João Rebelo: «É sempre honroso poder participar em Jogos Olímpicos»

À DISTÂNCIA de alguns meses dos Jogos Olímpicos de Sydney, o atirador João Rebelo está à beira de se tornar um dos poucos atletas mundiais a acumular cinco presenças em Jogos Olímpicos. Aliás, tal marca igualará o actual máximo nacional, pois o velejador Duarte Bello e o cavaleiro Henrique Calado (em 1948, 52, 56, 60 e 64) também competiram em cinco Olimpíadas consecutivas.

João Rebelo reconhece a singularidade de tal situação: ”É sempre uma honra participar, quanto mais ter no currículo cinco presenças olímpicas consecutivas, até porque isso significa que estive, durante todos estes anos, ao mais alto nível” .

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Contudo, estar em Sydney, apesar do bom ano realizado pelo atirador português, não se traduz, necessariamente, na conquista de uma medalha. João Rebelo rejeita, veementemente, essa responsabilidade, apesar de aceitar que fez uma boa época de 99: ”Consegui ser o segundo melhor do ’ranking’ mundial, mas apenas ganhei uma prova da Taça do Mundo. De resto, apenas consegui terceiros, quartos e quintos lugares. Estas são provas de nível mundial, mas não têm a exigência de umas Olimpíadas. Logo, apesar destes bons resultados, não se pode exigir que traga uma medalha da Austrália”, afirma.

É profunda convicção do atirador luso que estão criadas demasiadas expectativas à volta dos atletas portugueses no tiro. ”Há um pouco a ilusão de que somos melhores do que realmente somos”. Esta ilusão, de acordo com João Rebelo, é criada pela Comunicação Social, que ”coloca os atiradores portugueses num pedestal, elevando demasiado a fasquia. Há muitos anos que o tiro português participa em Jogos Olímpicos, mas apenas Armando Marques, em 1976, conseguiu arrecadar uma medalha de prata”, lembra.

Mas até que ponto essas expectativas podem prejudicar um atleta? ”Cria-se muita pressão à volta da obtenção de uma medalha. A Comunicação Social entra-nos em casa, a qualquer hora, em plena competição, e massacra-nos a perguntar se ainda é possível uma medalha. Não podemos estar a pensar nisso. Temos de nos preocupar, isso sim, em fazer a melhor prestação possível”, acrescenta.

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Quando questionado se o facto de esta ser a sua quinta participação em Jogos Olímpicos não o poderá ajudar a superar a pressão própria de uma competição tão especial, João Rebelo vê a questão por dois ângulos bem distintos. ”Sem dúvida alguma que a experiência ajuda a proteger das pequenas armadilhas de um evento com estas características, mas existe um lado negativo. As pessoas que me rodeiam podem exigir mais de mim”.

O atirador conclui com um aviso: ”É muito difícil conseguir uma medalha. É o sonho de qualquer atleta, mas temos de ser humildes.”

"FORÇA" DA PSICOLOGIA

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O que é necessário para se ser um atirador de alta competição? João Rebelo responde a esta questão todos os dias no Clube de Tiro do Baixo Alentejo, a oito quilómetros da cidade alentejana onde reside: ”Três horas de treino diário que complemento com preparação física três vezes por semana.” A preparação física pode parecer de somenos importância numa modalidade como o tiro, mas constitui uma parte importante da equação, tal como a técnica de ”swing” e a componente psicológica. Esta, talvez a mais importante, a que distingue um bom atirador daquele que pode ser um atirador vencedor. Para João Rebelo o factor psicológico é mais que importante. O atirador alentejano descreve-o como fulcral. ”Costumo dizer que os pratos não se partem com o chumbo, mas sim com a cabeça. Se estivermos psicologicamente fortes partimos mais pratos, se não, o ’handicap’ é maior e estamos vencidos à partida.”

A palavra tranquilidade é muito valorizada pelo atirador do Clube de Tiro de Beja. O que fazer então para conceder esse precioso bem aos homens que atirarão por Portugal em terras australianas? ”É preciso que os atiradores portugueses não se sintam sós durante os quatro anos que medeiam as competições olímpicas. É preciso que a Imprensa desportiva acompanhe a modalidade e tome conhecimento do que se passa nos seus meandros para poder falar dela com mais propriedade.” E prossegue, crítico. ”Acho complicado que se preocupem com o tiro só de quatro em quatro anos. Durante esse período, um atirador compete, consegue vários troféus, sem, contudo, haver ninguém que se preocupe. Mas quando surge a oportunidade de competir numas Olimpíadas, onde ainda nem ganhei nada, surgem logo as perguntas...”

E são estas situações, que na experiência de João Rebelo, podem perturbar. ”Num desporto como o tiro onde há tantos imponderáveis – o clima, os cartuchos, os pratos, os fundos, as próprias máquinas – qualquer situação nova pode ser um factor de desestabilização que só pode ser ultrapassado com uma sólida preparação psicológica.”

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CARLOS MARIANO

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