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"Ele dizia que preferia morrer a lutar em vez de viver a fugir." Lamentavelmente, estas palavras tornaram-se reais para João Carvalho, lutador de artes marciais mistas (MMA), que ontem faleceu aos 28 anos. ‘Rafeiro’, como era conhecido, estava internado desde sábado, dia em que se estreou internacionalmente, numa derrota com Danny Ward, em Dublin, na Irlanda. Derrotado por ‘knockout’ técnico, tudo até parecia estar bem com o português, que vivia em Monte de Caparica, mas o seu estado piorou, foi operado ao cérebro e não resistiu.
"Ninguém sabe o efeito dos golpes na cabeça. Depois de cairmos, ficamos tontos mas recuperamos. O João não morreu devido ao que sofreu neste combate. Ele morreu por causa do sonho que tinha e pela forma como se entregou", conta-nos Artur Lemos, parceiro de João na Nóbrega Team e o responsável pela declaração com que este texto começa.
Quem estava em Dublin era Vítor Nóbrega, treinador de João, que explica o sucedido e defende a modalidade. "Os árbitros, treinadores e médicos podem parar o combate se virem algo de anormal. Isto era algo interno, que ninguém conseguia ver. Esteve sempre consciente. Caiu várias vezes ao pé de mim, eu dava indicações e ele fazia tudo, mostrava lucidez. Foi uma surpresa...", disse a Record.
Um pai de família brincalhão
Desengane-se se pensa que os lutadores de MMA têm de ser pessoas agressivas. É que o ‘Rafeiro’ só entrava nesse modo quando era hora de lutar. "Ele era fantástico, sempre a brincar. Às vezes, até tínhamos de parar os treinos e dizer que ele tinha de se concentrar. Brincava com as nossas quedas, a nossa roupa, tudo!", lembra Helson Henriques, outro dos parceiros de João. "Era um pessoa muito íntima... Partilhámos grandes momentos e está a ser uma grande perda", acrescenta Vítor Nóbrega.
Para trás, João deixa dois filhos – um de 10 e uma de 5 – e um futuro promissor. Ele, que começou por praticar jiu-jitsu com Artur e Helson, já tinha feito dois combates (venceu ambos), mas sucumbiu à exigência da modalidade e a uma fatalidade. "Nós passamos mais tempo no ginásio do que em casa. Ele podia ter sido um grande atleta, tinha um grande futuro pela frente", explica-nos Nóbrega, enquanto Artur, sempre emocionado, sintetiza a imprevisibilidade da situação. "Todos têm um plano até levarem um soco na cara", conta. Certo é que João passou a ter um país de lutadores a combater sem o esquecer.
Equipa garante cuidados de topo
Determinada a esclarecer quaisquer polémicas, a Team Nóbrega foi rápida a emitir um comunicado através do Facebook, onde garantiu que João Carvalho recebeu o melhor acompanhamento possível por parte da equipa do evento onde estava a participar (TEF-MMA). "Após um combate onde a arbitragem seguiu todos os procedimentos corretos e habituais, o atleta João ‘Rafeiro’ Carvalho sentiu-se mal, cerca de 20 minutos depois. Ainda no local foi imediatamente assistido pela equipa médica presente, sendo depois transportado rapidamente para o Hospital Beaumont", pode ler-se, antes de ser mencionado o "permanente acompanhamento médico que teve por parte da organização do evento e do hospital irlandês". Naturalmente, a equipa confessou grande "consternação e tristeza".
Duelo com Ward foi preparado ao detalhe
A cumprir um plano de trabalho exigente, que incluía treinos duros e dieta rigorosa, João Carvalho era um trabalhador. Aliás, até para esta combate estava tudo preparado ao mais ínfimo pormenor. "A duas semanas das lutas, já ninguém bate na cabeça para não haver sequelas. Foi tudo bem planeado e o João estava preparado para este combate, para os golpes de boxe de que o adversário gostava", refere Artur Lemos, ao passo que Helson Henriques explica mais acerca da vertente do treino. "O atleta sofre mais nos treinos do que no combate. Ele até podia já ter algo que vinha de trás. É um desporto muito seguro, passa por todos os padrões de segurança."