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Maria João Bettencourt: «Ser português em Espanha foi das coisas mais duras»

Foto: FPB
Foto: DR Record

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Base do Benfica e da Seleção passa em revista uma carreira onde passou uma década no país vizinho numa das principais ligas europeias

Maria João Bettencourt, jogadora do Benfica e da Seleção Nacional feminina, foi a quarta convidada do 'Dois para um', o podcast conjunto de Record e da Federação Portuguesa de Basquetebol que conta também, no lote de entrevistadores, com o antigo internacional português João Santos - veja na íntegra no QR Code. De regresso a Portugal, mais concretamente ao Benfica, depois de uma década a atuar em Espanha, a base recordou as dificuldades sentidas no país vizinho e, simultaneamente, o crescimento que isso lhe trouxe a todos os níveis, desde a primeira etapa, no CREF de Madrid, até ao Azulmarino de Maiorca.

"Foi duro. O mais difícil? Ser português em Espanha acho que foi das coisas mais duras. Eles estão a outro nível, claramente, e nós, estrangeiros, temos que ir lá mostrar que valemos algo. Tinha de mostrar todos os dias que merecia estar ali. Eles desvalorizavam imenso e gozavam connosco. 'Ah, vens da liga portuguesa'. isso foi o que mais custou mas depois aprendi a lidar com isso. (...) Os dois primeiros anos foram difíceis mas depois consegui que o nome Maria João ficasse e já era mais fácil. Eu, a Sofia [da Silva] e até a [Joana] Soeiro abrimos as portas para outras jogadoras que estão lá e agora veem os portugueses de outra forma", analisou a base, de 35 anos, passando em revista os outros locais por onde passou em Espanha: "tive sorte nas cidades onde estive, são todas incríveis. Mas Valência foi, sem dúvida, a melhor e a que mais me marcou. Pela estrutura, pelo clube que é, numa cidade que respira desporto e basquetebol, sobretudo feminino."

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O regresso a Portugal é justificado com as saudades daqueles que lhe são mais próximos. "já estava na altura, depois destes anos todos, de me aproximar um bocadinho de casa. O basquetebol dá-me muitas coisas, mas também tira-me muitas. Estar longe da minha família, das pessoas que gostamos e nos apoiam", confessou, procurando, agora, conquistar a Liga pela primeira vez, algo que não conseguiu quando representou o CAB, na terra natal da Madeira, e por quem se estreou no campeonato com apenas 15 anos: "O impacto de jogar com essa idade foi grande. Tinha medo do que ia acontecer dentro de campo, mas nesse ano a equipa era incrível e elas ajudavam as mais novas, fazendo com que se sentissem uma delas. Nós éramos crianças..."

Até pela ligação emocional à Madeira, a saída para Espanha foi complicada: "Era uma menina mimada da ilha, que vivia com os pais. Acho que o choque também foi maior para eles do que para mim, a minha mãe chorou durante meses. Mas eles incentivaram-me a ir. A ficha caiu quando cheguei a Madrid e saí do avião. 'Ok, agora é sério'".

Clube dos 100 com Rosa Mota ao lado

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Em junho do ano passado, Maria João Bettencourt entrou num restrito lote de jogadores com 100 ou mais internacionalizações pela seleção principal de Portugal. Algo que a encheu de orgulho, principalmente porque contou ao seu lado, nesse dia, com a presença de uma figura histórica do desporto nacional. "Chorei imenso nesse dia. E ter sido a Rosa Mota a entregar a camisola das 100 internacionalizações... disse-lhe que só ela estar ali já era um privilégio. Não tinha noção de quantas internacionalizações eram, mas fico feliz. Não tanto pelo número em si, mas porque sempre que visto esta camisola sou feliz", explicou a base que, até por esse longo trajeto, saboreou de forma intensa o inédito apuramento para o EuroBasket do passado verão. Até porque as vezes em que falhou a qualificação no passado deixaram mossa: "Pensei em desistir da Seleção, pois foi realmente duro mentalmente. Houve duas janelas de dois Europeus diferentes em que ficámos ali, sempre no último jogo. Mas 2025 foi o ano, tinha que ser. Foi um alívio e felicidade incríveis. Foram muitos anos de luta."

A fase de qualificação para o EuroBasket'2027 vai retomar com a receção à Sérvia no próximo sábado - seguindo-se a ida à Islândia no dia 17 - e a experiente base explica o que mudou em relação ao passado, tendo em vista a presença em nova fase final. "Antes falhámos muito na questão do acreditar. Agora é manter esta seriedade, trabalho e, sobretudo, acreditar que agora já não somos o Portugal de antes, que agora somos um Portugal que a Europa olha de outra maneira. Nem nós nos respeitávamos a nós mesmas, éramos as primeiras a dizer 'se calhar não vai dar'. Agora a mentalidade é outra. É acreditar. Há gente que está a subir ao nosso barco e miúdas com nível que nos podem ajudar muito."

A fechar, e já num registo mais 'light', Maria João Bettencourt escolheu a vitória sobre a Sérvia que deu o apuramento para o EuroBasket como o jogo mais marcante da carreira, a ucraniana Alina Iagupova como a jogadora mais difícil de defender e confirmou que, se não fosse basquetebolista, seria enfermeira, o curso que tirou e que espera exercer no futuro. Quanto ao habitual 'esta ou aquela' com atuais e antigas internacionais portuguesas, a base do Benfica deu o 'título' a Sofia da Silva, capitão da Seleção Nacional. "A Sofia é uma das pessoas que vou levar para o resto da vida. Quando mais preciso, é para a Sofia que ligo. É um pilar na minha vida e uma jogadora incrível, a carreira dela é brutal e um exemplo para mim. Mas todas as outras são incríveis."

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Por João Socorro Viegas
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