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Extremo da Costa do Marfim escreve carta para a irmã que morreu: «Agora não sinto nada. Como se já não fosse humano...»

Yan Diomande contou história dramática da irmã que perdeu a vida com apenas 15 anos, após ter sido envenenada numa festa

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Yan Diomande no jogo com Equador
Yan Diomande no jogo com Equador • Foto: Lusa/EPA
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Yan Diomande brilhou com alguns bons momentos a partir do flanco direito na vitória da Costa do Marfim frente ao Equador. O extremo do Leipzig tem apenas 19 anos e atravessa um bom momento na carreira, mas teve de percorrer um caminho muito duro para chegar à elite do futebol.

O jovem costa-marfinense abriu o coração ao 'The Players Tribune', através de uma carta tocante dirigida à irmã Roxane, que morreu em circunstâncias trágicas aos 15 anos, envenenada com uma substância colocada na sua bebida numa festa.

O jogador lembrou vários episódios partilhados da infância em Abidjan partilhados com a irmã, desde a camisola falsa do Man. United em que escreveu 'Ronaldo' e o número 7 com um marcador, aos serões que passaram juntos a ver outros craques na televisão.

Relatou ainda como a irmã foi um grande apoio no seu crescimento, marcado pela pobreza. Por exemplo, conta quando ele e um grupo de amigos roubavam batatas de uma loja porque passavam muita fome. Recorda também os vários clubes onde foi rejeitado, até chegar ao Leganés e estrear-se num jogo contra o Real Madrid.

Leia a carta na íntegra:

"Querida Roxane,

Lembras-te de quando alguém me comprou uma camisola falsa do United e eu escrevi Ronaldo 7 nas costas com um marcador preto? Não conhecíamos a riqueza ou a pobreza. Conhecíamos apenas a felicidade.

Lembras-te de nós, 25 pessoas, a dormir numa casa em Abidjan? A mãe queria ver as suas novelas. Todos os outros queriam ver filmes.

Lembras-te de como eu fingia sempre que estava a dormir e depois, depois da meia-noite, ia para a sala da televisão? Baixava o volume da televisão ao máximo. Apenas duas barras de som. Via futebol no escuro e sonhava.

Lembras-te de quando os adultos me viram a jogar futebol na poeira e me chamaram Roberto Carlos por causa da força com que eu chutava? E lembras-te de como eu ficava secretamente zangado com isso, porque o meu ídolo era o CR7?

Lembras-te de quando fui jogar para tão longe de casa? Tinha 9 anos. Inter Foot Sud Comoé, bem perto da fronteira com o Gana. Apenas um menino entregue a si mesmo. Não sei se alguma vez te contei esta história, mas as outras crianças e eu íamos à aldeia roubar batatas porque tínhamos muita fome. Fazíamos um assalto ao banco à banca. Duas crianças distraíam o dono da loja, enquanto 18 de nós fugiam com duas batatas cada. Nem eram boas. Mas tinham um sabor incrível. Ainda é a minha comida favorita. Batatas cozidas com um pouco de azeite. Faz-me lembrar esses tempos duros.

Lembras-te de quando recebi as minhas primeiras chuteiras a sério e como dormia com elas? A crescer, eu jogava sempre com aquelas sandálias de plástico brancas. Mesmo agora, quando vou a casa, ainda jogo com elas. É a nossa tradição.

Lembras-te de quando eu voltava para casa e tu dizias aos meus amigos da vizinhança: 'Porque é que pararam de treinar? O Yan não vos vai comprar carros. Têm de continuar a trabalhar.' Tinhas 10 anos e já eras a minha agente.

Lembras-te de como nos sentávamos e sonhávamos em mudar-nos para França? Como iríamos às compras, ter o nosso próprio apartamento, como eu seria um futebolista rico com carros e uma casa grande, e como tu não terias de preocupar-te com nada. Foste tu quem sempre acreditou que eu poderia ser o próximo Cristiano, quando todos os outros se riam.

Lembras-te de quando, aos 15 anos, me mudei para a América para o ensino secundário e sentia tantas saudades de casa? Durante meses, não percebi o que ninguém dizia. Puseram-me ao lado de um rapaz francês, que tentava traduzir tudo o que o professor dizia. Lembras-te quando te liguei e disse: 'Não vais acreditar, as crianças aqui discutem com os professores.' Sabes que em casa não nos atreveríamos a piscar os olhos à frente dos mais velhos.

Lembras-te de quando não conseguia acreditar que as crianças fumavam depois da escola? Tu dizias que parecia que eu estava numa série de televisão americana.

