Alpinismo: De olhos fechados no colo da Deusa

"QUANDO me sentei num penhasco de 100 metros de altura, com os pés a balançarem no vazio, o calor das rochas debaixo das minhas mãos e som do espaço à minha volta, percebi que podia fazer qualquer coisa a que me propusesse", escreveu, em tempos, Erik Weinhenmayer, cego desde os 13 anos de idade, e que se propõe, agora, ultrapassar o desafio supremo deste desporto.

Os tibetanos chamam-lhe "Chomolungma", qualquer coisa como "deusa mãe do mundo", ou então "Sagamartha" ("Testa do Céu"). No Ocidente dão-lhe o nome de um engenheiro militar britânico que foi o primeiro homem a registar a sua localização e altitude (8848 metros). Uma boa troca, o casamento entre um obscuro nome inglês e a "deusa do tecto do mundo": Everest.

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O primeiro homem a pisar o cume da montanha mais alta do planeta ainda é alvo de polémica: oficialmente, a honra pertence a Sir Edmund Hillary e ao sherpa [nativo da região] Tenzing Norgay, em 1953. Na verdade, nunca foi devidamente esclarecido qual dos dois, de facto, foi o autor da proeza. Contudo, recentemente, foi descoberto o corpo de outro alpinista britânico desaparecido, George Mallory, que, pensa-se, agora, pode ter atingido o cume 29 anos antes de Hillary.

Depois disso, muitos chegaram ao topo: a primeira mulher foi a japonesa Junko Tabei, a 16 de Maio de 1973; o mais novo foi o nepalês Shambu Tamang, de apenas 16 anos, a 5 de Maio de 1973, e o mais velho, o espanhol Ramon Blanco, aos 60 anos e 160 dias de idade. Pisou o "tecto do mundo" a 7 de Outubro de 1993.

Finalmente, o primeiro português foi João Garcia, a 18 de Maio de 1999. Um feito, mas também uma experiência traumática que lhe custou uma série de queimaduras graves e a amputação de parte dos dedos e do nariz, mas que também lhe trouxe o reconhecimento nacional e a medalha de Mérito Desportivo.

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Um cego no topo do mundo

Weinhenmayer norte-americano de 32 anos nascido numa das zonas mais montanhosas dos Estados Unidos, o Colorado é, além de alpinista experimentado (tem no seu currículo a conquista do McKinley, no Alasca, com 6960 metros), professor de Inglês, treinador de luta-livre, pára-quedista e mergulhador certificado.

Para este alpinista especial, o facto de não poder contar com a visão para o ajudar não é um impeditivo. "Faço coisas com as mãos que os outros geralmente delegam aos olhos", explica Weihenmayer.

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O método de escalada que Weinhenmayer utiliza não tem nada de inovador: ligado com cordas aos restantes companheiros, usa a audição para reproduzir com exactidão os movimentos daqueles que vão à sua frente, recorrendo ao auxílio de garrafas de oxigénio a elevadas altitudes. De acordo com um dos doze sherpas que o acompanham na expedição, "nada parece indicar que este homem é cego".

Na verdade, há até quem desconfie da falta de visão de Weinhenmayer. "Não sei, não sei mesmo", diz Juan Antonio Carrascosa, um dos responsáveis pelo grupo de alpinismo da ONCE, a Organização Nacional de Cegos de Espanha. Uma entidade que já tem no seu currículo um conjunto de expedições para deficientes visuais e motores a alguns picos famosos, como o Mont Blanc, em França, ou o Kilimanjaro, em África. E o Everest também é um objectivo.

Contudo, e apesar de algum cepticismo quanto à falta de visão de Weinhenmayer, Carrascosa deixa um voto: "Oxalá o suba, mas, sobretudo, oxalá o desça."

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