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Sónia Teixeira: «Quando comecei não imaginava um percurso assim»

Sónia Teixeira: «Quando comecei não imaginava um percurso assim»

Sónia Teixeira, uma das melhores árbitras portuguesas no século XXI, foi a convidada do 8º episódio do 'Dois para um', o podcast conjunto de Record e da Federação Portuguesa de Basquetebol que conta também, no lote de entrevistadores, com o antigo internacional português João Santos - e que pode ver na íntegra no site e YouTube de Record. Aos 48 anos, faz um balanço claramente positivo de uma carreira de quase três décadas que encerra agora e onde, além de presença em várias finais das ligas masculina e feminina portuguesa, também atingiu patamares elevados lá fora, apitando no EuroBasket feminino de 2021 e ainda a final da Euroliga feminina em abril deste ano.

"Fico muito feliz pelo meu percurso e por aquilo que alcancei, com as dificuldades que encontrei. Gostava de ter estado presente num Mundial, mesmo que fosse sub-15 ou sub-17, e de ter tido a possibilidade de fazer mais jogos masculinos na FIBA. Eram objetivos que gostava de ter alcançado, mas consegui outros também muito importantes. Não saio desapontada mas acho saudável queremos sempre mais. Faço um balanço bastante positivo. A Sónia que começou há 29 anos nem imaginaria este percurso", descreveu Sónia Teixeira, que vai continuar por dentro da modalidade (já tinha sido nomeada instrutora FIBA em fevereiro): "vou estar ligada à parte formativa dos árbitros."

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O 'pendurar do apito', esse, já estava pensado há algum tempo - até porque só teria mais uma época na FIBA - e é explicado de forma sucinta: "queria terminar a carreira em alta. Temos de saber sair."

Quando muitos jovens apenas querem jogar basquetebol, Sónia Teixeira juntou a prática da modalidade à arbitragem - além dos estudos, claro. E porquê o apito? "Havia um dirigente em Lisboa, o sr. Virgílio Paula, que me conhecia e andou um ano atrás de mim para eu tirar o curso, pois eram precisos mais oficiais de mesa. Acabei por tirar o curso e, no final do mesmo, havia uma ficha de inscrição onde perguntavam se queríamos ser árbitros ou oficiais de mesa. Quando vi nem hesitei, pus árbitro. Sem desprimor nenhum, é uma tarefa também muito importante, mas não me via de fora de campo, sou muito ativa."

Ana Paula Freire foi a primeira mulher a arbitrar jogos da liga masculina e Sónia Teixeira seguiu-lhe os passos, deixando elogios à pioneira. "A Ana Paula teve muito mérito pois, em tempos ainda mais difíceis para as mulheres, conquistou um espaço para nós que ninguém tinha conseguido", recorda a árbitra internacional. No entanto, admitiu que se sentiu algo desacompanhada, pois nos 19 anos em que esteve no principal escalão masculino, "só em dois é que houve outra mulher, a Samira [Barrima]". "Não é isto que se pretende (...) O facto de estar sozinha também tornou as coisas bastante mais difíceis para mim. Muitas vezes senti-me como alvo", lamenta, dando o mote para um aumento do número de árbitras ao mais alto nível: "Precisamos de ter uma base maior, de trabalho e de oportunidades dadas por quem de direito. Com isto, as coisas acontecem." 

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Da mão partida à final da Euroliga

Sónia Teixeira apitou a final da Euroliga feminina da época que agora terminou, entre Fenerbahçe e Galatasaray, classificando-o como o ponto alto da carreira. No nosso podcast, a juiza internacional revelou como geriu as emoções. "Quando recebi a nomeação nem processei. Depois comecei a sentir a responsabilidade e a sufocar com a ideia de que ia apitar este jogo, visto por todo o Mundo. E se falho? Mas depois entrou em ação a minha experiência. Disse a mim mesma 'desfruta porque estás onde querias estar'. Olhei para toda a minha carreira, pensando que no dia em que comecei nunca sonharia em fazer a final da Euroliga feminina. E quando tive esse pensamento, sorri e tive paz interior".

Outro episódio marcante, mas este de cariz insólito, aconteceu no seu primeiro ano completo na FIBA, quando foi escolhida para arbitrar uma meia-final da EuroCup feminina, na Turquia, e ainda jogava no Inatel. "Na semana que anteceu o jogo europeu tinha jogo do Inatel mas achei prudente não jogar, para evitar uma lesão. Mas acabei por fazê-lo e parti o escafóide a tirar uma falta ofensiva. Adiei a operação e pedi ao fisioterapeuta para me ligar a mão com aquelas bandas da cor da pele, para não se notar. Ninguém me deixaria apitar o jogo com a mão ligada e eu sabia disso. Ficava com lágrimas nos olhos só de sinalizar os números para a mesa, pois quase não conseguia abrir a mão..."

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Os jogadores mais difíceis de apitar

Na tradicional série de perguntas de resposta rápida, Sónia Teixeira revelou os dois jogadores mais difíceis de apitar, explicando porquê. "São todos os que colocam muita intensidade no jogo e nunca desistem, são imprevisíveis. Posso dar dois exemplos recentes: Tanner Omlid (FC Porto) é tremendamente difícil de arbitrar porque nunca podemos desligar. Ele também nunca desliga. São coisas no limite, difíceis de ajuizar e a probabilidade de errarmos é grande. A forma como ele joga a atacar e a defender coloca um grau de dificuldade muito elevado no que fazemos. Outro jogador, que já não está em Portugal mas representa a Seleção, é o Travante Williams. Também tremendamente imprevisível, a sacar muitas bolas", lembrou.

Já sobre a maior ofensa, descreveu episódios pouco dignos. "Recebi algumas mesmo muito feias. Quando se viram para mim, ou para outra mulher árbitra, e me mandam para casa coser meias ou para a cozinha, é tremendamente ofensivo. E pior ainda vindo de mulheres...", lamentou. Em contraponto, recordou o maior elogio, que ainda assim tinha segundas intenções: "Fizeram-me um pedido de casamento desde a bancada. Disseram 'oh Sónia, se deixares de arbitrar caso contigo'. Mas como não achei a proposta honesta [risos]... para mim os maiores elogios nem sequer são verbais. É quando vou arbitrar um jogo e sinto que as pessoas ficam felizes por me ver ali."

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Por João Socorro Viegas
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