currículo de luxo e quarto lugar no «ranking»
Com 25 troféus conquistados, Lobanovsky ocupa o quarto lugar no "ranking" dos técnicos mais titulados de sempre. O escocês Billy Mailly comanda a lista com 29 títulos (todos pelo Celtic), seguido dos compatriotas Jock Stein (Dunfermline e Celtic) e Alex Ferguson (Aberdeen e Man. United), com 26.
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