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O recorde da maratona de Sabastian Sawe abaixo das duas horas (1:59:30 h) foi possível graças às supersapatilhas, com placa de carbono, e à fortíssima elite em Londres, segundo o antigo atleta António Pinto, que veria uma marca melhor se fosse noutro local.
"Esta marca foi possível em Londres, com aquela elite, mas estou convencido que, estes atletas que fizeram abaixo das duas horas, numa das maratonas mais rápidas, como Chicago, Roterdão, Berlim ou Valência, ainda faziam menos um minuto ou dois. A diferença é que Londres tem os atletas que quer e que as outras não têm. Já no meu tempo era assim", afirmou o recordista nacional dos 42,195 quilómetros, em declarações à Lusa.
António Pinto venceu três vezes a Maratona de Londres, em 1992, 1997 e 2000, a última das quais em 02:06.36 horas, recorde europeu até 2017 e que perdura como recorde nacional, num total de sete pódios na capital inglesa, e uma vez em Berlim, em 1994.
"Eu cheguei a Berlim e fiz duas e oito [02:08.31], ganhei, sem saber ler e escrever, porque o treino mais longo que tinha feito foi de uma hora. Naquela altura, já era uma grande marca, mas isto para dizer que é uma maratona muito mais rápida do que Londres", assegurou.
Aos 60 anos, o autor de cinco das 10 melhores marcas nacionais na distância encarou com naturalidade o recorde obtido pelo queniano Sabastian Sawe (01:59.30 horas), menos um minuto e cinco segundos do que o anterior recorde mundial (02:00.35, em Chicago, nos Estados Unidos), que estava na posse do também queniano Kelvin Kiptum, desde 08 de outubro de 2023, menos de um ano antes da sua morte num acidente de viação.
"Quando treinava para a maratona, já prevíamos que alguma vez se baixasse das duas horas, mas também comentávamos que as mulheres iam fazer marcas melhores que as dos homens, porque são mais lutadoras, mais resilientes", referiu o antigo atleta, que terminou a carreira em 2005, aos 39 anos, aludindo à mais rápida evolução dos recordes femininos em relação aos masculinos.
Na edição de 2026 da Maratona de Londres, além de Sawe, o também queniano Yomif Kejelcha (01:59.41), segundo classificado, e ugandês Jacob Kiplimo (02:00.28), terceiro, que, em 08 de março último fixou em 57.20 minutos o recorde mundial da meia maratona, em Lisboa, bateram a anterior melhor marca mundial.
"Em Londres, como têm prémios monetários muito elevados, conseguem juntar os melhores atletas do mundo. Eles têm dinheiro para levar todos, campeões olímpicos, mundiais, recordistas, vencedores das maratonas, portanto, a probabilidade de grandes marcas lá é maior. Depois, os sapatos de hoje fazem milagres. Está comprovado que retiram quatro minutos numa maratona", vincou.
O recordista nacional detalhou o efeito acelerador das chamadas supersapatilhas, com placa de carbono, que "quanto mais rápido se correr, mais impulsão dá, ou seja, se já têm um bom ritmo, ainda vão ter melhores resultados", assumindo a certeza de que as suas marcas vão ser batidas.
"A qualquer momento, vai aparecer um português que vai superar isso, não tenho dúvidas, porque os recordes são mesmo para se bater, é por isso que este desporto é tão interessante. Mas, pronto, na minha altura, eu, a Rosa [Mota], o [Carlos] Lopes e o Domingos [Castro] éramos dos melhores do mundo. Além das marcas, também ganhávamos provas. Eu sei que esses atletas vão bater esses recordes, mas vão ficar longe de ganhar provas, porque, agora, ganhar uma maratona de Londres ou outra importante não é fácil", explicou.
António Pinto 'roubou' o recorde europeu a Carlos Lopes, que tinha vencido a maratona de Roterdão de 1985 em 02:07.12 horas, menos 23 segundos do que a marca do melhor maratonista luso da atualidade, Samuel Barata (02:07.35, em Valência, em 2023).
O antigo atleta natural de Amarante, que detém ainda os recordes nacionais dos 5.000 metros (13.03,86 minutos, em 1998) e dos 10.000 metros (27.12,47, em 1999), assumiu sentir "novo entusiasmo" com a chegada de Domingos Castro à presidência da Federação Portuguesa de Atletismo (FPA).
"É pena que em Portugal -- quer dizer, não é só em Portugal -- não apareçam atletas a fazer grandes marcas, para cativar os miúdos. Os meus ídolos eram o Carlos Lopes e [Fernando] Mamede. Sem eles, se calhar, nunca tinha sido o atleta que fui. Era importante, para motivar os jovens", lamentou.
No domingo, também na Maratona de Londres, a etíope Tigst Assefa melhorou, mais uma vez, o recorde mundial da distância em competições exclusivamente femininas, para 02:15.41 horas, ao vencer a prova britânica, vencida por Rosa Mota, em 1991.
Com quatro presenças na maratona olímpica, tem o 11.º lugar em Sydney como melhor resultado, num historial em que se destaca ainda o título de campeão da Europa dos 10.000 metros, em Budapeste1998.
Por Lusa