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Vítor Gamito: «Passei ao lado de uma carreira internacional»

Vítor Gamito: «Passei ao lado de uma carreira internacional»

APÓS oito épocas como profissional (duas das quais cumpridas ao serviço de uma equipa espanhola, a Estepona) e quatro segundos lugares na Volta a Portugal, Vítor Gamito conseguiu concretizar, aos 30 anos, uma das ambições mais marcadas do universo desportivo português. O corredor lisboeta exorcizou, finalmente, o "fantasma" dos sucessivos azares, desfalecimentos ou erros de estratégia para atingir o sucesso, que, reconhece, poderia neste momento verificar-se também além-fronteiras. Agora, o ciclista diz que vai "engordar uns quilos" e desaparecer de circulação durante uma semana, para depois regressar à estrada "a sério" por forma a preparar a presença nos Jogos Olímpicos de Sydney, onde espera conseguir um lugar no "top-ten" do contra-relógio. A entrevista, após o sucesso, é um exemplo paradigmático da luta interior que marcou uma carreira com momentos de autoconfiança inabaláveis e períodos de descrença e receio com contornos dramáticos.

- Domingo foi o dia mais feliz da sua vida?

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- Não. Foi o segundo dia mais feliz da minha vida. O primeiro foi o dia do nascimento da minha filha.

- Alguma vez lhe passou pela cabeça que poderia terminar a carreira sem ganhar uma Volta a Portugal?

- Sim. Depois de falhar quatro vezes pensei em tudo. Quando vi a lista de concorrentes fiquei um pouco preocupado, até porque não sabia o estado de forma em que me encontrava. Entrei na Volta um pouco aquém, mas melhorei gradualmente, enquanto os meus principais adversários entraram mais fortes e depois baixaram. Ao princípio fiquei com algumas dúvidas. Mesmo sábado, antes do contra-relógio, pensei que podia ter algum azar. Pensei em tudo. Por azar, as mudanças da bicicleta de contra-relógio deixaram de funcionar a cinco minutos da partida. Pensei logo: "Não me digam, por amor de Deus!" Coloquei uma pilha nova, a qual estava em piores condições que a velha. Acabei por substituí-la outra vez. Mas, se não houvesse qualquer azar, estava fora de questão perder a amarela. Em condições normais e com a vantagem que dispunha - podia ceder três segundos por quilómetro -, era praticamente impossível perder a Volta. A minha dúvida era se conseguiria ou não ganhar a etapa. Queria mesmo ganhá-la.

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- Quando é que sentiu que esta era realmente a "sua" Volta?

- Quando ganhei o contra-relógio.

- Não foi na serra da Estrela?

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- Não. Sou muito cauteloso e não costumo deitar foguetes antes da festa. Com os azares que já tive na vida não posso dar-me a esse luxo. Só quando apanhei o Moller é que vi que esta era a minha Volta.

- Quando ganhou no alto da Torre teve um gesto de euforia...

- Foi apenas porque tinha ganho a etapa. Um dos meus sonhos era ganhar na Torre. Não foi por causa da camisola amarela. Não pensei que tinha dado o primeiro passo para a vitória. Ganhar na Torre era um dos meus objectivos prioritários nesta Volta. Tinha feito anteriormente um segundo e dois terceiros lugares nesse local. Tal como todos os ciclistas, também eu tinha a ambição de ganhar essa mítica etapa. A camisola amarela veio por acréscimo. No ano passado também vesti a amarela na Torre, mas acabei por a perder. Neste ano já estava vacinado contra essa situação.

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- Os quatro segundos lugares constituíram um obstáculo?

- Não, longe disso. Se fosse fraco psicologicamente já não era ciclista. Estava atrás de uma secretária a mexer num computador.

- O aspecto psicológico foi fundamental para a vitória?

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- O triunfo ficou a dever-se, sobretudo, à persistência e à maturidade que fui conquistando ao longo dos anos. Mudei a forma de treinar, correr, comer e pensar. Fui aprendendo com os erros. Tive um calcanhar de Aquiles nos quatro segundos lugares, ou seja, em todos eles cometi erros. Desta feita, juntei todos os erros e tentei eliminá-los. Neste ano não cometi erros ou, pelo menos, cometi muito menos.

A LIÇÃO ESPANHOLA

- Sentiu alguma vez que passou ao lado de uma grande carreira internacional?

