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O antigo selecionador da Argentina, César Luis Menotti, não tem dúvidas quando ao sucesso de Pep Guardiola no comando do Bayern Munique. "Ele é um catalão muito alemão, ordenado e sério. Trabalha muito, treina muito bem. A sua personalidade encaixa na perfeição em Munique e esta é a cidade ideal para ele", disse Menotti.
Numa entrevista ao diário alemão "Süddeutsche Zeitung", o técnico argentino diz que “Munique é uma das melhores cidades do Mundo. As pessoas saúdam-se nas ruas. Na Argentina ou em Espanha passam ao lado sem se falarem. Em Munique, Guardiola poderá sair à rua com a mulher e os filhos, mesmo quando perder um jogo”, sublinhou Menotti.
O veterano treinador argentino confessou que no último encontro que teve com Guardiola o viu “um pouco inquieto”, perante o desafio que tem pela frente no Bayern Munique, especialmente depois de Jupp Heynckes ter conduzido o clube a uma tripla histórica, conquistando a Bundesliga, a Taça da Alemanha e a Liga dos Campeões.
“Onde já se viu algo assim? O normal é mudar-se de treinador quando as coisas correm mal. José Mourinho saiu do Real Madrid porque não ganhou nada. O Bayern ganhou tudo, mas para mim, a contratação de Guardiola é uma excelente ideia”, sublinha Menotti.
Estabilizar o êxito
Para o treinador que conduziu a Argentina ao título mundial em 1978, Guardiola enfrentará agora o repto de “estabilizar” o êxito do Bayern. "O seu principal objetivo será estabelecer uma ligação emocional entre o público e a equipa de forma que mesmo depois de uma derrota as pessoas possam dizer que gostaram do que viram", acrescenta Menotti, hoje com 74 anos e retirado do futebol.
A capacidade de definir um estilo de jogo é a principal virtude de Guardiola, diz Menotti. “Há poucos treinadores que abrem a porta do balneário e digam 'bom dia, senhores' e os jogadores saibam exatamente como têm de jogar. Guardiola sabe exatamente o que faz o lateral esquerdo da equipa, o número que calça ou se dorme mal. Ele entende que a única verdade da vida é aprender até morrer”, acrescenta.
Por isso, defende Menotti, o trabalho de Guardiola transforma-o num treinador “brilhante, quase único”, e explica porquê. “Uma prova ganha-a qualquer um. Muitos ignorantes e idiotas venceram a Liga dos Campeões, mas ganhar 15 títulos em 19 provas em cinco anos, não vejo mais ninguém”, sublinha o veterano treinador argentino.
Ligação argentina
César Menotti sabe o que diz quando se refere a Pep Guardiola. Afinal foi ele um dos mentores do catalão quando deu os primeiros passos na carreira de treinador.
E Guardiola nunca escondeu a sua admiração pelo estilo e filosofia de vários técnicos argentinos que acabaram por ser, cada um à sua medida, fontes de inspiração quando era ainda um simples candidato a treinador de futebol.
Ficaram célebres os seus encontros com Marcelo Bielsa e César Menotti. O primeiro convidou-o para um churrasco no seu rancho e onze horas depois a maioria dos outros convidados acabou por ir-se embora, tão entusiasmado era o diálogo entre o mestre e o aprendiz.
O encontro com Menotti foi num restaurante no rico bairro de Belgrano, em Buenos Aires. O jantar prolongou-se pela madrugada e depois de todos os funcionários terem regressado a casa, foi o próprio gerente que ficou para fechar a porta quando Guardiola se deu por satisfeito da conversa com Menotti.
Um outro treinador argentino foi importante no início da carreira de Pep Guardiola, Júlio Velasco, o técnico de voleibol que guiou a seleção de Itália e dois títulos mundiais. Velasco revelou que numa das conversas entre ambos Guardiola lhe perguntou como se podia continuar a motivar um grupo que já tinha ganho tudo. Resultado, a “vítima” foi o francês Thierry Henry, que o Barcelona dispensou no final da época 2009/10.