Lembras-te de quando me levaram para um teste no Bournemouth? No Chelsea, no Rangers, no Olympiakos, no Crystal Palace? O Eze e o Olise até vieram ter comigo depois de um treino e disseram: 'Miúdo, és mesmo bom.' Mas mesmo assim não me contrataram. Nem as equipas B da MLS me queriam. Nem sabia porquê. Nunca me deram uma razão. Os adultos resolviam tudo. Apenas me levavam por toda a Europa, e todos diziam sempre que não. O meu visto expirou. O meu sonho tinha acabado. Mandaram-me de volta para África, e chorámos juntos. Foste tu quem nunca deixou de acreditar. Algumas semanas depois, assinei pelo Leganés e chorámos com lágrimas diferentes. Foi nessa altura que ainda tinha emoções.

Agora não sinto nada. Como se já não fosse humano. Desde que morreste, sinto apenas um vazio. Acho que nem derramei uma lágrima no dia em que me disseram que já não estavas. Fiquei apenas em choque. Foi apenas algumas semanas depois de ter feito a minha estreia pelo Leganés. Quem faz a sua estreia aos 18 anos contra o Real Madrid? Era demasiado louco. Era um sonho. E depois tornou-se um pesadelo. Alguém me ligava constantemente de casa. Eu estava irritado. Não percebia porque me ligavam sempre. Atendi, e eles nem tentaram suavizar. Sabes como é em casa. Sem emoções. Apenas... 'A tua irmã já não está.' 'O quê?' 'Morreu.' 'De que estás a falar?' 'Alguém lhe deitou algo na bebida numa festa e ela nunca mais acordou. Partiu.' Tinhas 15 anos. Nunca obtive respostas. Nem sei se quero saber porquê. Talvez fosse ciúme. Talvez seja simplesmente algo que acontece no nosso país. Talvez eu pudesse ter-te protegido. Não sei. Tento acreditar no plano de Deus. É tudo o que posso fazer. Não tento esquecer, porque sei que não vou esquecer. Tudo o que posso fazer é usar essa dor para trabalhar ainda mais, e para realizar tudo o que sonhámos.

Escrevi isto porque não consigo falar sobre isso. Escrevi isto porque quero que saibas que vou garantir que continues a viver. Vou garantir que todos saibam o teu nome. O mundo inteiro.Tudo o que faço no campo de futebol, faço por ti.Tanta coisa aconteceu desde a última vez que te vi... Não poderias acreditar. Nem sei se eu acredito. Sabes o que é louco? Depois da minha estreia contra o Real Madrid, troquei camisolas com o Mbappé. Lembras-te de quando o víamos na televisão e tu dizias: 'Mbappé? Sim, é bom. Mas o meu irmão é melhor.'

Enganei-me numa coisa. Não quero ser rico. Vejo o que o dinheiro faz às pessoas, até à família. Enquanto estive no Leganés, tudo o que ganhava enviava para casa. Chegou a um ponto em que já nem queria dinheiro. Era apenas um fardo. Nunca paravam de pedir. Acho que pensavam que eu já era milionário. Nem tinha um apartamento. Vivia no centro de treinos, num quarto sem televisão. Apenas futebol e dormir, futebol e dormir. Não queria uma casa grande. Não queria carros. Apenas queria investir tudo no futebol. Tudo, para mostrar ao mundo que a minha irmã tinha razão...

Ah... isto vai fazer-te rir. Quando me mudei para jogar no Leipzig, estava sempre atrasado. Bem, não estava atrasado. Mas chegava a horas, o que na Alemanha significa que estás muito atrasado. Então já sabes o que fiz a seguir. Comecei a chegar 90 minutos mais cedo para tudo. Chegava tão cedo que os rapazes começaram a chamar-me 'Alemão'. Tenho sempre de exagerar em tudo. Não consigo relaxar. Sempre o disseste. O campo tornou-se no único lugar onde ainda me sinto em casa. É o lugar onde sinto paz e onde posso falar contigo. Só queria que ainda estivesses aqui para que eu pudesse dizer-te... Conseguimos.Tudo o que disseste se tornou realidade.

Amanhã partimos para o Campeonato do Mundo. A sério. O teu irmão vai jogar pela Costa do Marfim, como Drogba, como Yaya, como Gervinho. Nem vejo isto como um jogo. Vejo isto como um palco. Esta é a minha oportunidade de mostrar ao mundo inteiro o que tu viste em mim. Cada vez que marcar um golo, vou garantir que todos sabem o teu nome. Vou garantir que não te esquecem. Sempre disseste que eu poderia ser melhor do que o Cristiano. Se o vir lá, vou cumprimentá-lo em teu nome. Vou fazer o que previste, juro. E antes de ter as chuteiras a sério, dizias a todos: «O meu irmão vai ser o melhor do mundo.» Vou provar que tinhas razão, ou morrerei a tentar.

O teu irmão, Yan."

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