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Carlos Lisboa mostra-se "disponível" para voltar ao basquetebol ao mais alto nível. Três anos depois de ter saído do Benfica, então do cargo de diretor-geral das modalidades, o antigo jogador e treinador português, de 68 anos, explica o que o faria voltar ao ativo.
"Neste momento não estou a treinar ninguém, mas não pendurei a carteira de treinador. Se aparecer um projeto que seja interessante, que eu acho que tenha competitividade, alguma estrutura, estarei disponível para abraçar. Gosto muito do basquetebol, do treino e da pressão dos jogos. Para mim é algo fundamental, porque fui habituado a isso enquanto jogador e treinador, foi sempre parte da minha vida e, portanto, não estou retirado. Tive algumas hipóteses de ir para o estrangeiro, mas era muito longe daqui, na Ásia. Não é que não goste, mas é muito longe e sou muito agarrado à família. Se fosse um projeto que aparecesse aqui em Portugal, estou disponível, porque não pendurei ainda a minha credencial", explicou, a Record, Carlos Lisboa, à margem do 'The way of 28', o campus de basquetebol do filho Rafael que se realizou em Odivelas e onde o membro mais velho da família foi um dos instrutores: "O basquetebol é a minha paixão desportiva. Gosto de participar neste tipo de eventos, porque é a minha família e gosto de ensinar os jovens. Mas não é o meu perfil. O meu perfil está relacionado com a competição."
Precisamente sobre o filho Rafael, que agora prepara-se para abraçar um novo projeto na LEB Ouro (2.ª liga espanhola), no Alicante, Carlos revela todo o seu "orgulho" no trajeto do base, que começou no Benfica, onde foi orientado pelo pai na equipa principal, e é agora uma das figuras da Seleção Nacional.
"Fico contente [pelo seu trajeto] porque treina muito, é muito profissional e a carreira dele tem mostrado essa evolução desde menino até agora. Vai continuar a evoluir e a procurar aquilo que é o sonho dele, que é jogar num nível máximo [Liga ACB]. Não é fácil, mas também ninguém o pode criticar por isso, é o sonho dele. Acompanhei o crescimento desde o minibasket até aos seniores e via a vontade que ele punha no treino. Uma das coisas que lhe dizia, e que transmitia também muito a estes jovens, é que não devem ter pressa em querer crescer, pois quando atingimos a maioridade e jogamos nos seniores, aí é que o desenvolvimento, com toda a base que houve da formação, pode transmitir-se para a equipa sénior. Há jovens mais maduros do que outros. Os meus filhos tiveram a maturidade tarde, viam os outros [a jogar] e disse-lhes 'tenham calma que isto foi o que aconteceu comigo também'", recorda, prosseguindo: "Em relação ao Rafael, estou orgulhoso e sigo a sua carreira. Pontualmente vou a Espanha ver os jogos ao vivo, mas vejo os restantes em direto na televisão. O melhor conselho que posso dar-lhe agora é ele continuar a ser quem é. É um um grande profissional, já o treinei também. Fora do período do treino de equipa, ele cuida do seu físico e cumpre à regra aquilo que os treinadores mandam fazer na pré-época. Agora nesta paragem antes da Seleção ele continua a treinar todos os dias a parte física e a parte basquetebolística."
No campus estiveram também outros dois filhos de Carlos, Lisboa, os gémeos Bernardo e Tiago, de 23 anos. As comparações são inevitáveis, mas o patriarca da família evita entrar por aí, esperando apenas que ambos "possam seguir" os respetivos caminhos. Bernardo é base e esteve no Galitos na época passada, na Liga Betclic, ao passo que Tiago é extremo e representou o Maia Basket, na Proliga, e vai agora atuar no CAB Madeira, do principal escalão.
"Independentemente de serem gémeos ou não, todos somos diferentes. Os três irmãos são diferentes. Não vou fazer comparações entre o Bernardo e o Tiago. São jogadores diferentes, um é base e outro extremo. Gostam e percebem o jogo. Têm tido oportunidades de jogar na Liga, com mais ou menos minutos, mas isso faz parte também do crescimento. São trabalhadores e veem o irmão mais velho como exemplo. Querem jogar com mais assiduidade na liga portuguesa ou fora, se assim o conseguirem. Portanto, estão a seguir o caminho deles. Como disse em relação ao Rafael - noutro patamar -, se as oportunidades surgirem sei que eles estão preparados para isso. E já acabaram os seus cursos, o Bernardo de gestão de empresas e o Tiago de economia. Estão formados mas gostam e querem seguir como jogadores de basquetebol", constata Carlos, que garante que a família sempre apoiou as decisões dos gémeos:
"Não me compete a mim estar a dizer qual é o seu futuro, eles é que têm de o fazer, mas eu e a minha mulher sempre os apoiámos nas suas decisões. Sou um homem de família e gosto de os ter ao pé de mim, mas pronto, isto no desporto é assim, podem ir para fora. Estamos sempre presentes para os apoiar nos seus sonhos. Não são só eles, há mais jovens portugueses que terão que começar a jogar mais tempo [na Liga], para os respetivo treinadores perceberem se eles podem, ou não, ser jogadores da Liga do futuro."