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- Continuo a sentir que, de facto, passei ao lado de uma carreira internacional. Tive a infelicidade de não ter ido para uma equipa de "top" em Espanha. Haveria outras que me ofereceriam melhores condições para poder progredir internacionalmente. Se isso tivesse acontecido, provavelmente continuaria no estrangeiro e teria feito uma boa carreira. Como não me senti bem, decidi regressar. Não tinha outra possibilidade... Correr no estrangeiro é uma espécie de sonho que qualquer ciclista ambicioso deve ter. Aprendi muito nesses dois anos. Foi a partir dessa experiência que evoluí como corredor, fiquei mais completo e aprendi a sofrer mais nos treinos. Desenvolvi, também, o método das dietas. Um exemplo: antes de ir para Espanha, o meu peso em forma era 67 kg, enquanto agora é 64 kg. Não estou arrependido, mas, como já referi, prefiro correr em Portugal, pois estou mais perto da família e dos amigos. Não nego, também, que o facto de não ter ingressado na equipa certa me deixou algumas marcas.

- Já está a pensar em revalidar o título no próximo ano?

- Sim, claro. Agora que lhe apanhei o jeito, vou ver se consigo conquistar mais duas ou três seguidas.

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- Que vai fazer com o dinheiro (3750 contos) da vitória na Volta?

- Não dá para fazer nada. A maquia é dividida por todos os corredores. Portanto, fico com trezentos e tal contos. Nem dá para fazer uma boa festa. O dinheiro é quase irrelevante. Se fosse por ele não valia a pena fazer tanto esforço.

- O triunfo vai mudar-lhe o modo de encarar a vida?

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- Transmitir-me-á maior segurança. A partir de agora arriscarei mais. Ficarei mais liberto para fazer o que me der na real gana. Deixarei, também, de ter tantas preocupações. Esta vitória tem um sabor muito diferente do que teria há uns anos atrás. À medida que os anos vão passando, o desejo de ganhar é cada vez maior... É que foi muito complicado chegar à vitória na Volta a Portugal. Se tivesse sido à primeira tentativa, pensaria que isto tudo era muito fácil. Quanto mais difícil, mais gostoso se torna.

- Porque é que é cada vez mais difícil chegar à vitória?

- Porque nos primeiros anos que comecei a correr a Volta a concorrência não era tão forte. Nos últimos tempos, a concorrência aumentou e começaram a participar na corrida ciclistas de nível internacional. Cada vez é mais complicado...

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- Apesar disso, você ganhou com quase quatro minutos de vantagem em relação ao segundo classificado...

- Ainda me custa a entrar na cabeça como é que ganhei com uma diferença tão grande. Se calhar, sou como o vinho do Porto, dado que o trabalho para esta Volta foi semelhante ao dos outros anos. Amadureci, tornei-me mais calmo na minha maneira de agir e, provavelmente, arrisquei mais. Fiz coisas que deixaram algumas pessoas impressionadas. Estou a falar, por exemplo, da etapa do Lordelo, quando ataquei logo à entrada mas as coisas não correram da melhor maneira. Os treinadores de bancada começaram logo a dizer que tinha saído muito cedo. Respondi-lhes sempre que nada tinha a perder porque o segundo lugar já estava garantido: "O segundo ninguém mo tira, agora quero experimentar o primeiro", disse várias vezes ao críticos.

- Quando surgiu a sensação que era, de facto, o mais forte?

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- Apercebi-me que estava bem na chegada a Portalegre. Fiquei com a certeza absoluta que, caso não houvesse nenhum azar, não perderia a amarela no contra-relógio. A minha dúvida era: "Consigo ou não ganhar a etapa?" Nunca me passou pela cabeça perder 1.40 minutos, apesar de todo o respeito que sempre tive pelos adversários. Ganhei a etapa e fechei a Volta com chave de ouro.

- Este sucesso é a confirmação de uma carreira sempre ascendente?

- Sim. Nunca houve um ano em que tivesse uma quebra. Se isso aconteceu foi apenas devido a problemas de saúde. Talvez tenha a ver com o amadurecimento das ideias ou com o nível de forma física. Talvez seja um pouco as duas coisas. Talvez seja, também, a forma de treinar com acompanhamento médico. O dr. Benjamim Carvalho tem-me dado um apoio bastante grande. Tudo isso junto fez de mim um ciclista mais completo. Talvez não tão bom nos contra-relógios e a rolar como era antigamente - é agora o meu calcanhar de Aquiles -, mas bastante melhor na montanha. Foi, de facto, uma boa opção, pois Portugal é um país que tem corridas bastante duras.

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- E agora, que é que vai fazer nos tempos mais próximos?

- Esta semana vou começar por fazer uma dieta de engorda, vou ver se ganho dois quilos. Estou farto de comer esparguete com frango, arroz ao pequeno-almoço e comida de hotel e de restaurantes. Tenho em casa umas sobremesas preparadas pela minha mulher e já lhe encomendei uns pastéis de Belém. Um ciclista não pode pensar só na bicicleta. Precisa de descansar e aliviar o "stress". Depois de conceder todas as entrevistas que tenho agendadas, desligarei o telemóvel e desaparecerei durante alguns dias. Mas depois volto...

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