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Ermelo - Apesar de manter uma equipa muito semelhante à que fez o Europeu-96, Portugal evoluiu numa série de aspectos: estes jogadores estão hoje mais velhos, mais experientes e ganharam mais títulos. São, por isso, mais respeitados. Mas viram crescer a responsabilidade.
Pegando no onze que iniciou o Europeu-96, verificamos que esta selecção somava, na altura, 255 internacionalizações, à média de 23,1 por cabeça. Vítor Baía, já então o mais internacional entre os convocados, era o único com mais de 40 jogos feitos na selecção (41). Hoje, o onze que se perfila para defrontar a Inglaterra soma 474 internacionalizações. A média cresceu muito, para os 43 jogos por cabeça. E só cinco homens estão abaixo dos 40 que há quatro anos eram uma barreira praticamente insuperável: Abel Xavier (13), Paulo Bento (22), Jorge Costa (27), Dimas (35) e Sá Pinto (37).
Além de crescer em internacionalizações, a equipa envelheceu. A idade média do onze-base de há quatro anos andava próximo dos 25 anos, não esquecendo que para ela contribuía Oceano, já com 33 aniversários festejados. Agora, embora mantenha apenas um jogador acima dos 30 anos (Dimas, com 31), a equipa está mais velha, com uma idade média de 28 anos e meio. Espera-se que a idade se reflicta na responsabilidade e na forma mais experiente e madura de encarar os jogos.
Além de mais velha e experiente, a selecção nacional é também mais reconhecida no exterior. Sobretudo devido aos êxitos que os seus intervenientes somaram nos clubes.
Deixando de lado o que foi ganho em Portugal, a equipa de 1996 entrou no Europeu com dois títulos na bagagem: Couto tinha ganho uma Taça UEFA em 1995; Paulo Sousa fora campeão italiano e ganhara uma Taça de Itália no mesmo ano, juntando-lhe a Liga dos Campeões de 1996; e Rui Costa vencera a Taça de Itália em 1995.
De então para cá, a equipa-base portuguesa soma taças. Baía foi campeão espanhol, venceu duas Taças de Espanha e uma Taça das Taças. Fernando Couto já foi campeão espanhol e italiano e ganhou mais duas Taças de Espanha, uma Taça de Itália e duas Taças das Taças. Dimas sagrou-se por duas vezes campeão de Itália. Paulo Sousa ganhou mais uma Liga dos Campeões e uma Taça Intercontinental. E Figo tornou-se uma das primeiras figuras do futebol europeu, conquistando dois campeonatos espanhóis, duas Taças de Espanha, uma Taça das Taças e uma Supertaça Europeia. Hoje, mesmo que a equipa se porte bem, ninguém está em condições de eleger Portugal como surpresa do Euro-2000.
O QUE SE MANTÉM
A equipa - Se Paulo Sousa recuperar a tempo de jogar segunda-feira, oito dos onze titulares que iniciaram o Europeu-96 vão estar de início na partida contra a Inglaterra. Faltam Paulinho Santos, lesionado, Oceano, que deixou de jogar, e Hélder, que nem está convocado para a fase final. Com excepção de Dimas e Sá Pinto, e embora Vítor Baía tenha sido impedido de jogar a fase final do Mundial de juniores de 1989, os oito resistentes faziam parte das duas selecções nacionais de sub-20 que se sagraram campeãs do Mundo em Riade e Lisboa. A aposta na geração dourada tem sido constante desde então, restando saber o que vai fazer-se no dia em que ela acabar.
O modelo de jogo - Há algumas diferenças tácticas, de sistema, mas mantém-se o modelo de jogo a utilizar. Portugal continua a beneficiar o passe curto, a circulação de bola, a mobilidade de todas as pedras, disponibilizando-se constantemente para receber nas várias posições do relvado. O carrossel que António Oliveira trouxe para a selecção continua a girar. A única dúvida tem a ver com a atitude: Portugal estará preparado para assumir os jogos na iniciativa, como convém às características dos jogadores, ou esconder-se-á no contra-ataque? Como somos muito melhores com bola do que sem ela, convém que a opção seja a primeira. Como foi em 1996.
As polémicas - Tal como há quatro anos, discutem-se o ponta-de-lança e os médios-centro. E, tal como há quatro anos, as opções serão as mesmas: vamos jogar com dois médios mais recuados no meio e só um avançado na área. A manutenção do modelo de jogo não dá muitas alternativas. Fundamental vai ser saber com quantos jogadores chegará Portugal às áreas adversárias e onde vai colocar o fulcro do jogo. A colocação de quatro jogadores na frente além daquele que leva a bola numa situação de ataque é importante, como o será que a equipa centre sempre o jogo no meio-campo do adversário. E isso depende mais da colocação dos jogadores uns metros mais à frente ou mais atrás do que da utilização de um ou dois médios-centro e de um ou dois pontas-de-lança.
O QUE MUDOU
O seleccionador - Há quatro anos estava António Oliveira; hoje já está Humberto Coelho. As diferenças são, fundamentalmente, de estilo. Apesar de nunca ter sido comentador de TV, Oliveira até gostava de discutir as opções com os jornalistas. Sempre fora das conferências de Imprensa, no entanto, que nelas as respostas já eram cheias de lugares-comuns, para que ninguém percebesse o que lhe ia na mente. Humberto, que fez o Europeu-96 pela RTP, já actua de forma radicalmente diferente: por opção, manteve as conferências de Imprensa ocas e cheias de frases feitas, sem dar ideias acerca do que vai fazer. Mas alarga o afastamento ao resto dos seus dias: com excepção da manhã em que foi à conferência de Imprensa, ainda ninguém o viu a falar com os jornalistas.
A táctica - Manteve-se o modelo de jogo, mas a disposição das pedras em campo é diferente. Há quatro anos, Portugal partia de um 4x4x2 com dois médios-centro, Figo na direita, Rui Costa a dividir-se entre o meio e o flanco esquerdo e dois avançados de enorme mobilidade. Hoje, mantêm-se os dois médios-centro, mas a equipa aproxima-se mais de um 4x3x3, com Rui Costa fixo no meio (seja mais recuado ou mais avançado) e os três jogadores da frente a dividirem-se pelas três faixas do terreno: um à direita, um ao meio e o outro à esquerda. Seja com intercâmbio entre o trio da frente, como na primeira parte do jogo com Gales, ou com a definição clara de um avançado-centro e de dois extremos, tal como sucedeu no segundo tempo desse desafio, resolveu-se o grande problema de 1996: a equipa está mais equilibrada.
A organização - Os erros de 1996, onde dirigentes dos clubes e empresários conviviam com a selecção, têm sido emendados e até se caiu no extremo oposto. Tanto em Chaves como aqui em Ermelo, os jogadores têm estado completamente isolados no seu hotel, onde ninguém entra e de onde só saem para treinar. Se no estágio transmontano a equipa entrava e saía do autocarro longe dos jornalistas, limitando os contactos, mesmo informais, aos que eram promovidos pela FPF, aqui esse acesso foi permitido na primeira manhã de treinos. Por uma vez, a equipa cruzou-se com a Imprensa no caminho dos balneários para o relvado, mas isso depressa foi emendado: antes do treino da tarde, a organização local já tinha assentado uma calçada de pedra na lama para que os jornalistas pudessem entrar nas bancadas por outro local.