Conhecido, nos seus tempos de jogador, por um lançamento exterior exímio, Carlos Lisboa recusa entrar em comparações com os filhos sobre quem atira melhor ao cesto. "Já não posso competir com eles (risos). Somos todos diferentes. O Rafael e o Bernardo são bases, o Tiago e eu extremos. Todos lançam ao cesto, felizmente. Têm essa capacidade, uns de uma maneira, outros de outra. Não faço comparações, pois acho que somos todos diferentes e as alturas são diferentes. Eu ainda joguei com 30 segundos de tempo de ataque e agora joga-se com 24. Tenho orgulho na minha carreira. Sei das responsabilidades que tenho no basquetebol português e orgulho naquilo que os meus filhos estão a fazer, cada um na sua posição e objetivo", referiu a glória do basquetebol nacional, garantindo que nunca pressionou os filhos para estarem à altura do seu passado.
"Têm orgulho em chamar-se Lisboa, como apelido. Eu tenho orgulho de ser pai deles e eles têm orgulho de serem meus filhos também. Cada um faz o seu trabalho e eles não sentem essa pressão de ter aquele nome nas costas. Saem um bocado a mim, gostam da pressão, portanto também está-lhes no sangue. Agora, eles não sentem a responsabilidade de ter de fazer isto por serem meus filhos. Fazem-no porque gostam de o fazer, seguem à risca aquilo que os treinadores dizem."
Questionado sobre como vê o basquetebol nacional aos dias de hoje, Carlos Lisboa mantém-se bem por dentro da modalidade:
"Não estou ligado a nenhuma equipa, mas vejo os jogos todos. Não vou aos pavilhões mas vejo-os todos na televisão. A Seleção tem tido prestações notáveis, ainda agora conseguiu mais uma vitória importante [contra a Grécia]. Era bom que conseguissem ser apurados para o Mundial, que era inédito. Não podemos, neste momento, dizer que o basquetebol português está num nível super elevado. Não está, porque não podemos ver a prestação de uma ou duas equipas ou da Seleção Nacional. Estou a falar do geral. O nosso basquetebol tem que melhorar em tudo o que é a envolvência e a estrutura das equipas, para depois também se poderem dar condições de trabalho a quem faz, aos treinadores e aos jogadores, para que o basquetebol melhore. Uma das coisas é investir também na formação. A seleção tem feito bons resultados, mas o nível do campeonato português não é, na minha opinião, tão forte como eu acho que poderia e deveria estar", lamenta o antigo extremo.
No seu tempo, Carlos Lisboa foi o grande representante do basquetebol português aquém e além-fronteiras, tal como Neemias Queta desempenha esse papel atualmente, por força da inédita presença na NBA, onde até já foi campeão pelos Boston Celtics. E Carlos Lisboa reconhece a importância do poste no crescimento da modalidade, elogiando a sua postura.
"[Como teria sido se eu tivesse entrado na NBA?] São tempos diferentes. Gosto muito do Neemias, ainda bem que está a ter este sucesso. Merece o novo contrato que assinou, é resiliente e trabalha. Nunca o treinei, mas o Rafael diz que ele sempre teve essa ideia de um dia ir para para os Estados Unidos, para uma universidade, com o objetivo de tentar entrar na NBA. É uma boa referência para os nossos jovens. Tem todo o mérito de ter conseguido aquilo que conseguiu e vai continuar, pois está a impor-se. É um jovem com os pés bem assentes na terra, sabe o potencial e as limitações que tem, é um jogador muito treinável, um jogador de equipa e bom colega. Vai ganhar mais minutos este ano nos Celtics. Está a fazer aquilo que todos os jovens sonham e tem sido o representante de nós todos, portugueses, no basquetebol de maior renome mundial.
Por João Socorro Viegas